Se as torres do Leacock tivessem avançado em 2001, o Funchal teria hoje 25 anos de experiência a construir em altura. Em vez disso, discutimos em 2026 o que já podíamos ter resolvido — com a mesma pressa de sempre: tarde.
Miguel Albuquerque foi presidente da Câmara do Funchal em 2001, quando o arquitecto catalão Ricardo Bofill apresentou duas torres de 25 pisos, 80 metros, para requalificar o quarteirão Leacock — o mesmo lote onde hoje está o centro comercial Plaza. Albuquerque assistiu à apresentação sem objectar. Só a 12 de Agosto de 2001, às vésperas das eleições autárquicas, declarou ao DIÁRIO que as “torres do Leacock” não seriam aprovadas, por violarem o PDM da zona histórica.
O projecto nunca chegou a dar entrada formal na Câmara; dizer que a CMF o “rejeitou” é, tecnicamente, impreciso. Mas o essencial permanece: o mesmo homem que hoje defende prédios com mais de 20 andares na Ajuda foi, em 2001, quem fechou publicamente a porta às torres do Leacock. Entre uma posição e outra vão 25 anos.
Concordo com o destino, discordo do calendário. A proposta actual não peca pelo conteúdo — peca por tardia. O risco sísmico, por vezes invocado contra a construção em altura, não sustenta o adiamento: a Madeira regista sismicidade reduzida, com um único evento de potencial destrutivo relevante nos últimos 500 anos, em 1748.
A oposição de hoje tem argumentos que merecem resposta, não desprezo. Uma petição pela salvaguarda do modelo urbano da Madeira ultrapassou as mil assinaturas e segue para a Assembleia Legislativa: teme impacto na paisagem, pressão sobre infra-estruturas e perda de qualidade de vida. É um receio legítimo de escala — mas não resolve a falta de solo para construir casas a preços que os madeirenses conseguem pagar.
Se as torres do Leacock tivessem avançado em 2001, o Funchal teria hoje 25 anos de experiência a construir em altura. Em vez disso, discutimos em 2026 o que já podíamos ter resolvido — com a mesma pressa de sempre: tarde.