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O homem que sabia fazer açúcar (2)

Gonçalo Mendes Gonçalo Mendes
  • Jul 26, 2026

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Nos nove copiadores de cartas de João Higino Ferraz ficou registada uma fábrica inteira — e, à sua volta, um país onde a política, a imprensa e os interesses económicos se misturavam com o melaço. Entre avanços técnicos, favores e silêncios, a Questão Hinton atravessou a Monarquia, sobreviveu à República e transformou para sempre a indústria açucareira da Madeira.

Três histórias da Questão Hinton

Tinta e Melaço

Na secretária do velho, naquela noite de Novembro de 1944, estavam nove livros grossos, encadernados, com as lombadas gastas de meio século: os copiadores de cartas. Dentro deles, em papel de decalque, ficara a cópia de tudo o que João Higino Ferraz escrevera desde 1898 — milhares de cartas, e nas cartas uma fábrica inteira, e à volta da fábrica um país. Abriu o primeiro, como quem levanta a tampa de um tacho antigo para ver se ainda cheira. Cheirava.

Para se entender o que vem a seguir, é preciso parar a história e explicar o mundo do açúcar naquele virar de século, porque sem isso a Questão não se entende — e há questões que era bom que se entendessem a tempo.

O açúcar, que durante séculos fora artigo de ricos, tinha-se tornado comida de toda a gente; e, como sucede às coisas de toda a gente, deixou de dar dinheiro a quase toda a gente que o fazia. A Europa descobrira que a beterraba também dava açúcar, e a França e a Alemanha subsidiavam a sua com um patriotismo de tal ordem que os preços mundiais caíram ao chão e por lá ficaram. Uma ilha pequena, de canaviais pendurados em poios, com a cana às costas de homens e a fábrica ao fundo de caminhos de pedra, não podia competir com a planície europeia. A escolha era simples e ninguém a queria dizer alto: ou o Estado protegia o açúcar da Madeira, ou a Madeira deixava de ter açúcar, e os milhares de famílias que viviam da cana ficavam a viver do costume — que é como quem diz, do barco para a Venezuela e Demerara.

O Estado protegeu. A lei de 1895, o chamado regímen sacarino, obrigava as fábricas matriculadas a comprar toda a cana da ilha a preço tabelado — o que garantia ao lavrador o escoamento e lhe tirava, já agora, a liberdade: a cana passou a ir para quem a lei dissesse, ao preço que a lei dissesse. Chamou-se a isto protecção, e era — como as gaiolas são protecção para os canários. Depois vieram os decretos de 1903 e 1904, que apertaram as condições de matrícula de tal maneira que, das dezenas de fábricas da ilha, só duas conseguiram cumpri-las: a de José Júlio de Lemos e a do Torreão. As outras ficaram a olhar.

E foi neste ponto exacto que a política e o melaço se misturaram de vez, e nasceu para o país a Questão Hinton: saber se uma firma inglesa devia ter, por lei e favor, o quasi-monopólio do açúcar de uma ilha portuguesa. Discutiu-se em folhetos, em jornais, nas tabernas e no Parlamento, e durou, com intervalos para as revoluções, perto de meio século. E teve, como todas as guerras, os seus generais, os seus soldados e o seu secretário — que é sempre quem fica com a papelada e raramente com os louros.

O secretário era ele. Convém dizer, antes do resto, que João Higino Ferraz fazia por dentro da fábrica coisas que a política nunca soube fazer por fora: melhorava-as. Os copiadores são metade química, metade país. Numa página, a pureza da guarapa e o rendimento dos cozimentos; na seguinte, uma carta a um visconde.

A fábrica, essa, cresceu-lhe nas mãos como ele prometera aos seus botões. Vieram os difusores novos, as turbinas Weston, os filtros, a caldeira; veio, em 1902, a experiência que fez escola — submeter o bagaço à circulação forçada, aproveitando mais dezassete por cento do que a cana trazia — e que ficou nos manuais como sistema Hinton-Naudet, casando o nome do dono com o do engenheiro francês. Em Junho de 1907, León Naudet em pessoa passou dois dias no Torreão, a combinar com Ferraz a instalação da difusão e do triple-effet: dois homens debruçados sobre plantas e cadernos, a discutir vapores em francês de fábrica, felizes como só são felizes os técnicos quando ninguém os interrompe com dinheiro ou com política. Dessa aliança ficaram também os cuiseurs vindos de França para os cozimentos; de um deles, um M. Frederique que já servira na Martinica, deixou Ferraz escrito o mais alto elogio que sabia fazer a um ser humano: «é sóbrio e delicado».

Em 1907 o Torreão moía um terço da cana da ilha e empregava duzentos e trinta homens; a sua bateria de geradores a vapor era a maior potência então em uso na Madeira. A ilha, que importava açúcar em 1886, exportava-o em 1907. Isto é a metade da história que se conta com orgulho.

A outra metade escrevia-se à noite, e também está nos copiadores, porque Ferraz copiava tudo — a exactidão era nele mais forte que a prudência, e a História agradece.

Está lá a carta de 1901 ao Visconde da Idanha, quando os privilégios do melaço periclitavam: a ajuda do amigo será útil, «e o seu nome não será esquecido n’este bocadinho da Patria». Foi também nesse ano de 1901 que El-Rei D. Carlos visitou a Madeira, e há quem diga que a visita valeu à casa mais do que muitos decretos. Se o programa régio passou ou não passou pelo Torreão, os copiadores não o registam — registam o depois: portas que se abriam com outra maciez, ofícios despachados com outra pressa, e a descoberta, que Harry fez cedo e para sempre, de que em Portugal a distância mais curta entre uma fábrica e uma lei não passa pelas repartições. Passa pelos salões. Um rei não redige decretos sacarinos; mas janta — e à mesa de um jantar cabem mais providências do que numa sessão de câmara.

Está lá a campanha de 1903, com os artigos já escritos no Funchal a seguirem para os jornais — um para o Diário de Notícias, outro para o Diário do Comércio, outro para o Popular — com instruções tipográficas do próprio Harry: «o telegrama deve ser publicado em grosso e vivo». E a opinião pública formava-se — em grosso e vivo, conforme a encomenda. E está lá, do mesmo Outubro de 1903, a carta de Harry que nenhum advogado aconselharia a escrever, sobre a vigilância à imprensa: que não aparecesse coisa alguma contra as providências em jornal nenhum, «se for precisa qualquer despeza para isso é faze-la», e que se combinasse «a melhor maneira practica, directa ou indirecta, de os calar até a minha chegada».

De os calar. Directa ou indirecta. A tinta com que se escreveu isto era da mesma cor da que apontava as purezas da guarapa — e passava pela mesma mão.

E há a outra, de Setembro de 1903, dias depois de sair o decreto que consolidava tudo: que o Lemos não baixasse por ora o preço do álcool, «tem havido despezas grandes com o decreto, e tenho certos compromissos em que elle tambem tem de entrar». Despesas grandes com o decreto. A frase dispensava esclarecimento em 1903. Hoje, talvez peça exactamente aquele que os copiadores não dão — e é essa, no fundo, a arte dos copiadores: guardam tudo, e não confessam nada.

Quando Harry voltou de Lisboa, nesse Outono, subiu ao escritório da fábrica ainda com a viagem em cima — um homem grande, de bigode farto e colete claro, que enchia as portas por onde passava e tinha o costume de se sentar na beira das mesas, como quem não tenciona demorar-se em parte nenhuma. Sentou-se na de Ferraz.

— Correu bem, João. Correu caro, mas correu bem.

— Caro quanto, senhor Henrique?

— O suficiente para lhe pedir que a safra renda. — E, vendo o outro calado, a limpar o aparo: — Alguma coisa a dizer?

— Nada, senhor Henrique. Estava a fazer contas.

— É para isso que o tenho. Faça-as à cana, que às outras faço-as eu.

Fê-las à cana a vida inteira; as outras copiou-as. Nessa noite, ao passar a carta para o livro, a pena parou-lhe um momento por cima da palavra «compromissos» — um momento pequeno, do tamanho de uma gota de tinta a engrossar no bico do aparo — e depois seguiu, letra desenhada, até ao fim. Secou a página, fechou o livro, arrumou-o na estante com os outros. Foi este, tanto quanto se sabe, todo o exame de consciência que o século lhe consentiu: uma gota de tinta. Mas ficou copiada também.

Em Janeiro de 1907, com o contrato por renovar, Harry estava outra vez em Lisboa a jogar tudo, e Ferraz copiava a bravata para o livro: ou João Franco atende ao pedido, «ou não attende, e nesse caso não posso prever quais as consequências desastrosas». Um fabricante de açúcar a falar assim a um chefe de governo — e o mais notável é que resultou.

Nem tudo, diga-se, era alta política; o serviço tinha a sua miudeza, e a miudeza o seu sainete. Um dia de Outubro de 1905 entrou-lhe pelo escritório o Power, com cara de quem trazia o destino da ilha debaixo do braço: um agricultor importante ouvira dizer a alguém que a companhia dos vinhos ia comprar cinco mil pipas, exportá-las em verde para Hamburgo, e tratá-las lá com álcool barato e açúcar barato, debaixo do olho de um delegado do Governo, para arruinar as casas todas do Funchal. Ferraz ouviu o homem até ao fim, com a paciência que reservava aos boatos e às fermentações, agradeceu, e nessa noite despachou o caso para Harry numa carta que é uma obra-prima do género: contava tudo por miúdo, «ainda que pouca fé tenha na verdade do facto», e rematava com a lógica do costume — se o homem pensasse mesmo em fazer aquilo, não andava a dizê-lo. Era esta a outra metade do ofício do secretário: a ilha inteira desaguava-lhe na secretária, verdades, meias-verdades e mentiras inteiras, e ele filtrava-as como filtrava a guarapa — sem se zangar com as impurezas, que vinham sempre, e sem nunca as deixar passar ao xarope.

Do mesmo Outono é a visita de Batalha Reis, que provou o álcool da casa, o achou superior, e defendeu a seguir, ao jantar, a entrada dos vinhos do continente na ilha — que era exactamente o contrário do que convinha aos anfitriões. O elogio copiou-se para o livro; o conselho arquivou-se noutro sítio qualquer.

Que pensava o secretário disto tudo? Os copiadores não o dizem, porque a Ferraz ninguém perguntou e ele não era homem de escrever opiniões que ninguém encomendara. Escrevia, copiava, arquivava. Uma vez por outra, num canto de carta, escapa-lhe um cansaço — «não tenho confiança alguma nestes nossos amigos de cá, e temos como sabe, fartura de inimigos» — e é tudo. Talvez pensasse no tio João Cezar, guarda-livros de uma firma que morreu por não ter padrinhos. Talvez pensasse que entre uma família que perde a fábrica por não ter influência e uma firma que guarda a sua a poder de influência, a diferença não é de moral, é de tesouraria. Ou talvez não pensasse: o serviço era muito, e o pensamento, como o vapor, trabalha melhor sob pressão e calado.

Uma coisa, porém, o documento regista, e o leitor fará dela o que entender. Quando a casa Hinton comprou a velha fábrica dos Ferrazes na Ponte Nova — comprou-a como comprava as outras, para a esvaziar do que prestasse e a calar de vez —, coube a João Higino, por ofício, inventariar-lhe as máquinas. Andou uma manhã inteira pelos salões onde o pai e os tios tinham mandado, de caderno na mão, a apontar em letra certa o que ainda servia e o que era ferro-velho. Parou diante do moinho antigo, que era do tempo do braço do doutor Ricardo. Apontou-o na coluna do ferro-velho. Não escreveu mais nada nesse dia, e a página seguinte do copiador é uma encomenda de juntas de borracha, como se nada fosse — e é essa encomenda de juntas, tão a horas, tão igual às outras, a coisa mais triste que há naqueles nove livros.

A Questão, entretanto, engrossava, e trazia um pecado original na certidão. Em 1870 o Visconde do Canavial patenteara um invento seu — lançar água sobre o bagaço, para lhe extrair o resto do suco —, reservado à fábrica da Companhia Fabril, que se inaugurou com discurso de cónego e promessas de época nova e fechou com os discursos ainda frescos, «cimentada», deixou dito um dos queixosos, «com o veneno da maldade». O invento, esse, não fechou: o engenho do Hinton copiou-o sem cerimónia, o Visconde moveu-lhe uma acção cível em 1884, e passadas as décadas os livros ingleses da especialidade citam a inovação com o nome de quem a copiou. A História é uma senhora ocupada: raramente lê os autos, e fica com o nome que vem no rótulo.

Depois, em 1910, caiu a Monarquia — e com ela caíram os padrinhos, os compromissos e as despesas grandes, tudo de um dia para o outro, como cai um andaime. A República chegou com a navalha nos dentes e a Questão Hinton na algibeira: era o exemplo perfeito dos podres do regime morto, o monopólio inglês criado a decreto e regado a influência. Discutiu-se no Parlamento com paixão; os jornais humorísticos desenharam o polvo do costume; e Ferraz escrevia, em Setembro de 1911, a frase mais nua de todos os copiadores: o senhor Hinton dissera-lhe que em nada podia influir junto do governo, «porque o nome Hinton é sempre visto com maus olhos».

Leu-se isto e esperou-se o fim. O fim não veio. Veio o decreto de 1911, veio o de 1913, e o monopólio do fabrico do açúcar, olhado com tão maus olhos, saiu deles confirmado e composto. Como se fez o milagre, os copiadores não o dizem por miúdo — as Repúblicas, descobriu-se, também têm tesouraria — mas ajudou a fazê-lo uma verdade incómoda que os tribunos preferiam não ouvir: o regímen, que engordava o Hinton, era também o único preço certo que o lavrador da cana conhecia. Em 1915, quatro mil proprietários e agricultores assinaram uma representação a pedir que não se mexesse no regime sacarino. Quatro mil pobres a defender o privilégio de um rico, por não haver na ilha outro privilégio que lhes pagasse a cana: a Questão Hinton foi sempre isto, um nó cego dado com a fome de uns e a fartura de outros, e quem se propunha cortá-lo tinha primeiro de explicar aos quatro mil o que comiam no dia seguinte.

A Grande Guerra fez o resto: o açúcar e o álcool venderam-se como se vende tudo em tempo de guerra, e em 1917 até se sonhava com fábrica nova. O sonho acabou em fumo — literalmente, que é como acabam os sonhos industriais.

Na noite de 25 de Novembro de 1917, um curto-circuito nos fios da luz eléctrica pegou fogo ao sistema de destilação do Torreão. Ferraz acordou com o clarão — morava com a fábrica dentro da cabeça e acordava-a antes dos sinos — e desceu à Ribeira de Santa Luzia de casaco por cima da camisa de dormir. Ardia a destilaria: as colunas, os tubos, a obra de anos, num fogo alto e direito que iluminava a cidade e não deixava chegar ninguém. Ao lado dele veio pôr-se o Marsden, o engenheiro inglês da casa, de cachimbo apagado na boca. Estiveram calados muito tempo, os dois técnicos, a ver arder aquilo que nenhum dos dois sabia ser capaz de chorar.

It can be rebuilt — disse por fim o Marsden.

— Tudo pode — respondeu Ferraz. — O tempo é que não.

Reconstruiu-se, está claro: em Outubro do ano seguinte a destilação nova estava a trabalhar, melhor que a antiga, porque as fábricas, ao contrário dos homens, saem das desgraças modernizadas. Mas nesse mesmo Dezembro de 1918 expirava, ao fim de quinze anos, o contrato de privilégio de 1904 — e o mundo que o tinha assinado já não existia: o rei morto, a guerra acabada, o dinheiro doente. O Governo demorou meses a decidir o que fazer ao açúcar da Madeira, e quando decidiu, em 1919, foi para liberalizar tudo e mandar plantar vinha onde estava a cana.

No Torreão, leu-se o decreto em silêncio. O velho regímen morrera. A Questão, essa, ia apenas a meio — e a parte que faltava havia de custar mais cara, porque já não se tratava de defender privilégios, mas de sobreviver-lhes.

Fonte: Edição do arquivo particular de João Higino Ferraz — Copiadores de cartas (1898-1937), livros de notas e notas autobiográficas —, CEHA, com estudo introdutório sobre a Questão Hinton, sob a direção do Professor Doutor Alberto Vieira
Nota: Imagem gerada por IA

(Continua)

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