Sexta-feira, Junho 5, 2026
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Cortar o mal pela raiz – Parte III

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Cortar o mal pela raiz

— VIII —

Na cabeça de Tristão Vaz passou um vendaval. Não era possível. Só podia ser mentira. Logo agora que, ao fim de tantos anos, via a sua capitania começar a florescer… Traição!

Mudo, imóvel, com os olhos vidrados, fixos, olhando através da janela, o capitão donatário de Machico olhou a noite, o mar, o reflexo da lua cheia na baía. Ao largo, era nítida a sua nau que, na véspera, o tinha trazido da malfadada viagem a La Gomera.

– Maldita viagem, disse entre dentes.

– Que disseste? — perguntou-lhe Branca que, de joelhos, junto à cama, não parava de rezar.

Tristão não lhe respondeu. Sentia-se ferido na sua honra. A infâmia tinha caído à porta.

– Não, não é possível! Como é que isso é possível? Devolvi-lhe a esperança. A ele e à sua família. Afinal, essa família não presta mesmo. Por alguma razão foram desterrados, arruinados. E que fiz eu? Aceitei-o como meu ajudante, abri-lhe as portas do mundo, dei-lhe um futuro, sentei-o ao meu lado, viajei com ele, ensinei-lhe tudo o que sei nas artes da navegação e o prémio que recebo é este: traição. Não mereço isto. Ninguém trai o donatário de Machico!

Ao contrario do que esperaria Branca Teixeira, Tristão Vaz não se exaltou, não gritou, não deitou o que quer que fosse ao chão. Desta vez, engoliu a raiva, mordeu o sofrimento e espremeu a dor. Falou baixinho. Melhor dizendo, sussurrou. Para uma traição como aquela, conspirada nas suas costas, executada na sua ausência, a vingança teria que ser bem pensada, bem elaborada e minuciosamente executada, como se de um ritual se tratasse.

– Onde está a chave do quarto de Catarina? — perguntou a Branca.

– O que lhe vais fazer?

– Só trancá-la no quarto.

Decidido Tristão atravessou o corredor escuro, aproximou-se devagar da porta do quarto de Catarina, colocou a chave na fechadura, rodou-a com precisão, retirou-a e guardou-a no bolso.

Desceu as escadas, saiu de casa.

Branca ainda tentou ir atrás dele mas ele não lhe deu qualquer hipótese. Ordenou-lhe que não se mexesse.

– Reza pela alma do infeliz! — disse-lhe.

A raiva ordenava-lhe que pegasse em Diogo, lhe batesse o mais possível e, depois, o matasse de uma vez. Com um só golpe. Sem delongas.

A vingança sussurrava-lhe ao ouvido. “Deixa-o viver. Na dor. Prolonga-lhe o estado de sofrimento. Fá-lo passar em dobro, até ao infinito, a vergonha que te provocou.”

A piedade e a misericórdia não entravam no turbilhão de pensamentos. O furacão da dor soprava num sentido apenas: castigo, impiedoso, severo, cruel, o mais possível. Não por umas horas, por uns dias ou por uns anos. Para sempre. Se possível até à eternidade.

Morrer seria prémio bom de mais. Quem trai não merece morrer. Um traidor não tem direito a morrer. Quem trai tem de penar, viver o resto dos seus dias carregando a sua vergonha, com os olhos bem abertos, impossibilitado de dormir, para que o pecado lhe esteja sempre visível. Sempre presente.

Foi assim,  decidido, passo firme, pensamento único, que Tristão atravessou o quintal, se dirigiu à casa dos fundos onde dormia Diogo.

Pouco passava da meia noite. Há muito que todas as velas e lamparinas se tinham apagado. Sorrateiro, como um ladrão, sozinho, dobrando a dor, o capitão donatário aproximou-se da camarata de Diogo, que dormia profundamente, parecendo sorrir.

O homem que antes lhe parecia ter um futuro sorridente, dotado, capaz, inteligente, trabalhador diligente e que julgava fiel, estava ali. Na sua frente. Indefeso. Praticamente nu. Na verdade era um jovem bonito. Branca tinha razão. Por momentos até compreendeu o motivo da paixão que tinha levado a sua Catarina a deixar-se encantar por aquele corpo vigoroso, aquele rosto angulado, de olhar profundo. Por momentos até se reviu jovem, cheio de vida, vigoroso. Depressa, no entanto, regressou ao seu estado cruel. «Despacho-o de uma vez ou deixo-o viver na dor?» a dúvida mais uma vez atravessou-o num turbilhão de pensamentos, tolhendo-lhe a razão.

Aproximou-se do jovem e, sem o acordar, deu-lhe uma pancada forte na cabeça, inanimando-o. Depois, passou-lhe um lenço pela boca amarrando-o atrás da cabeça. Pegou numa corda e prendeu-lhe os braços e as pernas.

Carregou-o às costas como se de um saco de trigo se tratasse e levou-o para a solitária da cadeia da capitania. O donatário ordenou ao guarda que se afastasse e ameaçou-o de morte se revelasse algo do que estava a ver.

Na cave, num pequeno compartimento cavado no chão, húmido, Tristão amarrou a sua vítima à parede. Primeiro o braço esquerdo. Amarrou-o e laçou a corda numa argola de ferro. Depois o direito. Quando Diogo já tinha os braços esticados, Tristão afastou-se um pouco e puxou as cordas que lhe prendiam os braços, forçando o corpo inerte a levantar-se, encostado ao muro. Um braço para cada lado. Seguiram-se os pés. Afastou-os ligeiramente e amarrou-os. De seguida. Rasgou-lhe as poucas vestes que lhe cobriam o pudor, despindo-o completamente. Não satisfeito com o que via, Tristão passou uma outra corda à volta da cintura do jovem e, imobilizou-o por completo, prendendo essa corda numas argolas fixas na parede. Mesmo que quisesse, mesmo que tentasse, Diogo não se podia mexer. Apenas a cabeça. Estava completamente imobilizado, fixo, como que pregado superfície fria de pedra.

Tristão esperou um momento. Olhou o quadro. Admirou a sua obra cruel. Contemplou a sua vítima inerte, que continuava inconsciente. Deu meia volta, puxou o ferrolho da porta, trancou-o à chave e saiu.

Autoritário, ordenou novamente ao guarda sigilo absoluto sobre o acontecido, advertindo-o que pagaria com a vida a desobediência.

Uma calma imensa pairava sobre a vila de Machico. Na beleza do luar espalhado sobre a baía, nas sombras acentuadas pelo arvoredo, o rastilho de morte espalhado por Tristão pareceu desvanecer-se. Uma estranha calma. A tempestade que tinha atormentado o donatário nessa noite tinha desaparecido como que por milagre. Dirigiu-se então ao calhau, subiu a uma canoa, e deixou-se ficar olhando as ondas, relaxando o espírito, esperando pela madrugada. Foi acordado pelo som dos sinos da matinas, ainda era noite escura. Dirigiu-se rapidamente para casa, acordou toda a gente e ordenou que se preparasse a nau para uma viagem a Lisboa. Bateu à porta de Catarina e, com voz seca, disse-lhe:

– Tu ficas. Só sais do quarto com autorização minha. Amanhã cedo partimos para Lisboa.

O tom da sua voz não deu qualquer hipótese de resposta a Catarina.

A jovem voltou a enfiar-se na cama, tapou-se completamente, chorou até á exaustão e, impotente, apenas conseguiu murmurar baixinho: “não é justo”.

— IX —

Durante o resto do dia, Catarina deixou de ouvir, de ver, de sentir. Surda pela dor, cega pela paixão, o seu quarto, simples, de janelas altas, no primeiro andar, com uma vista magnífica sobre a baía, pareceu ter-se afundado das profundezas da terra, nas cavernas mais profundas, na escuridão tenebrosa da dor insuportável.

Durante horas, permaneceu imóvel, enrolada nos lençóis imaculadamente brancos, querendo voltar atrás, até ao princípio, até onde não existia ainda, ao ventre de sua mãe e aí poder decidir que não queria nascer. Que preferia não crescer e deixar-se esvair nas entranhas maternas.

O horizonte idílico que todos os dias gostava de contemplar parecia-lhe agora uma prisão imunda, um terror indescritível, um abismo sem fim.

“Onde estará Diogo? Terá fugido? Meu pai mata-o, com certeza. Mas ele não pode fazer isso. Minha Nossa Senhora, diz-me que o meu Diogo está bem. Protege-o da fúria do meu pai, da sua raiva.

Diz-me que o amor não é pecado, que tudo o que fiz, que tudo o que sinto é a coisa mais maravilhosa que uma mulher pode fazer e sentir. Diz-me que o amor não pode ser interrompido pela raiva. Diz-me que não há futuro sem amor.

Eu sei que devia ter falado com ele e com a minha santa mãe. Ela sempre me disse para ter cuidado, para não em deixar levar pelos homens, e para esperar que o meu pai me escolhesse alguém da minha classe, que me merecesse. Nas, sabes, querida virgem, o amor não espera que o nosso pai tenha tempo para nos escolher quem nos merece. A paixão não espera. A paixão acontece quando menos a esperamos, assim, de repente, sem darmos conta. De um momento para outro ficamos obcecados, como se um raio nos atingisse e nos abrisse o coração, deixando-o sem cura possível. A paixão toma conta de nós, possui-nos e leva-nos para onde quer, mesmo que seja um abismo. Sim, um abismo. Pode mesmo ser um abismo fundo e cruel. Não interessa. A paixão é superior a todos os abismos, a todas as dores, a todos os desafios. Por ela rimos na desgraça, choramos na alegria, investimos sozinhos contra o mundo porque a nossa certeza é maior que qualquer regra, qualquer lei, qualquer convenção.

É isso que o meu pai não percebe. Ele não sabe o que é a paixão. Ele não sabe o que é uma mulher amar um homem. O que é um homem amar uma mulher. Ele não entende o quão grande é o amor que eu e Diogo temos. Ele até pode nos separar, mas ele não faz ideia de que, mesmo longe, vamos estar sempre perto.

Virgem Santíssima, protege o meu Diogo. Se a sua vida custar a nossa separação, que assim seja. Não o faças sofrer. Protege-o de tudo e de todos, em especial do meu pai. Se meu pai me quer levar para Lisboa, que me leve. Nada mais me interessa. Aconteça o que acontecer, só Diogo ocupará o meu coração. Não será a distância que matará este amor. Quem sabe, um dia, Diogo não chega a Lisboa? Ele há-de saber procurar-me. O amor encontra sempre caminhos.”

Catarina permaneceu horas imóvel, chorando, ora baixinho, ora compulsivamente, rezando, tentando pedir ajuda. Ao mesmo tempo que  procurava compreender a essência da raiva do pai, crescia-lhe a convicção dos valores da paixão e dos laços inquebráveis do amor. Poderia acontecer tudo, até a morte, mas duma coisa Catarina tinha a certeza: o seu amor não haveria de morrer. E foi com essa certeza que se preparou para dizer adeus ao seu quarto, à família, aos amigos à pequena vila que a tinha visto nascer.

Divagando, indo à frente e atrás nos pensamentos, revendo todos os passos, relembrando o primeiro olhar com Diogo, era quase noite quando Catarina pediu algo para comer e começou a preparar as suas coisas para a longa viagem. Não mais falou.

De pé, junto à janela, olhou a baía, o luar reflectido na imensidão do mar. E aquele oceano que até então lhe parecia sempre um muro intransponível, tornou-se como que por encanto um caminho para a liberdade. Liberdade para poder, longe do poder inquisitório do pai, viver a sua paixão.

“Estarei eu a odiar o meu pai? E se for? Não o escolhi para ser meu pai. Por que razão tenho de o respeitar se ele não me respeita, se não aceita as minhas escolhas? Ele que me leve para Lisboa. Ao levar-me para lá está a libertar-me. Ficar é que seria restar prisioneira dos seus caprichos. Que me leve para um convento. Que me case com quem quiser. Ou que me atire ao mar. Nada importa. Encontrei o amor e esse só se encontra uma vez. Já que não posso ficar com Diogo, que seja longe de Tristão Vaz. O  meu pai morreu.”

— X —

Durante todo o resto do dia, as únicas ordens de Tristão foram no sentido de apetrechar a sua nau para a viagem a Lisboa. Ninguém se atreveu a perguntar-lhe, a questionar. O segredo de polichinelo que se tinha mantido na penumbra durante poucos dias, aquando da sua viagem às ilhas Canárias, tornou-se de repente no assunto proibido já que uma simples referência à infâmia poderia dar de caras com a raiva por todos conhecida que Tristão se habituara a despejar quando era contrariado.

Talvez por isso, a animação do povoado, tão habitual antes das chegadas e partidas na baía, foi substituída nesse dia por um silêncio quase sepulcral. As pedras da ribeira pereceram, imóveis, a água deixou de tilintar e os pássaros recolheram aos seus ninhos, aconchegando com receio os ovos que se preparavam para o milagre da vida no início da Primavera.

Todos sabiam que Diogo já era. Não era a primeira vez que alguém desafiava os humores do donatário. Não seria a última em que os “bofes” do capitão demonstrariam todo o seu mau génio, levando na sua frente tudo e todos, incluindo as leis e as determinações reais.

Não se admirou por isso o guarda da prisão quando o capitão donatário entrou na madrugada seguinte no calabouço e o mandou sair. Era ainda noite. Quase toda a gente dormia.

— Sai. Não quero ninguém nas redondezas. Fica junto à porta de entrada e não deixes entrar ninguém. Se alguém tentar, atira a matar! — ordenou.

Enchendo o peito de ar, Tristão entrou de rompante na cela levando na mão o chicote com que costumava castigar os escravos.

Na luz obscura da cela mal conseguia ver a sua vítima. Aliás. Nem a queria ver. Só queria ter a certeza de que ele, já nem se atrevia a pensar no nome de Diogo, se encontrava ali, à sua disposição, para que pudesse despejar o fel que lhe dava voltas ao estômago e lhe atormentava o pensamento.

O silêncio absoluto mas ao mesmo tempo ensurdecedor, foi então interrompido pelo sibilar violento do chicote rasgando o ar.

Vezes sem conta o chicote voou. De todas as vezes, bateu, esfolou, cortou, rasgou, desfez o corpo de Diogo numa ferida única, dos pés à cabeça. O chicote encheu-se de sangue, ensopou-se de tal maneira que, naquele vaivém violento, se as paredes da cela fossem brancas, se tinham pintado, completamente, de vermelho vivo. De vermelho de raiva, dor e sofrimento.

Incansável, Tristão bateu naquele que era agora um monte de carne que, ao fim de pouco tempo, deixou de ter vida própria e a cada chicotada, voltava o pensamento para longe.

Como que por milagre, Diogo deu-se conta que já não sentia a dor. Conseguia distinguir na penumbra os olhos de raiva do seu algoz, mas, na verdade, tudo o que via, eram os olhos de Catarina. Claros, grandes, brilhantes, de uma beleza estonteante. Sentia o seu cheiro, os seus lábios, o seu corpo. A sua pele macia, o seu toque, o seu riso a sua alegria, o seu prazer e a sua esperança.

“Sei que tudo acabou. Sei que vou morrer, mas valeu a pena. Não será o carrasco do teu pai que me vai derrubar. Ele pode matar o meu corpo, mas não pode destruir este sentimento, esta alegria, esta visão. Ele não sabe, nunca vai saber o que isso é. Diz-lhe isso. Para que ele saiba que, por mais mal que me faça, nada se compara com a felicidade que é amar-te, sentir-te, estar contigo. Diz-lhe que a mutilação que ele acaba de me fazer, que me marca para a eternidade não se compara com os momentos de felicidade que tivemos. Diz-lhe que um momento de amor entre nós dois é maior que a eternidade da dor. Diz-lhe que és o meu único amor e que, de qualquer maneira, nunca haveria outra mulher na minha vida. Que não terei vergonha de toda a gente saber que fiquei menos homem, porque os momentos de êxtase que tivemos juntos estarão sempre presentes. Que os hei-de levar para onde for, aqui ou na eternidade. Vai. Diz-lhe. Por que ele não me ouve. Não me vê. Para ele morri já. Ele não sabe que, matando-me,  está a dar-me a eternidade. Não sabe que mutilando-me, está a alimentar o amor que sinto por ti, a elevar-me na doce loucura de viver morrendo, de morrer vivendo. Adeus doce Catarina. Toda esta dor é a certeza do meu amor. Vai, liberta-te! Eu fiquei preso a ti para todo o sempre, mas não te quero presa a mim. Liberta-te. Encontra a felicidade. Ela há-de estar por aí…”

— XI—

Se ao entrar na cela Tristão aparentava uma calma de morte, ao sair sentiu o coração aos pulos. Deu-se finalmente conta da raiva que sentia dentro de si. Amaldiçoou-se, amaldiçoou o dia em que viu Diogo. Amaldiçoou ter-lhe dado trabalho, tê-lo trazido para a ilha. Tudo lhe soou a maldição. A traição. Amaldiçoou-se, mais uma vez, a si próprio. Sentiu-se perdido.

Com o sangue do jovem a cobri-lo dos pés à cabeça, o capitão em vez de dirigir-se para casa, foi até ao mar e atirou-se à água. Nadou alguns metros, mergulhou algumas vezes e voltou para terra. Tão rápido quanto entrou, também saiu. Não queria que ninguém o visse. Não queria que alguém visse a mancha de sangue que ficou a pairar, baloiçando ao sabor das ondas leves que reflectiam a luz da Lua cheia.

Como é possível ver tanta dor levada por tanta beleza?

O frio da água pareceu acalmar o ânimo do capitão que, de regresso ao calhau, caminhou com passo firme em direcção a casa. Os primeiros raios da madrugada despontaram atrás do Pico do Facho.

Subindo a alameda, levantou o olhar e descobriu a silhueta de Catarina à janela contemplando o mar. Voltou a baixar os olhos, entrando rapidamente em casa, dizendo para si mesmo: acabou!

Ainda a nau de Tristão não tinha dobrado a ponta da baia e, direcção a São Lourenço e já o guarda da prisão dera o alarme. Bateu com força à porta do padre Francisco, contando-lhe o horror.

Mais morto do que vivo, Diogo foi solto das suas amarras. O abade foi chamado para dar-lhe os últimos sacramentos, enquanto o boticário se encarregou de o limpar, untar-lhe as feridas e esperar que as rezas do monge chegassem ao Céu.

Foi um bruaá que se levantou de repente. Do povoado de Machico, o quadro do terror depressa saltou para todas as fazendas, percorreu todos os caminhos e chegou à capitania vizinha.

Na rival vila do Funchal, o feito macabro do donatário foi visto como mais uma das provas do desequilíbrio irascível de Tristão que iria, de uma maneira ou de outra, comprometer a prosperidade da capitania. Ora, se era mau para Machico, só podia ser bom para o Funchal. Não se cantou nem dançou nas margens das ribeiras, nem nos canaviais, mas no ar ficou a ideia de que a loucura de Machico trazia boas novas para o Funchal.

Embora ninguém soubesse ao certo, o diz-se, diz-se dava a certeza de que Tristão levara a filha abusada para a capital a fim de a casar com um fidalgo para, assim, poder apagar a sua vergonha e devolver à família a respeitabilidade perdida. Todavia, pior do que a vergonha da honra perdida, foi o castigo imposto por D. Pedro, regente do reino, que, ao saber do abuso de Tristão o impediu de regressar à capitania, desterrando-o para lugar incerto.

O choque, a desventura e a humilhação arrastaram Tristão e a sua capitania para a decadência, levando D. Afonso V, entretanto sentado no trono, a ver no criminoso a única saída possível para devolver a Machico o caminho perdido.

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