A ribeira brava ficou literalmente brava, incontrolável: subiu, alargou as margens, arrastou o engenho, os casebres, tudo.
A Fuga e o Abismo
Segunda de três partes.
Tinha sido numa noite de Outono que Maninidra tomara a decisão.
Correra a notícia de que o rei de Portugal dera ordem para que todos os mouros fossem expulsos da ilha e reenviados para as terras de origem. Os chamados mouros não eram mouros: eram guanches, naturais das Canárias, capturados para servirem de escravos nos engenhos de açúcar e na criação de gado. Quando a notícia chegou ao engenho, Maninidra chorou de alegria. Seria liberdade. Fina como um fio, mas liberdade.
Não foi libertado. O mesmo rei exceptuara os mestres do açúcar, e Maninidra tinha aprendido depressa a arte do trapiche, fizera do engenho uma máquina quase perfeita — bom de mais no seu ofício para lhe darem alforria. Amaldiçoou-se por ser demasiado inteligente. Se antes chorara de alegria, desta vez chorou de raiva. Pela primeira vez na vida, apeteceu-lhe morrer.
Decidiu fugir.
Não sabia bem para onde. Mas levaria Gasmira. Não a deixaria de maneira nenhuma na cozinha do engenho. Iria para as montanhas que se perdiam na altura dos céus — inacessíveis, mas refúgio, sabia, de outros guanches que tinham conseguido escapar à canga da escravidão. Na sua ilha, o seu povo sabia distinguir um homem bom. No tagoror — o círculo de pedra onde o guanarteme reunia com os seus — perguntava-se de cada candidato a nobre se tinha matado alguém em tempo de paz, se tinha roubado, se fora desonesto. Se a resposta fosse negativa, era nomeado. Maninidra nunca tinha dúvidas sobre qual seria a resposta. O homem que era não podia continuar escravo.
A liberdade chegou numa noite de tempestade.
A chuva caía com uma intensidade que parecia querer lavar a ilha de cima a baixo. A ribeira brava ficou literalmente brava, incontrolável: subiu, alargou as margens, arrastou o engenho, os casebres, tudo. Na confusão do alarme — homens a gritar por baldes, mulheres a chamar crianças, o capataz a correr de lanterna em riste para o armazém do açúcar, que valia mais do que todos eles juntos —, Maninidra apanhou a chave da grilheta, libertou-a do pescoço, e foi à procura de Gasmira. Ela já tinha preparado um saco com pão, carne fumada e duas peças de roupa roubadas da casa senhorial. Ele agarrou um fardo de peles curtidas e um saco de cevada.
Desapareceram no meio das trevas, sem que ninguém desse pela falta de dois escravos numa noite em que faltava tudo o resto.
Encurralados pelas águas na margem da ribeira, só havia uma saída: escalar a rocha abrupta, apoiando-se nos arbustos, nos troncos amarrados à encosta pelas raízes de séculos. Atrás deles, ao longe, um cão ladrou — e outro respondeu —, mas o som perdeu-se no bramido da água e não voltou a repetir-se. A subida foi lenta, os dedos a sangrar, os relâmpagos a iluminar de vez em quando os dois corpos contra a pedra. Quando a borrasca começou a amainar, estavam a meia encosta, abrigados numa reentrância de rocha.
Adormeceram abraçados.
Quando amanheceu, viram-se no meio do abismo. Lá no fundo, parecia que tudo tinha desaparecido — as águas tinham lavado o vale. Não se via vivalma.
— A casa do senhor fica longe da ribeira — disse Maninidra. — Devem estar lá os que escaparam. Não podemos voltar. Vamos.
Já no topo do desfiladeiro, subiu a uma árvore para ver o que havia mais à frente. Um manto verde descia de um lado e do outro das colinas, unindo-se a meio por onde corria um ribeiro que se atirava para o abismo junto a ele. Procurou sinais de vida — fumo, animais, uma casa. Apenas pássaros.
Desceu. Cortou um ramo de pau branco direito e recto, raspou-lhe a casca, alisou toda a superfície. Testou a resistência com as duas mãos. Levantou-o acima da cabeça, rodou-o sobre si próprio, baixou-o tocando com uma das pontas no chão e, em posição de ataque, olhou para Gasmira.
Sentiu-se novamente guerreiro.
Nos dias seguintes desbravaram o vale, descobriram a gruta, recolheram pedras. Montaram uma parede de protecção, fecharam os buracos com lama, ramos e folhas. A entrada ficou protegida com ramos de loureiros e urze.
— E agora, como vamos sobreviver? — perguntou Gasmira.
Maninidra pegou na vara e na faca e desapareceu no meio da floresta. A resposta estava lá dentro.
Quando chegou a primavera, o vale tornou-se um ninho gigante. Os pássaros encheram as árvores de ninhos, de canto, de voo. As manhãs acordavam sob um hino de chilreio que parecia uma afirmação — a força da natureza, e também um grito contra o silêncio permanente que até então dominara o vale.
Guayarmina nasceu no fim do segundo verão, em liberdade.
Perto da hora do parto, Gasmira caminhou até ao riacho perto da gruta. Junto a um lago de águas cristalinas esperou que o bebé desse os últimos sinais. A meio da tarde os impulsos tornaram-se fortes. Era a hora. Pôs-se nua. A água cobriu-a até à cintura.
Quando os primeiros veios de sangue avermelharam o lago, Maninidra colocou-se atrás dela, segurou-a pelos ombros e cruzou os dedos por baixo dos seios cheios de leite. Ela ficou com as mãos livres para receber a filha que mergulhou devagar na água fria. Sem gritos. Quase sem dor. Apenas um leve cerrar dos dentes no momento mais difícil.
Gasmira olhou para o pequeno ser com espanto. Cabia nas suas mãos.
Ali ficaram os três, pai, mãe e filha, num abraço único, tendo por testemunhas os bis-bis que corriam de árvore em árvore ao fim da tarde, dando as boas-vindas à primeira princesa do vale.
O riacho, antes cristalino, arrastou o sangue em direcção ao precipício. Maninidra teve um arrepio.
— O sangue — disse, baixinho. — Pode denunciar-nos.
Escavou a margem com um pau e atirou terra para a água. O vermelho deu lugar ao castanho. Do alto da rocha verificou que, até ao fundo da queda, a cor desaparecera.
Voltou para junto de Gasmira e da filha. Era preciso cuidar da nova vida.
O Abismo
Guayarmina crescia a olhos vistos.
Num dia de Inverno, Maninidra desceu o desfiladeiro à procura de uma cabra. A menina precisaria de leite. Não havia hesitação: esperou que a noite fechasse e, apoiado na vara de pau branco, foi de salto em salto encosta abaixo.
Do outro lado da ribeira havia um curral, e desta vez, perto do curral, um homem a vigiar — um vigia novo, contratado depois de dois roubos que ninguém ali tinha conseguido explicar. Maninidra não sabia disso. Pé ante pé, abriu a portinhola. Quando ia deitar a mão a um animal, ouviu ruídos atrás de si. Virou-se com a faca em riste.
A luta foi breve. Um movimento, a faca, um gemido. O barulho da ribeira engoliu quase tudo — quase, porque um dos cães do curral, preso longe dali, ladrou três vezes seguidas antes de se calar outra vez, e nesse ladrar havia já o princípio de uma caça.
Maninidra recolheu a arma do homem caído, apanhou uma cabra, amarrou-a pelas patas e pô-la aos ombros. Atravessou a ribeira saltando de pedra em pedra e começou a subir a encosta que já conhecia como as suas próprias mãos, sem olhar para trás, sabendo que olhar para trás não mudaria nada do que vinha a seguir.
Gasmira esperava no topo do abismo, deitada sobre a rocha com a cabeça sobre o vazio. Tinha visto o homem descer, carregar sacos e subir inúmeras vezes. Cada vez que ele desaparecia, prendia a respiração. Cada vez que voltava a aparecer, soltava o ar que tinha retido.
Desta vez subia com a cabra. E lá em baixo, junto ao curral, começavam a acender-se archotes — um, depois dois, depois uma fila inteira a mexer-se junto à cerca, vozes de homem a levantar-se sobre o ruído da água.
A meio da encosta, Maninidra parou num penedo. A cabra resistia, puxando-o para o lado esquerdo, onde a encosta abria em vazio. Ele amarrou a corda ao único arbusto que tinha ao alcance, testou a sua resistência. Preparou-se para saltar cinco passos à direita, para junto do animal.
Cravou a ponta da vara numa pedra. Agarrou-a com as duas mãos. Deu impulso.
Voou.
A cabra baixou a cabeça, apoiou as patas da frente e investiu com os cornos. No ar. No vazio. Em simultâneo.
O céu estava azul, de um azul intenso, apenas quebrado por uma nuvem branca brilhando com o sol. Maninidra sentiu-se rodar. Abriu os olhos e viu o céu. E ouviu o grito de Gasmira lá em cima, as mãos levantadas, o corpo inclinado sobre o abismo.
Depois viu outra coisa.
Viu Guayarmina e Gasmira de branco, com flores na cabeça, correndo nos campos de Ansite ao sol. Tentou chamar por elas. Abriu os braços. Elas correram na sua direcção, passaram-no, desapareceram.
O azul do céu deu lugar à escuridão.
O arbusto cedeu. A cabra despenhou-se pela encosta e caiu sobre o corpo imóvel de Maninidra. O animal conseguiu levantar-se e, a cambalear, subiu, arrastando atrás de si a corda e o arbusto arrancado.
Foi nesse instante que os archotes junto ao curral se moveram todos ao mesmo tempo, em direcção à encosta, e alguém gritou uma palavra que Gasmira não conseguiu ouvir, mas que adivinhou pelo eco que os outros lhe deram.
Gasmira ficou deitada sobre a rocha, a cabeça sobre o abismo, os olhos no fundo da ravina. Não se mexeu durante muito tempo. Só quando os colonos lá em baixo, já reunidos junto ao corpo, levantaram os braços e gritaram de alegria é que desviou os olhos do homem estendido.
Pôs-se de pé. Sentiu as pernas.
Do alto, viu o corpo de Maninidra ser arrastado pelos colonos pela vereda abaixo, dois homens, cada um agarrado a uma perna, deixando um rasto de sangue na terra.
A cabra tinha chegado ao topo. A corda ficara presa numa pedra e o animal tentava libertar-se. Gasmira agarrou a corda, libertou-a da rocha, e caminhou para a gruta. A cabra ia à sua frente, sem pressa — como se não soubesse, como se já não houvesse pressa nenhuma que valesse a pena.
Foi buscar a filha.
Chorou todo o dia. Só parava quando Guayarmina recomeçava o seu choro de fome e tinha de lhe dar de mamar. E foi nessas alturas, com a filha ao peito, que o futuro chegou ao fim. Dela. Não da filha.