Quarta-feira, Junho 3, 2026
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Cortar o mal pela raiz – Parte I

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“Cortar o mal pela raiz” leva-nos aos primórdios do povoamento da ilha da Madeira e aos encontros e desencontros do amor. Para que cada momento respire como merece, esta Estória com História, parte verdadeira mas ficcionada, será partilhada em três partes, ao longo das próximas três semanas. Não é um folhetim mas um convite a deixar a história pousar antes de continuar. Até à semana que vem.

A Chegada

— I —

Sem nada de seu, Diogo aceitou a sugestão do pai. “Parte. Vê se encontras nas ilhas do Senhor Infante a sorte que aqui nunca encontrarás.”

Não havia muito a fazer. As longas planícies alentejanas já não eram capazes de oferecer grandes perspectivas de futuro. Todos os homens de valor se iam. Pelo contrário, as notícias que chegavam do oceano imenso estavam a quebrar os medos e a despertar a esperança, levando muitos na procura da aventura, na doce perspectiva de um novo mundo que, aos poucos, se ia alargando, com promessas de riqueza fácil e jardins idílicos onde corria a água, o leite e o mel.

Desde que a gesta marítima tinha começado, e já lá iam umas dezenas de anos, o reino começara a ficar despovoado. Encurralado por Castela contra o Atlântico, o pequeno reino habituara-se a olhar para o mar imenso, desconhecido e tenebroso, criando aos poucos uma empatia irresistível, qual atracção fatal que o iria marcar nos séculos seguintes. A esse olhar preso pelos mistérios do horizonte, juntava-se a pressão castelhana, encurralando o reino. Com a espada peninsular em permanente posição de ataque sobre a sua cabeça, de um lado, e a barreira marítima desconhecida do outro, não havia muitas soluções. O futuro só poderia estar para lá do horizonte.

Um verdadeiro dilema. África ou Atlântico? Se o continente negro estava mesmo ali à mão, perto, à distância de uma travessia rápida, os mouros eram difíceis de dobrar. Na memória colectiva continuavam as histórias da reconquista, do labor, das gerações inteiras que se gastaram para conquistar, metro a metro, o rectângulo que se estendia da Galiza ao Algarve. África significava o recomeço dessa luta, com garantias incertas de sucesso, apesar da sedução das rotas do ouro serem mais do que suficientes para pôr a mexer os cavaleiros mais acomodados às terras que lhes tinham sido atribuídas pela coroa.

O Atlântico por seu lado era sinónimo de incógnita absoluta. O mar imenso, desconhecido, muitas vezes tenebroso, perigoso, cheio de lendas, fantasmas, monstros e superstições, era simultaneamente uma oportunidade, um desafio e uma aventura no mais profundo sentido do termo. As garantias de sucesso eram nulas, mas a esperança tinha a dimensão da alma.

Foi com essa alma imensa povoada de ilusões que milhares de portugueses fizeram das frágeis barcaças do Infante os caminhos mais seguros na conquista do oceano furibundo que não perdoava as fraquezas do homem e a ingenuidade da sua tecnologia.

Com uma carta de recomendação, Diogo Barradas partiu para Sagres ao encontro de Tristão Vaz, que ali se encontrava há já algum tempo, a quem ofereceu os seus serviços. Perante tanta carência de braços e, principalmente, de cabeças, a oferta de Diogo pareceu a Tristão caída do Céu. Não era todos os dias que um fidalgo, mesmo que da baixa nobreza e falido, vinha oferecer os seus serviços quase ao preço de nada.

O jovem não devia ter mais do que vinte anos, estatura mediana, cabelos levemente ondulados, olhos castanhos profundos, nariz médio, uma barba ainda rala. Os seus ombros largos, os braços compridos e as mãos fortes impressionaram positivamente Tristão que, desde há algum tempo, procurava jovens de valor para, com os seus filhos, incrementar as culturas de cana-de-açúcar.

Tristão olhou uma vez, duas… A necessidade de homens nas terras da capitania obrigava-o a contratar o jovem oferecido. No entanto, não sabia bem porquê, algo lhe dizia que este poderia trazer-lhe problemas. Se, por um lado, lhe agradava o seu físico robusto, achou que era belo demais como homem. “Pode ser um problema com as mulheres” — pensou para si mesmo. Pragmático, no entanto, como era, olhou fixamente Diogo nos olhos e prometeu-lhe:

— Viajas comigo na próxima viagem!

O verde imenso do vale de Machico, a profundidade dos seus verdes, em contraste com a planura seca alentejana impressionaram o jovem Diogo que, ao descobrir a ribeira correndo com as suas águas límpidas, mais lhe pareceu estar a caminho do paraíso. Um novo começo. Um recomeço. Um novo início que fosse capaz de apagar de vez a má fama que, injustamente, carregava do passado.

Durante a atribulada viagem na barca de Tristão alguns dos marinheiros contaram-lhe maravilhas da nova terra. No entanto, quando pela primeira vez pisou o solo ilhéu, achou que os relatos que tinha ouvido tinham pecado, todos, por defeito. Ficou deslumbrado.

Para trás ficava uma obscura história de uma família que, dizia-se, teria origens num grupo real que acompanhara um grão-vizir muçulmano, aliado de “El-Cid” na reconquista cristã da Península. A essa suspeita berbere, na memória popular estava também uma antiga acusação de traição que terá obrigado os seus antepassados a refugiar-se em Espanha, o que levou à ruína da família. A injustiça, todavia, apesar de reconhecida anos mais tarde, provocou a desgraça da família e o reconhecimento pelo engano e perdão reais não conseguiram nunca restabelecer o prestígio que os fidalgos da Torre Barradas de Beja tinham alcançado no passado. Talvez por isso mesmo o nome Barradas, apesar de todos os perdões, era sempre olhado com alguma suspeição.

“O nome não o favorece”, diria alguns dias mais tarde Branca Teixeira, a meio da noite, em conversa com Tristão, recuperando o tempo perdido nas ausências.

— Como assim? – perguntou-lhe o donatário.

— Nunca ouviste dizer que Diogo, sendo um nome de alguém que é instruído, cheio de capacidades e de liderar, é também um dos nomes do demo? — e dizendo isto benzeu-se repetidamente, levou os dedos à madeira do leito e bateu três vezes, levantando os olhos para o crucifixo suspenso atrás da cama com dossel. — Além disso também quer dizer belo. E, na verdade, ele é um belo rapaz – concluiu Branca.

Esta última observação colocou Tristão em alerta. Nada que ele próprio não tivesse pensado, ainda no Algarve. As suas filhas mais novas… Era evidente que ele queria casá-las, mas não seria com um fidalgo falido, com certeza. Isso estava fora de questão e, antes que algo acontecesse, era preciso afastar o lume da estopa.

— II —

De estatura elevada, rosto alongado, nariz aquilino, imponente, olhos penetrantes, algumas rugas de expressão, cabelo farto, comprido até à altura do pescoço, levemente ondulado, a barba grisalha, não muito comprida, sem bigode, Tristão Vaz impunha-se por si próprio. Os seus conselhos eram ordens, as suas recomendações faziam-se leis. O seu prestígio, a sua bravura nas campanhas marítimas, o destemor enfrentando as tempestades, a audácia nas conquistas e captura de escravos faziam do capitão Tristão uma verdadeira lenda viva. Sob as suas ordens, o vale de Machico, sede principal da capitania que o Infante lhe tinha atribuído ao completar cinquenta anos, passara de uma imensa floresta virgem, impenetrável para um fértil campo de trigo. Os trabalhos de desbravamento e cultura dos cereais, no entanto, exigiam cada vez mais a sua presença. Desde o início do povoamento, duas décadas antes, a ilha da Madeira tinha-se afirmado como um verdadeiro celeiro do reino, garantindo, ao mesmo tempo, o fornecimento das embarcações que acorriam à ilha aquando das suas incursões pela costa africana. O melhor, no entanto, estava para vir. Os sinais eram muito positivos só que, mais uma vez, a ilha se defrontava com a falta de braços.

As primeiras experiências realizadas sob ordem directas do Infante D. Henrique tinham demonstrado que o futuro da ilha estaria intimamente ligado à produção de cana-de-açúcar. O ouro branco, assim denominado pelo altíssimo valor com que era comercializado nas principais praças europeias, parecia adaptar-se aos férteis solos vulcânicos da ilha como peixe na água. Daí que as ordens tenham sido claras.

— Plantar o mais possível. Produzir quanto açúcar os trapiches conseguirem extrair, mesmo com o sacrifício do trigo.

Uma tarefa hercúlea que exigia a presença do capitão no terreno para orientar as tarefas de desbravamento, construção de levadas, moinhos e engenhos. Mas ao mesmo tempo era preciso voltar ao mar. Percorrer os palmos da costa africana, bater enseada atrás enseada, saltar às ilhas Canárias e arranjar braços cativos capazes. Braços. Braços, era do que mais Tristão precisava. E nessa tarefa não havia limites.

Apesar do forte chamamento do mar e da acção pelas armas, Tristão, de cada vez que se afastava da ilha a bordo da sua nau sentia-se mais nostálgico. Aquela terra de adopção, sua por direito e por mérito, onde a grande maioria dos seus doze filhos tinha nascido, chamava-o com todas as forças. Não que se sentisse velho ou cansado. Antes pelo contrário. Sempre que pensava na sua vida passada, nas suas raízes indefinidas, achava-se com mais força para continuar. O futuro era o seu destino e aquilo que os seus olhos viam era suficientemente forte, bonito e motivante para o fazer sorrir de alegria e de esperança. Se o seu passado era nebuloso, Tristão queria que futuro fosse brilhante. Os seus doze filhos, mais do que ninguém, davam-lhe a força necessária para encarar todos os desafios que lhe eram colocados pelo Infante como tarefas naturais de um percurso de vida onde o trabalho, ao contrário do que parecia ser norma em muitas casas senhoriais portuguesas arruinadas, garantia a plena realização do homem e onde se cumpria a vontade de Deus.

A sorte, mas também o destemor e a lealdade tinham-no trazido até à ilha verde, paraíso fértil sem igual que Tristão nunca tinha imaginado existir. Por cada grão de trigo lançado à terra, o chão de Machico dava-lhe sessenta. A água que corria continuamente na sua ribeira era suficiente para alimentar os campos, mover os moinhos e pensar em novos desafios. Uma mina natural que era necessário explorar.

O que poderia ele esperar de melhor?

“Deus foi generoso comigo”, costumava ele dizer aos filhos herdeiros que o acompanhavam pelos campos e o haviam de ajudar aos poucos na gestão do quotidiano.

— III —

De regresso a Machico, trazendo Diogo Barradas a bordo, Tristão iniciou logo de seguida os preparativos para uma nova viagem. A missão que partia de Lagos e faria escala na ilha da Madeira para reabastecimento, sob ordens da coroa, devia explorar a Costa da Guiné, na procura de postos de comércio e de escravos.

— Esta será a última! — garantiu Tristão a sua mulher, Branca Teixeira, na noite antes de partir. Estava a completar cinquenta e cinco anos e começava a achar que estava a chegar a hora de deixar as viagens para os mais novos e dedicar-se completamente à sua capitania.

Levou consigo o jovem Diogo para “experimentá-lo”, confidenciou à mulher.

— Quero ver como é que ele se aguenta pelos mares desconhecidos e nas refegas contra os indígenas africanos.

A viagem, no entanto, não lhe correu de feição. Ao passar o Cabo Branco, o vento começou a soprar em sentido contrário e Tristão viu-se incapaz de acompanhar as outras embarcações. Voltou para trás, inconformado com o insucesso da expedição.

No convés da sua nau, com o olhar perdido no horizonte, Tristão Vaz colocou a mão em cima do ombro de Diogo:

— Quero que sejas minha testemunha. Esta será a minha última viagem à costa africana. Quero dedicar-me a Machico e à minha família. A tempo inteiro. Nas próximas viagens — continuou — serás os meus olhos e os meus ouvidos.

Diogo viu nos olhos do seu senhor a afirmação de quem quer e pode. Assentiu com a cabeça. Em simultâneo com Tristão, olhou o mar. A terra estava quase à vista. Na manhã seguinte, com certeza.

A prova de confiança de Tristão deu a Diogo a sensação de que a aposta que tinha feito ao abandonar o seu Alentejo tinha sido a mais acertada e que tudo se encaminhava para ter um futuro esplendoroso.

“Com jeito hei-de lá chegar!” — disse para si mesmo com forte convicção.

Acompanhando o balanço do barco rebocado pelo vento e ao sabor das ondas, Diogo deixou-se levar pelo sonho e pela aventura. Imaginou mil viagens pelos novos mares, pelas ilhas afortunadas, pelas conquistas, e pelas riquezas escondidas algures à espera que ele próprio, Diogo Barradas, chegasse com o seu destemor para as reivindicar.

O seu sonho foi interrompido quando, de madrugada o homem do leme gritou com toda a força:

— Terra, terra! Terra à vista!

O corrupio da chegada acordou toda a tripulação à vista da Ponta de São Lourenço. Machico desvendava-se logo ali.

Até chegar à abertura do vale de Machico, ao passar a Ponta de São Lourenço, a ilha parecia incaracterística. Colinas pouco acentuadas, pouca vegetação. Um descampado quase total.

O vale de Machico, pelo contrário, marca uma mudança radical. A secura da ponta dá lugar a um manto verde que sobe até às montanhas mais altas e se estende para Oeste até se perder de vista.  Correndo de norte para sul, o vale assenta entre duas cordilheiras. Uma corre a leste até ao Pico do Facho, terminando de forma quase abrupta sobre o mar e prolongando-se para leste em direcção à Ponta de São Lourenço. Do lado Oeste, a outra cordilheira montanhosa corre também abrupta, deslizando para Oeste, percorrida por pequenos ribeiros, vales pouco profundos até Santa Cruz, a poucos quilómetros de distância.

Das montanhas que envolvem o vale, brotam vários cursos de água que se juntam num corredor central, formando a ribeira que ganhou também o nome de Machico, nome esse que, oficialmente, ninguém era capaz de identificar a origem, apesar de relativamente poucos anos terem passado desde o início do povoamento. À boca pequena, no entanto, os colonos mais antigos juravam a pés juntos que o assunto tinha sido proibido das conversas públicas e privadas no concelho. Motivo? Todos diziam desconhecer, mas todos sabiam a razão. O donatário, mais directo interessado, mas também a coroa portuguesa e o Infante, não queriam que os ingleses tivessem motivo algum para reivindicar o direito à posse das ilhas. Fosse ele qual fosse. Por isso, era preciso varrer da memória a lenda de Roberto Machim e Ana d’Arfet. E como ninguém estava interessado em arranjar problemas, o assunto morreu. E o que era história passou a boato, ficando para o futuro como lenda.

A vegetação luxuriante, diferente de tudo o que conhecia deixou Diogo extasiado.

— IV—

Diogo demorou algum tempo para descobrir a vila de Machico a partir da barcaça que o trouxera na primeira viagem. O imenso arvoredo parecia ainda tomar conta de tudo, não deixando espaço para a construção. Todavia, quando o barco se aproximou mais da praia, o jovem escudeiro conseguiu distinguir, na margem direita da ribeira, a pequena igreja e, alguns metros afastados, a casa de Tristão e o edifício da capitania, tudo servido por uma alameda que se desenvolvia ao longo da praia.

A casa do donatário sobressaía no meia das pequenas construções, impondo-se pela força das suas paredes de pedra. Sobre a ribeira um pequeno pontão de madeira, frágil, dava acesso a um emaranhado de casinhas, quase todas barracões de madeira, que rodeavam uma pequena capela com o símbolo da Ordem de Cristo, subindo a encosta em direcção ao Pico do Facho. Estreitas e tortuosas vielas serviam estas habitações de pescadores e marinheiros, os homens do mar de Tristão Vaz.

Entre estes dois mundos, a ribeira, primeiro sinuosa e abrupta, depois calma e mais direita, descarregava continuamente as águas que arrancava às montanhas. Se os Verões eram calmos, os Invernos por vezes eram infernais. Havia dias em que a ribeira parecia dominada pela forças do mal tal era a quantidade de água que a enchia, invadindo os campos, ameaçando todas as culturas, arrancando as frágeis construções das suas margens, destruindo o trabalho de anos. Por isso, fortes muralhas de pedra foram edificadas para proteger a igreja matriz, a moradia de Tristão e o paço da capitania.

Para Norte, ao longo do curso de água nas clareiras descampadas arrancadas à densa floresta, conquistando as encostas, desenvolviam-se os campos de cereais e os primeiros campos de cana de açúcar. Dois moinhos de água e um pequeno engenho completavam a paisagem.

Ao segundo dia, Diogo foi levado por Tristão a conhecer o vale, em especial os moinhos e o engenho de açúcar que estava a ser construído mais para norte, junto à margem direita da ribeira. Já em casa, na sua mesa de trabalho, Tristão mostrou-lhe então um mapa da ilha, onde tinha assinalados os seus domínios. Uma linha cortava a ilha obliquamente, desde a Ponta da Oliveira, situada mais ou menos a meia distância entre Machico e a vila do Funchal, e a ponta Noroeste, nos lugares do fundo. Ir de uma ponta a outra, por terra, era quase impossível explicou-lhe o donatário, devido aos grandes vales, montanhas altíssimas e ribeiras furiosas. A solução estava no mar. No entanto, mesmo por esse meio, não era fácil. As rochas abruptas, cortadas a direito, da costa norte, dificultavam os embarques. Além do mais não havia lá ninguém. A imensa, densa e virgem floresta dominava tudo e todos, exigindo um trabalho de desbravamento gigantesco na abertura de caminhos e clareiras suficientemente seguras para quem quer que seja se instalar, e poder sobreviver.

Toda a costa Norte, lamentou Tristão, estava praticamente deserta. Era preciso abrir caminhos para os cavalos poderem passar, desbravar clareiras para plantar cereais, cana de açúcar e vinhedos. Chamar mais gente do reino disposta e fazer das terras férteis o seu destino e o seu futuro. Uma tarefa hercúlea que, dizia, quase entre dentes, ficará para o futuro.

Estava Tristão entusiasmado com estas explicações, por vezes divagando sobre o que gostaria de fazer, e de como resolver os problemas de acesso à costa norte quando alguém bateu à porta.

— Meu pai, meu pai. Está na hora de jantar.

* Continua na próxima semana, à mesma hora.

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