Portugal tem exemplos de sistemas de exames maduros para estudar; falta a vontade de os copiar antes da crise, não depois dela. A decisão está certa. Falhou a execução.
Portugal decidiu, pela primeira vez, corrigir os exames nacionais do secundário em suporte digital. A decisão estava certa; a execução falhou, e essa diferença é o verdadeiro tema desta crónica.
Mais de 300 mil provas entraram este ano num sistema novo, gerido por duas plataformas distintas. Uma trata do processamento das respostas, a cargo do EduQA, antigo IAVE. A outra, usada pelos professores para classificar, pertence à empresa privada Blat – Creative Powerhouse, que presta serviço ao Ministério desde 2018, segundo confirmou o ministro Fernando Alexandre.
O resultado ficou à vista de todos. A divulgação das notas da 1.ª fase foi adiada de 14 para 17 de julho. Nessa data, o ministro admitiu que 99,3% das provas estavam corrigidas, mas faltavam professores classificadores para fechar o processo. Na Madeira, 11 alunos continuaram com resultados suspensos.
A digitalização não é o problema. Um país que já paga a uma empresa privada desde 2018 para gerir a classificação de centenas de milhares de provas não pode alegar inexperiência quando o sistema falha à primeira grande prova de escala. O erro está na validação prévia, não na tecnologia em si.
Há quem prefira culpar quem resiste à mudança. O primeiro-ministro, Luís Montenegro, falou em “alguma resistência” dos professores à digitalização. Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas, chamou às declarações um “murro no estômago” e pediu retratação.
Essa discussão desvia do essencial. Mário Nogueira, ex-líder da FENPROF e membro do Conselho Nacional de Educação, exigiu a demissão do ministro da Educação; a federação apresentou queixa na Procuradoria-Geral da República. Nenhuma das duas posições resolve o atraso que já chegou às candidaturas ao ensino superior. É simples chicana política. Os tentáculos daqueles que insistem em modelos do passado não larga o país. Os Velhos do Restelo continuam a ser uma praga.
O caminho certo não é recuar da digitalização, é escolher fornecedores testados em escala nacional antes de arriscar o futuro académico de milhares de estudantes. Portugal tem exemplos de sistemas de exames maduros para estudar; falta a vontade de os copiar antes da crise, não depois dela.