Depois de uma separação, Teófilo leva Cardeal e Bonifácio, dois gatos habituados ao conforto doméstico, para uma fazenda na Achada do Loural. Entre ração cara, ratos atrevidos e a redescoberta da caça, Cardeal observa com ironia aquilo que os humanos parecem esquecer: um gato nunca deixa realmente de ser gato.
Chamo-me Cardeal. Tenho sete anos, peso quatro quilos e meio, e aprendi há muito que os seres humanos são criaturas de hábitos frágeis que se partem ao meio quando uma fêmea sai pela porta com as malas. O meu companheiro de território chama-se Bonifácio. Tem quatro anos, come demasiado depressa e acredita que qualquer coisa que se mova merece ser perseguida, o que é uma filosofia de vida com as suas vantagens e as suas limitações.
Vivíamos bem, antes. A casa de Teófilo tinha aquecimento central, um sofá de couro castanho onde Bonifácio dormia enrolado como um caracol, e uma mulher que varria o pelo com uma expressão de resignação que eu achava, em segredo, bastante comovente. Depois a mulher foi-se embora. Levou as malas, levou o gosto pelas novelas ao fim da tarde, levou o cheiro a lavanda que impregnava os lençóis. Não nos levou a nós. Não por esquecimento. Foi de propósito.
Ouvi a conversa, que foi breve e aconteceu numa cozinha que cheirava a café frio.
— Os gatos ficam — disse ela.
— Ficam — disse ele.
E ficámos.
Durante algumas semanas, Teófilo andou pela casa com aquele passo lento de homem que perdeu as coordenadas. Abria o frigorífico, ficava a olhar para o interior como se esperasse que alguém lhe dissesse o que fazer, fechava-o sem tirar nada. Eu observava-o do cimo do armário da sala. Bonifácio observava-o do sofá, com menos filosofia e mais preocupação com o horário das refeições.
A ração continuou a aparecer. Isso devo reconhecer.
Depois, numa manhã de sábado de princípios de Outubro, Teófilo carregou as nossas coisas num carro — as taças, a cama de tecido polar que nunca usávamos porque preferíamos os seus lençóis, a ração, e nós próprios, dentro de uma caixa de transporte que cheirava a desinfectante — e subiu pela estrada que sobe para a Achada do Loural.
Conheço aquela estrada. O cheiro muda a partir de certa altitude: a eucalipto, a humidade de pedra, a fetos arbóreos. Bonifácio passou a viagem a miar com uma persistência que eu admiro pela energia que requer mas não partilho em termos de método.
A fazenda era um rectângulo de terra com vista para o vale de São Vicente. Mais propriamente para as montanhas altas que cercam o vale. Havia um palheiro velho, um abrigo de blocos novos ainda com cheiro a cimento, e silêncio. O silêncio do campo é diferente do silêncio de uma casa de divorciado. Tem mais camadas. Tem pássaros no meio.
Teófilo montou a nossa casota ao abrigo de uma parede virada a sul. Instalou o bebedouro automático, verificou que funcionava, encheu o recipiente da ração. Ficou ali parado um momento, com as mãos nos bolsos, a olhar para nós com uma expressão que reconheço nos humanos quando estão a fazer algo de que não têm bem a certeza.
— Ficam bem aqui — disse.
Disse para nós ou para si próprio, não sei. Com os humanos, a distinção é muitas vezes irrelevante.
Depois foi-se embora.
Devo ser honesto: os primeiros dias foram de adaptação genuína. O campo tem regras diferentes da casa. O chão é irregular. Os cheiros são demasiados e chegam todos ao mesmo tempo, sem a filtragem que o betão e o reboco providenciam. Bonifácio passou as primeiras horas a farejá-los um a um com uma concentração que raramente lhe vejo aplicada a qualquer outra coisa.
Eu instalei-me numa pedra larga com boa exposição solar e comecei a inventariar o território.
A ração aparecia regularmente. Teófilo vinha à fazenda com uma frequência que variava entre dois e quatro dias. Inspeccionava o abrigo, verificava a água, enchia o recipiente da ração, ficava ali sentado no banco de madeira que tinha posto à entrada do abrigo a fumar um cigarro, com aquele olhar horizontal dos homens que estão a refazer os planos.
Era, de verdade, uma vida boa. Talvez menos confortável que o sofá da sala. Mas, mesmo assim, ótima.
Foi na terceira semana que apareceram os ratos. Dois ratos. Digo dois porque foram dois os que encontrámos junto à taça da ração numa tarde de Novembro em que o vento descia do Paúl e cheirava ao que vai chegar. Mas a verdade é que onde há dois há uma gramática, e uma gramática implica conjugação.
Eram grandes mas não eram gordos. Não aqueles ratos delicados de cidade, nervosos e rápidos como um pensamento mau. Eram ratos de campo, compactos, com o pelo acinzentado daqueles que vivem dentro das pedras e não têm pressa nenhuma de ir a lado algum.
Comiam.
Nós estávamos a meio metro, Bonifácio e eu. Os ratos olharam para nós. Nós olhámos para os ratos. Não houve tensão, exactamente. Houve — como hei-de dizer — um reconhecimento. O tipo de reconhecimento que acontece entre criaturas que percebem, sem necessidade de palavras, que partilham um interesse imediato suficientemente forte para tornar a hostilidade inconveniente.
A ração era boa. Era ração cara, daquelas com frango e arroz e sem conservantes artificiais, e Teófilo comprava-a no supermercado da vila com a regularidade de um ritual. Havia para todos.
Bonifácio olhou para mim. Eu olhei para os ratos. Os ratos comeram.
Sentámo-nos.
Durante duas semanas, a ração manteve-nos a todos: dois gatos e dois ratos, e possivelmente mais, porque os números flutuam nas comunidades que vivem dentro das pedras. Havia uma ordem implícita: nós comíamos primeiro, eles chegavam quando achavam conveniente, e o recipiente era grande o suficiente para não haver contabilidade.
Teófilo chegou numa tarde de terça-feira. Por um acaso do destino, lá estávamos lá os quatro, dois gatos e dois ratos, a comer a última dose de ração disponível.
Teófilo ficou parado. Olhou para os ratos. Olhou para nós. Olhou para os ratos outra vez. Era a expressão de um homem a calcular qualquer coisa, embora não fosse claro o quê. Depois foi ao carro, tirou o saco da ração do porta-bagagens, ficou com ele na mão, voltou a olhar para a cena junto à taça, e pôs o saco de volta no carro.
Entrou no abrigo. Ficou lá dentro algum tempo.
Entusiasmados que estavam com a comida, os ratos só deram pela presença de Teófilo quando este já regressava do abrigo. Ala que se faz tarde. Enquanto o diabo esfrega um olho, pisgaram-se.
O dono ofendido não encheu o recipiente. Verificou a água, acendeu um cigarro, ficou sentado no banco. Olhou para nós com uma expressão que eu, nos sete anos de experiência com a espécie, identifico como a expressão de quem acabou de ter uma ideia que acha boa mas ainda não testou.
— Vocês são gatos, não são? — perguntou.
O Bonifácio miou alto, e deixei-me ficar. A observação era irrefutável.
Depois foi embora com o saco de ração.
A ausência da ração produziu efeitos imediatos e previsíveis. Primeiro e Segundo desapareceram nessa mesma noite, o que confirma a minha teoria de que a lealdade nas relações baseadas exclusivamente no interesse partilhado tem uma durabilidade directamente proporcional à disponibilidade do interesse.
Nos dias seguintes, o recipiente ficou vazio. Teófilo não voltou. A água continuava a aparecer — o depósito automático funcionava sem intervenção humana — mas a comida não.
Bonifácio ficou inquieto ao segundo dia. Ao terceiro, começou a vigiar o perímetro da fazenda com uma concentração que não lhe é habitual. Eu observei-o, do alto da pedra, e reconheci o que estava a acontecer: algures, debaixo dos sete anos de ração cara sem conservantes artificiais, havia qualquer coisa a acordar.
Ao quarto dia, Bonifácio desapareceu antes do amanhecer. Eu fiquei. Tenho sete anos e aprendi que a paciência é uma forma de inteligência que a maioria das criaturas confunde com passividade.
Ao quinto dia, ao entardecer, Bonifácio voltou.
Trazia um rato na boca. O rato estrebuchava. Gostas de sangue caiam-lhe da boca. O rato já era. Temos pena.
Olhei para ele. Ele olhou para mim com aquela expressão de quem acabou de descobrir que sabe fazer uma coisa que não sabia que sabia. Depois pousou o rato no chão e olhou para ele estrebuchar, e na sua cara havia qualquer coisa que não era exatamente orgulho mas que se lhe assemelhava o suficiente para que a distinção fosse académica.
Nessa noite, fui eu.
O campo de madrugada tem uma qualidade diferente. O cheiro apura-se. Há sons que de dia ficam abafados pelo vento e que de noite chegam com uma clareza que é quase instrução. Segui o que sabia antes de saber que sabia, que é a única forma honesta de descrever o que acontece quando uma criatura encontra aquilo para que foi feita depois de anos a não precisar disso.
O rato estava debaixo de uma pedra grande perto do palheiro. Não vou descrever o resto. Não por delicadeza, mas porque o processo não tem interesse literário: é eficaz ou não é, e foi. Não quero, para usar um eufemismo, desumanizar a coisa.
Quando Teófilo chegou, nessa manhã de sábado, nós estávamos à sua espera.
Cada um com um rato.
Pousámo-los aos seus pés com a precisão de quem cumpre uma obrigação que entende, e ficámos a olhar para ele.
Miámos.
Teófilo ficou parado. Olhou para os ratos. Olhou para nós. As mãos foram aos bolsos, saíram dos bolsos, foram outra vez. Depois sentou-se no banco de madeira à entrada do abrigo e ficou assim um longo momento, com as mãos nos joelhos e os olhos na paisagem do vale lá em baixo, onde São Vicente ficava quieto na luz da manhã.
Não sei o que estava a pensar. Com os humanos, nunca sei. Presumo que pensava em várias coisas ao mesmo tempo, que é o principal defeito da espécie — esta incapacidade de estar completamente dentro de um único momento sem que outros momentos entrem pela janela.
Depois tirou o telemóvel do bolso e ficou a olhar para o ecrã.
Presumo que encomendou ração.
Quanto aos ratos — os dois que trouxemos, os outros que viveriam certamente nas pedras do palheiro, Primeiro e Segundo que andariam por algures a fazer os seus cálculos de sobrevivência — isso já não era problema nosso.
Nós somos gatos.
Nunca deixámos de ser.
Há uma coisa que aprendi, em sete anos de observação da espécie humana: eles gostam de acreditar que tomam decisões. Gostam de sentir que foi o divorciado que decidiu levar os gatos para a fazenda, que foi ele que decidiu retirar a ração, que foi ele que esperou para ver o que acontecia. Gostam de sentir que o plano foi deles.
Nós deixamos.
É mais simples assim, e o resultado é o mesmo: Teófilo tem agora o que queria — gatos que caçam, uma fazenda sem ratos, e a sensação de ter sido inteligente — e nós temos o que sempre tivemos, que é a compreensão clara de como as coisas funcionam.
Bonifácio não pensa nestas coisas. Está neste momento a dormir no banco de madeira com o sol na barriga, e a sua expressão é a de uma criatura completamente resolvida com o universo.
Às vezes acho que é ele quem tem razão.
Mas alguém tem de tomar notas.