Uma área de encanto e mistério rodeia um dos meus trisavós paternos. Sérvulo Gonçalves, nasceu em São Vicente, Madeira, no sítio das Feiteiras, no ano longínquo de 1845.
Olhando para a história do mundo desse tempo, estava-se a chegar ao fim de uma era a que Eric Hobsbawm chamou “A era das Revoluções”: No campo social e político estava a revolução francesa e as suas consequências mais directas em toda a Europa e Américas, e da revolução industrial, que, já então se assumia como clara vencedora nesse duelo de titãs entre a política e a economia.
Podemos até pensar que Maria Rosa, mãe de Sérvulo, minha tetravó paterna, nada tem a ver com essas coisas, “enfiada” como estava na pacatez verde e límpida dos vales de São Vicente. Que, com toda a certeza, estaria alheia ao turbilhão que assolava a Europa. Como poderia? As notícias corriam tão devagar, os costumes eram rígidos, a liberdade era uma miragem e o papel das mulheres estava reservado às lidas da cama e da casa.
Por razões que, para já, desconhecemos, Maria Rosa, não sabemos com que idade, estabeleceu-se em São Vicente, onde terá vivido, vinda da freguesia dos Canhas, concelho da Ponta do Sol. Embora documentos posteriores ao nascimento de Sérvulo digam ser natural de São Vicente.
No refúgio do vale sãovicentino encontrou o amor que gerou o meu trisavô Sérvulo que foi batizado no dia 14 de Dezembro de 1845. Os primeiros documentos de Sérvulo indicam que ele era filho de pai incógnito, mistério que só é desvendado muito mais tarde, em alguns documentos constantes no seu passaporte que o identificam como sendo filho de Vicente Gonçalves. Maria Rosa, a que, entretanto, se acrescentaria Jesus, no entanto, continuou solteira.
Um casamento fora de tempo, com 4 filhos
Temos assim que Sérvulo Gonçalves é fruto de uma eventual relação ilícita. E se podemos imaginar os problemas que, à época, Maria Rosa teve de enfrentar, o que fica registado é que Sérvulo Gonçalves seguiu as pisadas libertárias da mãe. Daí podermos inferir que os ventos que mudavam a Europa e o mundo em meados do século XIX varriam também, ainda que ao de leve, a sociedade tradicional, hierarquizada e conservadora do norte da ilha.
Só assim podemos compreender que Sérvulo contraia o seu primeiro casamento, no ano de 1885, antes de completar 40 anos, com Maria de Sousa Abreu, de 49 anos de idade, também natural de São Vicente, filha de António de Abreu e de Vicência Maria de Sousa. E, o mais surpreendente, que no assento de casamento, sejam legitimados os seus quatro filhos: Sérvulo, nascido em 1874, Manuel, em 1877, Maria da Conceição, minha bisavó, em 1878, e Eulália, em 1883.
O que levaria um casal a só contrair o matrimónio e, segundo os cânones da época, a «deixar de viver em pecado», só depois de ter quatro filhos?
A explicação parece simples à luz do passaporte de 1885 que os leva para o Brasil. Isto é, Sérvulo e Maria casaram a 15 de Janeiro de 1885 e, no mês seguinte, é-lhes concedido o passaporte para viajarem, com os filhos para o Brasil.
No pedido de passaporte, disponível nos Arquivo Regional da Madeira, um conjunto de folhas de papel selado, com cópia dos assentos de casamento, e baptizados de toda a família, Sérvulo Gonçalves é identificado como um homem medindo 1,65 m, de rosto comprido, olhos castanhos, cabelo direito, boca regular, cor natural e barba preta. Maria, por seu lado, media 1,48 m, “rosto comprido, olhos pretos, cabelo direito, e boca e cor naturais”.
Dos 4 filhos, apenas dos dois rapazes estão referenciados. Sérvulo media já 1,16 m, rosto comprido, olhos pretos, cabelo castanho e boca regular e cor natural, enquanto Manuel, media 1,10 m, “rosto redondo, olhos pretos, cabelo louro, boca regular e “cor natural”.
Maria, então com 5 anos e Eulália, com 2, não tem as suas características discriminadas.
Não sabemos exatamente em que dia foi efetuada a viagem. Mas sabemos que foram pagos 126 mil reis, para toda a família, na 3ª classe de um navio que os levaria, do Funchal até ao Rio de Janeiro, tendo depois seguido para estado de São Paulo, onde se estabeleceram (de acordo com um testemunho oral do seu bisneto Amadeu, já falecido).
Sete anos depois, noutro passaporte, emitido em 1892, Sérvulo Gonçalves volta a embarcar, desta vez a bordo do vapor Aquitaine, com destino a São Paulo, onde desembarca no dia 11 de Julho de 1892. Desta vez já casado com a sua segunda mulher, Teresa Luísa de Jesus, filha de Vicente Gomes de Medeiros e de Luísa Rosa, também naturais de São Vicente.
A acompanhar o casal vão as duas meninas, filhas do 1º casamento. Maria, já com 14 anos, e Eulália com 10.
Maria media já 1,40 m, “rosto redondo, olhos castanhos, cabelo direito, boca regular, nariz direito e cor natural”. Eulália, por seu turno, era de cabelo louro.
Hospedaria do Imigrante

Foto de 1892, o ano em que Sérvulo fez a 2ª Viagem. Estarão Sérvulo e a família aqui retratados?
Da cidade portuária partiram em direção à capital do estado de São Paulo, tendo sido recebido na Hospedaria do Imigrante onde os imigrantes eram acolhidos por períodos temporários, regra geral oito dias, antes de partirem para os seus destinos.
A Hospedaria de Imigrantes, onde hoje funciona o Memorial do Imigrante, podemos ler no site, “era um enorme conjunto de prédios destinado a abrigar os recém–chegados nos seus primeiros dias em São Paulo. Após a cansativa viagem, os imigrantes ficavam na Hospedaria por até oito dias. Em geral esse prazo era suficiente para que acertassem os seus contratos de trabalho. Nesse período utilizavam gratuitamente todos os serviços disponíveis. Lá eles dormiam, faziam as suas refeições, recebiam atendimento médico e conseguiam seus empregos. “
O Memorial do Imigrante, do Estado de São Paulo, é uma instituição que tem como missão “Promover a busca das identidades individuais e coletivas, constituindo-se em espaço de expressão e reconhecimento da diversidade brasileira por meio de resgate, preservação e disseminação da história e da memória das migrações no Brasil”.

Memorial do Imigrante, 1887

Depois de alguns contactos, tive o prazer de receber, graciosamente, os documentos que certificam a passagem do meu trisavô por aquele espaço e que aqui reproduzo. Uma cópia do documento original e um certificado validando essa passagem.
A partir daqui, para já, não temos conhecimento exato do que se terá passado. Para a história fica o regresso de Maria à Madeira, onde contraiu matrimónio no dia 17 de Agosto de 1902 em Câmara de Lobos, com Francisco Gonçalves Delgado, nascido na freguesia do Monte, Funchal, mas cujos pais eram naturais da Madalena do Mar, concelho da Ponta do Sol.

Embora sem dados muito concretos, há referências ao sucesso, pelo menos relativo, da descendência de Sérvulo Gonçalves no estado de São Paulo, onde a família terá “ocupado” uma rua por sua conta com os seus negócios. Se algum deles ler esta pequena história, que saiba que estamos por aqui.

