Em meados da década de 70, dez rapazes descem ao vale de São Vicente para explorar antigas grutas vulcânicas. Entre coragem, imprudência, fumo, fome e uma panela de macarrão perdida, a aventura transforma-se numa memória com humor.
Era uma manhã de sábado de princípios de Outubro de 1978, daquelas em que o céu sobre o vale de São Vicente ainda insistia no azul de Verão, sem nuvens nem arrependimentos. O sol entrava oblíquo pelas vinhas, arrancando reflexos cor de mel às folhas que começavam a amarelecer, e a ribeira corria lá em baixo com a modéstia das secas de fim de Verão — um fio de água entre pedras cobertas de musgo, mais ruído do que caudal. Era, portanto, um dia perfeito para se fazer uma asneira.
O grupo tinha dez elementos, todos rapazes entre os catorze e os dezanove. A ideia das grutas tinha surgido na véspera, à mesa do café do Manuel, algures entre o segundo e o terceiro grogue, quando o Agostinho — que era dos mais velhos e por isso mesmo dos mais imprudentes — se lembrara de que o seu avô lhe havia falado de umas cavernas vulcânicas escondidas atrás dos vinhedos da ribeira, com uma abertura tão pequena que só quem soubesse onde olhar a encontrava. «Já lá fui em miúdo», dissera o Agostinho, com a solenidade de quem diz ter escalado o Pico do Areeiro de olhos fechados. «Não tem nada que saber.»
As grutas vulcânicas do vale de São Vicente eram, e são, uma antiguidade respeitável. Formadas há vários milhões de anos, quando a Madeira não era ainda a Madeira mas apenas um tremor de magma a tentar subir à superfície do Atlântico, resultaram dos tubos por onde a lava havia corrido no seu caminho para o mar — tubos que esfriaram por fora primeiro, enquanto o interior ainda escorria, deixando atrás de si corredores de pedra negra, tectos abobadados e silêncios que o tempo não conseguiu preencher. A abertura que o Agostinho conhecia ficava dissimulada atrás de uma latada velha, ao fundo de uma levada que já não servia ninguém, num local onde as silvas tinham feito o que as silvas sempre fazem quando o homem não está a olhar.
Chegaram ao sítio ao meio-dia. Após alguma discussão sobre quem havia de entrar e quem havia de ficar — discussão que foi, como todas as discussões daquele género, uma dissimulada negociação de coragem —, o grupo dividiu-se em dois. Cinco entraram: o Agostinho, o Abel, o Carlos, o Alberto e o João Pequeno, alcunhado assim não por ser o mais novo, mas por ser o mais baixo, coisa que ele nunca havia perdoado à família que lha dera. Os outros cinco ficaram à entrada: o Zé das Pedras, o Tomás, o Rui, o Joaquim e o Cristóvão, que havia aproveitado a divisão para se voluntariar no grupo do exterior com uma rapidez que os outros fingiram não ter notado.
«Trazemos o almoço», disse o Zé das Pedras, erguendo a sacola onde iam as panelas, o macarrão, duas garrafas de vinho e uma grade de vinte e quatro cervejas. O Agostinho fez um gesto vago com a mão, como quem dispensa formalidades, e desapareceu pela abertura da gruta atrás dos outros quatro. Do outro lado, à luz do dia, os cinco que ficaram trataram de organizar o acampamento.
A fogueira foi ideia do Cristóvão, que havia chegado com uma convicção firme de que macarrão feito em fogareiro de campismo não prestava e que uma chama de lenha dava outro sabor ao molho. Ninguém discutiu — o Cristóvão tinha fama de entendido em coisas de cozinha —, e em poucos minutos o Joaquim já andava a recolher lenha seca e o Rui já havia encontrado um braseiro improvisado na forma de três pedras dispostas em triângulo. Colocaram-no onde havia espaço: junto à entrada da gruta, que ficava ali mesmo, ao abrigo do vento.
O problema, que nenhum dos cinco haveria de antecipar até ser tarde demais, era de geometria simples: a abertura da gruta funcionava como uma chaminé invertida. O calor da fogueira aquecia o ar junto à entrada, o ar quente subia pela corrente natural do interior, e o fumo — denso, teimoso, carregado do perfume inconfundível de eucalipto que o Joaquim havia juntado à lenha por achar que cheirava bem — começou a ser puxado para dentro como se alguém do lado de lá estivesse a aspirar por uma palhinha.
Lá dentro, o Agostinho foi o primeiro a notar. Estavam a explorar um corredor que se bifurcava a uns cem metros da entrada, com as lanternas a recortar sombras no basalto negro e húmido, quando o cheiro chegou. Cheiro de fumo. Depois, devagar, o fumo a seguir ao cheiro. O Agostinho parou.
— Ei. — A voz saiu-lhe mais pequena do que havia previsto.
O Abel chegou ao pé dele e farejou o ar. «Fumo», disse, com a objetividade de quem constata o óbvio.
«Os parvos acenderam uma fogueira à entrada», disse o Carlos, e havia na frase uma análise precisa da situação que só a raiva permite.
Tentaram voltar para trás. O fumo não estava a entrar — estava a infiltrar-se, o que é diferente: não uma rajada violenta, mas uma presença crescente, uma neblina que se adensava sem pressa, como quem não tem intenção de sair. As lanternas começaram a mostrar halos. O Alberto tossiu. O João Pequeno disse algo em voz baixa que ninguém entendeu, mas que todos perceberam.
A entrada estava agora vedada pelo fumo — não pelo fumo em si, que não teria espessura suficiente para matar num instante, mas pelo que o fumo representava: que o caminho de volta passava exactamente pelo sítio mais carregado, que lá fora havia cinco amigos sentados à roda de uma fogueira com a consciência limpa de quem cumpriu a sua parte do acordo, e que nenhum deles, presumivelmente, havia considerado a possibilidade de estar a fumigar os outros cinco como se fossem abelhas.
Foi o Agostinho quem se lembrou da outra abertura. O avô havia mencionado qualquer coisa — uma fissura algures no corredor esquerdo, por onde entrava um fio de luz quando o sol batia em certo ângulo. Não uma saída, havia dito o velho; só um respiro. Mas um respiro era exactamente o que precisavam. «Acredito que é para ali», disse o Agostinho, apontando para o braço da bifurcação que não haviam tomado, sem nenhuma certeza particular, mas com a necessidade imperiosa de apontar para algum lado.
Seguiram o canal. Era um corredor estreito, que obrigava a andar de lado em certos pontos, com o tecto a descer caprichosamente e a subir outra vez, como se o tubo de lava houvesse sido esculpido por alguém sem plano definido. O fumo era menos ali — a corrente puxava-o para o outro braço — e isso bastava para continuar. O João Pequeno tropeçou numa saliência e disse palavrões que o eco multiplicou, o que foi, dadas as circunstâncias, a única graça da tarde.
Ao fim de uns quatrocentos metros o Abel levantou a lanterna e viu: uma fenda alta e estreita na parede do corredor, por onde entrava um rectângulo de ar fresco e luz de tarde. O Agostinho chegou ao pé dela e meteu o rosto. Fechou os olhos. Respirou. A fenda tinha talvez vinte centímetros de largura — suficiente para um braço, para a cara, para a imaginação —, mas não para mais ninguém. Nem o João Pequeno, que era o mais esguio dos cinco, haveria de passar por ali sem deixar metade de si para trás.
— Não passa. — O Carlos disse-o sem cerimónia.
— Não passa — confirmou o Agostinho.
Ficaram um momento em silêncio a olhar para a fenda, como se a observação prolongada pudesse alargá-la. A fenda permaneceu indiferente, que é o feitio das fendas.
Mas o ar entrava. Esse era o essencial. Ar limpo, com cheiro a vinha e a terra húmida, empurrado por uma corrente suave que varria o corredor e tornava o fumo num problema distante, de outra divisão. Sentaram-se no chão de basalto — frio, irregular, implacável nas saliências — e esperaram. Não havia alternativa de maior elegância.
— Quanto tempo demora o fumo a dissipar-se? — perguntou o Alberto.
— Depende — disse o Agostinho.
— De quê?
— De quando eles apagarem a fogueira.
Houve um silêncio que continha várias coisas em simultâneo: a consciência de que os do exterior podiam não ter ainda percebido nada; a hipótese de que o Cristóvão estava naquele momento a alimentar a fogueira com mais eucalipto; e a impossibilidade absoluta de comunicar qualquer uma destas hipóteses para o outro lado da rocha. O João Pequeno disse que tinha fome. Ninguém respondeu, porque a resposta óbvia era que o macarrão estava do lado de fora e que era cedo para tratar desse assunto com equanimidade.
Lá fora, o Cristóvão havia percebido o problema com algum atraso, e à sua maneira característica: preocupou-se primeiro com o sabor que o macarrão poderia ganhar, e só depois lhe ocorreu que havia cinco amigos no interior da gruta a inalar aquele mesmo fumo. A fogueira foi apagada em pânico, com água dos cantis e alguma terra, num processo que deixou o braseiro transformado numa poça lamacenta e o molho, que estava quase pronto, definitivamente comprometido. O Zé das Pedras tentou chamar para o interior, mas a gruta não respondeu. Esperaram, sem soluções e sem macarrão. Cristóvão ainda se aventurou alguns metros para o interior da gruta. Todavia, a escuridão e o fumo não o deixaram avançar. Teve de voltar para trás. Não tinha nem luzes nem cordas, nem nada que pudesse proteger do fumo.
Dentro, a espera demorou o que demorou — mais de uma hora, talvez duas, o tempo sendo de difícil medição quando se está sentado em basalto no escuro com fome e algum ressentimento. O fumo foi cedendo devagar, recuando pelo corredor como uma maré que baixa sem se despedir. Quando o Agostinho achou que o ar estava suficientemente respirável, levantou-se, sacudiu as calças e disse, com a autoridade de quem comandou uma retirada bem-sucedida para um beco sem saída:
— Vamos.
Regressaram pelo mesmo corredor, rastejando os últimos metros junto à entrada onde o fumo ainda pairava mais denso, com as caras encostadas ao chão para apanhar o ar que restava junto à pedra. Saíram um a um pela abertura estreita, a pestanejar contra a luz da tarde, cobertos de pó e de cinza, com os joelhos em sangue de tanto rastejar. O vale de São Vicente estava sossegado à sua volta, alheio, com as suas vinhas e o seu fio de ribeira e o seu silêncio de lugar que existe independentemente das visitas. A capela do Pico da Cova, do outro lado, olhava imponente para o fundo da ribeira, marcando as horas do pânico.
O Zé das Pedras foi o primeiro a vê-los. Ficou de pé. Os outros quatro também.
Houve um silêncio de alguns segundos.
— Estão todos bem? — perguntou o Zé das Pedras.
— Estamos — disse o Agostinho. Olhou para o braseiro apagado. Para os restos do molho colado no fundo da panela. — E o almoço?
O Cristóvão abriu os braços com um gesto que pretendia ser de resignação, mas que saiu mais próximo de confissão.
— O macarrão… foi-se.
O Agostinho ficou a olhar para a panela um momento. Depois para os amigos à sua volta — os cinco do exterior de pé, os cinco do interior de joelhos sujos, todos com a mesma expressão de quem chegou ao fim de uma tarde que não havia corrido como previsto. O sol já tinha abandonado a ribeira. As folhas das vinhas tinham aquela cor de Outubro que não promete mais nada.
Um silêncio sepulcral desceu sobre o grupo. Alguém, não ficou registado quem, abriu uma cerveja.