O dia nem tinha começado bem. O sino da capela de N. S. da Piedade não tinha piedade. Pelo contrário, era implacável. Instalado há alguns anos no topo de um monte no lado direito do vale de São Vicente, lembrava a toda a freguesia as horas. Sem falhar. De dia ou de noite, o relógio era impiedoso na sua marcha pelo tempo, houvesse ou não pachorra para trabalhar. A sua utilidade durante as jornadas de trabalho era inversamente proporcional à sua irritabilidade nas horas de descanso. Todavia, com o tempo, toda a gente acaba por se habituar e as badaladas horárias, ao fim de algum tempo, quase que eram música para os ouvidos.
As seis badaladas da manhã acordaram o mestre André, lembrando-lhe que, nesse dia, teria que atravessar meia freguesia para instalar uma nova estrutura no telhado de uma casa nos Lameiros. O material tinha sido transportado no dia anterior, pelo que nesse dia teria que se despachar cedo — montar a estrutura, deixar os pedreiros colocar as telhas e fechar o telhado antes que a chuva resolvesse aparecer. As nuvens da véspera não prometiam nada de bom.
Nada de novo para quem, por força das circunstâncias — não somos todos fruto das circunstâncias? —, dizia o mestre, já reformado, contando as suas histórias aos filhos —, teve que abraçar a profissão do pai e trocar o emprego na farmácia da vila para assumir a carpintaria da família, obrigado a emigrar para o El Dorado das Américas. Os anos 40 mal tinham começado, a Grande Guerra estava no seu auge, a fome era uma ameaça constante e era preciso sustentar a família. Por isso, sem muito custo, André, casado de fresco, levantou-se da cama, matou o bicho na cozinha com a sopa guardada do jantar e uma chávena de café de cevada quente.
Com a sua mochila de ferramentas e o farnel do almoço preparado de véspera pela mulher, meteu-se a caminho ainda na escuridão da noite — só quando chegou ao fundo da ribeira, antes de subir para os Lameiros, é que os primeiros raios de luz transformaram o breu num lusco-fusco que lhe acelerou o passo.
Quando chegou aos Lameiros ainda não eram oito horas, mas já havia uma grande azáfama de trabalhadores que, de ferramentas e alfaias às costas, iam cuidar das terras.
A casa da Mariquinhas dos Barros era uma moradia simples, térrea, de paredes grossas de pedra, com dois pequenos quartos e uma salinha onde pouco mais cabia do que uma mesa, seis cadeiras e um aparador onde era guardada a loiça dos dias festivos. A cozinha funcionava num anexo colado à casa, onde também estava instalada a “loja” — o armazém onde eram guardados os produtos da terra, as pipas e as alfaias agrícolas.
Todo o conjunto formava um L. A ala dos quartos de dormir e da sala era virada para o vale, enquanto a outra ala ficava virada para as montanhas da Encumeada. Entre as duas alas, uma latada de vinha, armada em ferro e arame, apoiada nas paredes da casa e em suportes de ferro nos outros dois lados do quadrado. O piso por baixo da latada era de terra batida, e mesmo no meio havia um espigão de ferro para suportar o peso da estrutura.
O mestre André já por duas vezes tinha visitado a casa: primeiro para se inteirar do trabalho a realizar, e uma outra quando foi necessário instalar tapa-sóis e novas janelas. Em nenhuma dessas visitas conseguira deixar de notar, praticamente no meio do quintal, debaixo da vinha, um pedregulho inestético e sem utilidade aparente. Chegou mesmo a pensar que seria uma saliência de rocha profunda que alguém desistira de remover. Mas, por não se querer intrometer na vida dos outros, nunca perguntou.
Nesse dia entrou no quintal de mochila às costas, a mão esquerda a agarrar a caixa de ferramentas e a direita a equilibrar o farnel. Preparava-se para chamar pela dona da casa quando a ouviu:
— Mestre André! Espere um instante, que já vou! — gritou Mariquinhas lá da fazenda, do outro lado da latada.
Ele virou-se para responder, disse que sim com a cabeça, e quando voltou a encarar o caminho deu um passo em frente — um único passo — antes de o pé direito embater de cheio no pedregulho.
Não foi uma tropelice qualquer. A mochila às costas, pesada com ferros e formões, desequilibrou-o de imediato. O corpo foi à frente, os braços não chegaram a tempo, e o mestre André embateu com o lado da cabeça no espigão de ferro que suportava a latada. O som foi seco, um baque que assustou os pardais dos ramos. A caixa de ferramentas abriu-se, espalhando tudo pelo chão; o farnel foi a rolar para debaixo das videiras.
André ficou caído, imóvel, de bruços na terra batida.
Mariquinhas chegou a correr quando ainda ecoava o barulho. Encontrou-o com os olhos fechados, um fio de sangue a descer-lhe pela têmpora, a respiração lenta mas presente. Gritou pelo marido, que estava na loja, e pelos vizinhos que passavam na estrada. Em poucos minutos havia quatro pessoas em redor do mestre, e um rapaz correu sem parar até ao outro lado do vale para chamar o médico.
O mestre demorou alguns minutos a ganhar consciência. Quando abriu os olhos, viu rostos que não reconhecia imediatamente, um céu cinzento através dos sarmentos da vinha e sentiu um latejo surdo na cabeça que o obrigou a fechar os olhos outra vez. O médico, quando chegou, uma hora depois, confirmou o que todos temiam: uma ferida considerável na têmpora e o risco sério de concussão. Mandou-o deitar, em repouso absoluto, durante vários dias.
O telhado dos Lameiros teve de esperar.
Três dias depois, quando André já estava em casa a recuperar — a cabeça ainda à bulha, a mulher a vigiá-lo com um olhar que não admitia réplica —, Mariquinhas resolveu fazer-lhe uma visita e apareceu à sua porta com uma caçarola de caldo e uma expressão culpada que lhe enchia a face toda.
— Como está, mestre André?
— Vou indo — respondeu ele, sentado numa cadeira junto à janela, a cabeça encostada à parede. — Pior estaria se tivesse batido mais abaixo.
Ela pousou a caçarola, endireitou o avental e ficou um momento sem saber o que dizer.
— Olhe — disse afinal, a voz baixa —, mandei o meu marido remover aquela pedra nessa mesma tarde. Ficou tudo limpo.
André olhou para ela um instante.
— Porque é que nunca a tinham tirado antes?
Mariquinhas encolheu os ombros, como se a pergunta fosse difícil de mais para uma resposta simples.
— Não sei, mestre. Estava lá quando compramos a casa. Antes de nós, estava aí também, que os velhos ainda se lembram. Nunca ninguém ligou. — Fez uma pausa. — Às vezes as coisas ficam onde as deixam, e ninguém pergunta porquê.
André não respondeu. Olhou pela janela para o vale ainda coberto de névoa da manhã e ficou a pensar que há muita coisa assim na vida: pedras no meio do caminho que toda a gente vê, que toda a gente contorna, e que ali ficam — até que alguém tropeça nelas com força suficiente para que ninguém mais as possa ignorar.