Ricardo
Que dormência. Não me consigo mexer. O que aconteceu? Estarei a sonhar? Nem consigo abrir os olhos. Não oiço. Não sinto. As minhas mãos estão presas, os meus pés não mexem, nem oiço o meu coração.
O que aconteceu?
Não pode ser. Ainda agora, ou terá sido há muito tempo, vinha no carro com o Orvílio, o António e o padre Agostinho em amena cavaqueira e, de repente, fiquei imóvel?
Onde é que eles estão? Não os vejo, não os sinto. Tento chamá-los, mas a escuridão é total. Absoluta. Não há qualquer ruído.
A minha boca não responde… Que sonho esquisito! Mas será mesmo um sonho?
E no entanto… Vem cá meu amor. Ainda há pouco te deixei debaixo daquela maldita chuva com a promessa de que, no próximo fim de semana, receberei a tua visita no Funchal. Bem sei que é mais fácil para nós estarmos juntos assim fora de casa. Ninguém nos chateia. Na Ponta Delgada podemos estar juntos, dormir juntos, sentirmo-nos, amar-nos intensamente sempre que quiséssemos, sempre que pudermos, até que o cansaço nos leve.
Até parece que acabei de ficar exausto, tal como na última noite, até de madrugada, antes de ir para o autocarro. Ainda mal passaram algumas horas. Ou foram dias? Já nem sei. Acho que estou perdido, preso nesta escuridão, amarrado e não me consigo libertar. Nada me dói… Estarei a delirar? Mas como?
Vou tentar adormecer, pode ser que a chuva passe e eu acorde. Não estava a chover? Claro que estava. Uma chuva intensa que o padre Agostinho mal via a estrada. Estávamos de regresso à Ponta Delgada porque uma derrocada não tinha deixado o autocarro passar em Santana. O padre ofereceu-nos boleia para voltar.
E fiquei tão contente. Podermos estar juntos novamente, durante muito tempo, até que as estradas pudessem abrir. Mas algo está errado e não sei o que é. Prometo contar-te tudo, dizer-te quanto te amo e que quero ser o homem da tua vida. Não fazes ideia, meu amor. Vou fazer de tudo, o possível e o impossível para que possamos ser felizes até ao final dos nossos dias. Ainda mal começaste a trabalhar, mas para o ano, com certeza, já não vais ter que dar aulas aí, nessa terra distante. E vamos ficar mais próximos. Quem sabe, até nos casamos logo. Com certeza, seremos os dois seres mais felizes do mundo.
Ao chegar à Fajã do Penedo, ainda me lembro que parámos um bocado na curva. A chuva parecia uma cortina de água, como uma cascata. Não era chuva, era uma cascata. Isso, uma cascata. De verdade fiquei com um pouco de medo, mas o padre Agostinho, sempre bem disposto, alimentava-nos a esperança e fazia-nos rir, fazendo-nos acreditar que tudo iria correr bem, muito bem. Deus, dizia ele, não nos ia abandonar e ia proteger-nos.
Mas a verdade é que aqui estou. Não sei onde, não sei há quanto tempo, não vejo, não sinto. Até parece que estou a flutuar. É isso! Já me consigo mexer, mas não tenho caminho, flutuo. Não há nada à minha volta. A escuridão total.
Bilheteiro. Oh biheteiro!, grito com todas as minhas forças, mas ninguém responde. Senhor padre, está a ouvir-me? António. Oh motorista? Onde é que estamos? O que aconteceu?
Irvino
Que raio de maldita chuva. Há anos que faço este trajeto e nunca vi tal coisa. Como é possível chover tanto de uma vez? Só mesmo o padre Agostinho para nos fazer rir e fazer de conta que a chuva era uma dádiva de Deus e que tudo iria correr bem.
Mas agora não me lembro. Já nem sei onde estou. António? Onde estás? Sabes onde estamos? Mas que coisa esquisita. Não consigo falar. Falo só para mim? Padre Agostinho, sabe de alguma coisa? Diga-me. Onde estão todos? Onde estou eu?
Que coisa… Não vejo ninguém. Até a minha perna… Não a sinto. Até parece que a perdi. Mas estou cansado. Como fiquei assim? Estarei a sonhar? Que cansaço. Acho melhor fechar os olhos. Quando acordar logo vejo o que se passou. Mas é estranho. Como é possível tanto silêncio? A chuva parou? Mas há quanto tempo é que isso foi? Estava a chover imenso e o padre Agostinho dizia que era para irmos em frente, que conseguíamos passar, apesar da tormenta. Hummm. Estranho. Que coisa…
António
Aquelas pedras no caminho continuam a fazer-me confusão. Como é que passámos por elas? É verdade que disse ao padre para não seguirmos em frente, que podia ser perigoso, mas ele logo me respondeu que, com a graça de Deus, tudo haveria de correr bem e que confiássemos na misericórdia divina. Se ficássemos parados no meio da estrada era pior. O melhor era avançar e sair dali rapidamente, evitar as pedras, e chegar sãos e salvos a Ponta Delgada.
Só que já não me recordo. Ficou tudo parado e agora não sei onde estou. Não sinto nada, não vejo, não consigo falar, não sinto frio nem calor, parece que estou num sonho.
Eu é que deveria ter conduzido o carro do padre. Como assim, eu é que sou um motorista profissional. O padre pode ser o pastor de Deus, mas eu é que sei conduzir.
Mas onde é que ele está?
Padre Agostinho! Eu grito mas ele não me ouve. Irvino. João Irvino, porra, onde é que andas? Estás aí? Fala homem, deixa de ser amuado, se estás a dormir, acorda. Ajuda-me, não consigo ver nada, não sinto nada, parece que apanhei uma senhora pancada na cabeça e não sei nada. Anda cá caralho. Mexe esse rabo. Está aí o rapaz que foi connosco na camioneta? Também não o vejo. Onde estão todos?
Foda-se. Onde é que raio me vim meter? Desculpe padre, se me está a ouvir, mas não sei dizer de outra maneira. Numa ocasião como esta só me apetece dizer palavrões. Bem sei que isso não resolve, mas alivia a alma. Prometo que depois me confesso a si e você dá-me a penitência que quiser. Vou tentar seguir em frente, percorrer a estrada que me falta. Mas como, se nada sinto, nada vejo, e estou a adormecer? Foda-se, caralho!
Agostinho
Coisa esquisita. Para onde é que eles foram? Então dei-lhes boleia para voltar a casa e eles desaparecem assim sem mais nem menos? Mas como, se não parei o carro? Hummm. Mas, vendo bem, onde está o carro? Onde está o volante? Estou perdido.
Ó meu Deus. Estou a sonhar? Aconteceu alguma coisa?
Deus meu, ilumina o meu caminho, traz de volta os meus companheiros de viagem. Tenho de os deixar em casa, junto das famílias. Com certeza eles estão preocupados. Sinto que eles já desapareceram há muito tempo. Mas não dei por nada. Como é possível? Será que perdi os sentidos? O António, lembro-me bem, disse que queria conduzir, porque tinha mais experiência, mas a chuva era tanta que nem dava para mudar de lugar. Até lhes contei uma piada de São Pedro ao receber alguns pecadores nas portas do paraíso, mandando todos eles para o Purgatório, mas nem isso os alegrou. Ficaram chateados? Mas como é que saíram?
Ajuda-me meu Deus! Mostra-me o caminho. Estou perdido. Acho que nunca me senti tão perdido como hoje.
É que nem sei onde estou. Não sinto, não vejo, não oiço, a escuridão é total, tento falar mas nada sai e nem me consigo mexer. Estou num colete de forças. Até parece que estou enterrado vivo. Só o meu cérebro funciona. Se falo, o meu cérebro pensa que fala, mas não sai nenhum som. Não sinto a boca, os olhos, os ouvidos, os braços. Acho que perdi os cinco sentidos.
Terei morrido? Mas se morri, porque não vejo as portas do Céu? Porque não há luz? E se passei a vida a pregar a tua vontade e agora descubro que não há nada? Mas se não há nada, porque é que continuo a pensar? A lembrar-me de algumas coisas, mas sem saber onde estou? Estarei ainda no purgatório? O purgatório é isto? Não pode ser.
Deus meu, que és bondoso e misericordioso, sabes bem que a minha fé em ti é inabalável. Por isso te peço, abre-me a porta. Deixa-me ver a luz para que eu encontre os meus passageiros e os possa levar comigo. No mínimo, não havendo nada mais, nem que seja irmos beber uma poncha na tasca do Manuel.
Quanto tempo vou ficar assim? Podes dizer-me? Fiz alguma coisa de mal?
Acho que estou a adormecer. De repente fiquei tão cansado, tão cansado, que só me apetece dormir, mas a minha cabeça não deixa, por assim dizer. Estou preocupado com os meus companheiros de viagem.
Pronto, acho que vou mesmo dormir. Não consigo estar acordado. É como se estivesse indo. Amanhã, quando acordar, saberei que o meu sonho foi apenas um sonho e espero acordar na minha cama.
GM | 03/26

Fonte: Diário de Notícias, 24/01/1979