O amor impossível
— V—
Catarina entrou de rompante no gabinete do pai. Tinha dado três passos quando se reteve, aflita. Colocou a mão na boca, baixou os olhos, enrubesceu, e passados alguns segundos, perante o olhar atónito do donatário e do seu escudeiro, disse com voz trémula:
— Desculpe meu pai. Não sabia que estava acompanhado. O jantar está servido.
Baixou a cabeça, mas não resistiu a manter os olhos fixos no jovem. Três segundos? Quatro segundos? Um momento eterno. E retirou-se devagar, fechando a porta, correndo em direcção ao seu quarto. Um turbilhão pareceu ter-se metido na sua cabeça.
Fechou os olhos, deixou-se cair em cima da cama e, na escuridão das pálpebras fechadas, só via a luz intensa dos olhos de Diogo fixando-a, queimando-lhe a retina, dominando-lhe a mente, não a deixando raciocinar. Teriam sido quatro, cinco segundos? Não sabia. Uma eternidade.
Deu consigo a divagar. “O que será isto? Por que não consigo tirá-lo da cabeça? Por que não consigo pensar noutra coisa? Porque não tenho fome?
— Catarina, Catarina! — ouviu chamar — despacha-te. Já está toda a gente na mesa. Estás surda?
A voz que ouvia pareceu-lhe estar muito longe, indistinta, perdida no meio das suas divagações e só aos poucos se apercebeu que era a sua irmã Ana que lhe batia à porta e, quase a gritar, a chamava para a mesa.
Tristão fazia questão de ter toda a família reunida ao jantar. Ainda por cima, nesse dia, eram seus convidados, não apenas o jovem escudeiro, mas também o padre Francisco, com o qual o donatário reunia muitas vezes para tratar de interesses comuns.
Machico estava a crescer, novas aldeias iam-se instalando no vale e para além das montanhas, na costa Norte, e o padre Francisco exigia cada vez mais a Tristão contributos importantes para a construção de novas ermidas e igrejas para os seus fiéis.
Antes de se juntar à mesa com toda a família, Catarina parou ainda frente ao espelho para ver-se e, com alguma surpresa, reparou nos seus olhos radiantes. Levou as mãos aos lábios, cerrou as pálpebras por momentos. Concentrou-se e só então avançou.
Com a cabeça baixa, entrou devagar na sala de jantar e dirigiu-se a seu pai.
— Peço desculpa meu pai. Senti-me um pouco indisposta, mas já estou bem. — mentiu. E foi ocupar o lugar que lhe estava reservado.
O destino é assim. Aparece quando menos se espera, coloca-nos no meio das coincidências, atira-nos para dentro do circo da vida.
Catarina não ouviu nada do que se falou ao jantar. Não sabe o que comeu ou bebeu. Toda a sua energia estava concentrada no jovem colocado à sua frente. Às perguntas que lhe fizeram, respondeu sempre com monólogos. Teria dado as respostas certas? Teriam elas alguma lógica? Nas duas ou três vezes em que levantou a cabeça, os seus olhos sempre se cruzaram com os de Diogo. E em todas elas reparou que o brilho que tinha encontrado nos seus ao ver-se ao espelho estava também no jovem sentado à sua frente. “Não pode ser” — disse para consigo.
Fosse o amor um processo estudado, projectado, planificado e ponderado e já Catarina alguma vez se teria sentado naquela mesa. Fosse o amor algo previsível e manipulável e já Diogo se teria prevenido com todas as armas que lhe fosse possível arranjar para fugir ao destino que, soube naquele momento, seria definitivamente o seu.
“Estou perdido” — pensou para si mesmo, não resistindo, mais uma vez a tentar cruzar os olhos com a jovem.
Quando os olhares de amor se cruzam nasce a magia. Um toque de atracção, muitas vezes fatal, que povoa os ares, atrofia o pensamento, condiciona os movimentos, paralisa a vontade mas nos liberta e nos faz voar.
– VI —
Visivelmente irritado, Tristão Vaz abandonou o seu navio e dirigiu-se para terra numa canoa puxada a remos por quatro dos seus homens que o esperavam.
Por ordem do Infante D. Henrique, fora obrigado a escoltar uma esquadra comandada por Gil Anes que, passando pela Madeira, se dirigia ao arquipélago das Canárias a fim de devolver alguns prisioneiros canários feitos cativos por João de Castilha na ilha de La Gomera.
Aproveitando a presença dos gomeros, Gil Anes não resistiu à tentação de querer tomar de assalto a ilha de La Palma a fim de fazer outros prisioneiros. Tristão Vaz opôs-se e recusou-se a participar nesse assalto, já que, argumentou, não ia preparado para ele e seria suicídio tentar tomar de assalto a ilha sem estar devidamente apetrechado para tal. E voltou para trás. A razão esteve do lado do capitão donatário de Machico que assistiu, de longe, ao fracasso da tentativa.
Se a razão lhe dava motivos de satisfação, o ter acompanhado aquela missão deixou-o desgostoso já que as tarefas que tinha na capitania para fazer eram imensas e, agora, todo o tempo lhe parecia pouco para realizar tudo o que queria enquanto sentia que tinha forças suficientes para tal.
Mal colocou os pés em terra, deslocou-se rapidamente para casa, entrando de rompante, querendo falar com toda a gente. Até Branca Teixeira, sua mulher, habituada aos seus humores estranhou o ímpeto daquela entrada e perguntou-lhe:
– Então, homem, a viagem foi assim tão má? Passa-se alguma coisa?
– Não. Nada. Só que quero aproveitar o tempo. Onde está toda a gente? Daqui a uma hora quero todos na sala.
Quando Tristão dizia todos, isso significava, literalmente, todas as pessoas mais próximas: mulher, filhos, filhas, escudeiros e responsáveis pelas terras e engenhos.
À hora marcada, lá estavam. Em, silêncio, de cabeça baixa, alinhados, circundando a mesa central, de pé, quase encostados à parede. Tristão entrou e percorreu com o olhar, primeiro os seus filhos e a esposa. Deu pela falta de uma das filhas.
– Onde está Catarina?
Branca Teixeira apressou-se a responder:
– Mandei chamá-la. Ainda não chegou.
O donatário continuou a sua inspecção.
– Diogo Barradas. Onde está o Diogo Barradas? — perguntou.
Ninguém lhe soube responder.
O jovem Diogo não tinha acompanhado Tristão na sua viagem por doença.
– Ele já está melhor? — perguntou Tristão a Branca Teixeira.
– Sim, meu senhor. Está muito melhor. Acho que já está bom para trabalhar — respondeu-lhe a mulher.
– Óptimo. Mas onde está ele?
O silêncio comprometedor que se seguiu incomodou todos os presentes, que baixaram a cabeça, evitando olhar na direcção do donatário.
– Depois trato do assunto, concluiu.
— VII —
Subindo o vale em direcção ao interior, a vegetação adensa-se e, em pouco tempo, os campos de trigo e de cana-de-açúcar deixam de ser visíveis pela espessa floresta. Pelo meio, no fundo, a água corre límpida, em ziguezague, ganhando velocidade com os desníveis, ancorando-se muitas vezes em pequenos lagos.
Nos dias de Verão, quando o sol bate a pique e o céu é tão azul que até dói, as águas límpidas deslizam das encostas respingando prazer nos calhaus, nos seixos e nas rochas que resistem à contínua erosão e às aluviões que, nos Invernos mais chuvosos, arrasam tudo à sua passagem.
Quando a calmia regressa, os pequenos lagos que se formam enchem-se de girinos e de rãs que coaxam saltando de pedra em pedra.
Quando Deus criou o mundo, o Paraíso devia ser algo semelhante àquele vale descansado cheio de todos os verdes possíveis, de flores exóticas, pássaros chilreando, cantando em sinfonia com as águas límpidas que desciam ora calmas ora furiosas até ao mar.
Adão e Eva, os dois irmãos gémeos, primeiros nascidos na ilha, da grande prole de João Gomes, da capitania do Funchal, foram assim baptizados porque, tal, como no largo vale de Machico, toda a ilha se replicava em dezenas e dezenas de vales paradisíacos, aprofundando a religiosidade daqueles tempos em que, à falta de uma explicação para as coisas naturais, a fé era a única tábua de salvação para entender as amarguras do presente e enfrentar o futuro.
Bem cedo, ainda o sol não tinha dado o seu primeiro sinal no alto da montanha do Funcho e já Catarina se tinha escapado à vigilância familiar correndo ribeira acima.
Decidida a jovem seguiu o trilho que, nos últimos dias, a levava para longe da povoação e das poucas casas de madeira que, aos poucos, iam nascendo aqui e ali dos dois lados do vale.
Numa terra de ninguém, longe de tudo e de todos, já Diogo a esperava, sentado em cima de um pedregulho no meio da ribeira. Afogueada pela correria, Catarina atirou-se nos braços do jovem não dando espaço para qualquer descanso. O beijo apaixonado prolongou-se até o coração de Catarina retomar o seu ritmo normal e o peito de Diogo se aconchegar devidamente nos seios delicados da sua amada.
Decidida, com os olhos presos um no outro, Catarina desfez os laços do espartilho que lhe faziam sobressair os seios, deixando cair o vestido sobre as pedras, pondo a descoberto o seu corpo branco, alvo, de curvas delicadas. O jovem, por seu lado, com um movimento rápido, puxou a camisa, passando-a sobre a cabeça, deixando a descoberto o peito forte e musculado. Catarina tomou então a iniciativa de desapertar-lhe a corda que lhe segurava as calças de linho, deixando-as deslizar, pondo a nu o vigor da juventude, incendiando o desejo.
Olhos nos olhos, sem trocarem uma palavra, os dois jovens cumpriram o destino do amor. Cegos pela paixão, mergulharam nas águas frescas, nunca se separando, formando um só corpo, enrolados, extasiados. Amaram-se vezes sem conta, esgotando todas as forças e, mesmo depois de saciados, continuaram rolando, brincando, rindo, alheios ao mundo. A lagoa era o seu mundo, o seu ninho de amor, o seu destino. A sua perdição.
— Que vamos fazer de nós?
Assim, de repente, como um furacão, a pergunta de Diogo, feita ao ouvido de Catarina, pareceu soar como um trovão. No meio do lago, segurou as mãos dela nas suas, puxou-a para si, olhou-a nos olhos e voltou a perguntar:
— Que vamos fazer de nós?
A jovem não lhe respondeu. Encostou-se ainda mais a ele, beijou-o prolongadamente e rezou para que o momento não acabasse nunca.
— Não sei! — disse por fim. — Não podemos fugir? — questionou.
– Como, para onde? Não é melhor eu pedir a tua mão ao teu pai? — perguntou-lhe, confuso, Diogo. — Diz que me amas, Catarina. Diz-me que isto não é um sonho. Que esta loucura é a coisa mais maravilhosa que me poderia ter acontecido. Diz-me que o teu pai não te vai afastar de mim se eu for falar com ele. Diz-me, diz-me…
O sol rompeu pelo meio da vegetação, iluminou os dois jovens, selando o beijo de compromisso prolongado que repetiam até à exaustão, esquecendo o tempo, a própria existência. Já era tarde. As horas tinham passado mais do que o previsto. O amor tinha parado o tempo durante horas e só agora, com o sol quase a pique, tinha voltado ao normal.
– Voltamos amanhã, à mesma hora? – perguntou-lhe Diogo.
– Sim, amor, claro que sim. Tenho de voltar sempre. Sem ti, morro.
Catarina vestiu-se rapidamente e voltou a meter-se no meio da vegetação, correndo para casa, rezando para que ninguém tivesse dado pela sua falta. A curta distância, Diogo seguiu-a, tendo o cuidado de observar em volta, não fosse encontrar alguém indiscreto vê-lo e à sua amada. Não fosse o diabo tecê-las…