A Madeira bate recordes turísticos, mas por trás dos números cresce uma pergunta incómoda: quem consegue continuar a viver na ilha? Entre rendas impossíveis, salários baixos, alojamento local e jovens empurrados para fora, “A ilha que se aluga” olha para o preço humano da monocultura turística.
Os números são todos recordes, e é esse o problema. Perto de 12,8 milhões de dormidas em 2025 — cinquenta noites de turista por cada madeirense. Cento e setenta empresas de rent-a-car. Habitação a 2.500 euros o metro quadrado, mais cara do que no Porto, com salários abaixo da média nacional. Cada número é anunciado como vitória; somados, descrevem uma expulsão.
Um jovem qualificado faz as contas em cinco minutos: o ordenado que lhe oferecem cá não paga a renda que lhe pedem cá. Entre o Funchal e Zurique, a decisão não é aventura — é aritmética. A ilha exporta o que tem de melhor e importa quem pode pagar mais do que os filhos dela.
O turismo paga os salários que temos, é certo. O problema é a monocultura: já o fomos do açúcar, do vinho e da banana, e sabemos como acaba. Desta vez, a colheita somos nós.
Como fixar os jovens? Casa primeiro: solo público, devolutas recuperadas, travão ao alojamento local. Depois, fibra e trabalho remoto nas freguesias, terra agrícola com margem, escola e creche que não fechem. Ficar não pode ser um acto de heroísmo.
Nas freguesias do norte há cada vez mais janelas acesas — e menos gente atrás delas que cá fique depois de Setembro.