A levada corria estreita. Um fio de água límpida cortava a encosta como uma cicatriz recente, viva, por vezes dolorosa, mas constante. Manuel chegou ao ponto da Encumeada pouco depois da meia-noite de 29 de Dezembro. O vento trazia o cheiro de terra molhada e de pinheiros molhados. Trazia também o frio que se metia pelos punhos do casaco de lã grossa, o mesmo que o pai usara anos antes, quando ainda limpava as valas com as mãos nuas.
No bolso direito, o canivete. Não era grande, lâmina curta, cabo de osso polido pelo uso. O pai lho dera no dia em que completara quinze anos, dizendo apenas: «Serve para abrir caminho.» Manuel nunca o usara para cortar a levada. Mas naquela noite o peso do metal aquecia-lhe a palma da mão, e ele apertava-o sem tirar a mão do bolso.
Os outros já estavam lá. Três homens encostados à parede de pedra, bonés puxados até às orelhas. O mais velho, o tio Zé da Ribeira, fumava um cigarro enrolado à mão. A brasa piscava no escuro como um sinal de morse. Ninguém falava alto. Falavam com os gestos: um aceno de cabeça, um cuspo para o lado, o modo como o mais novo, o Chico, afagava o machado de cabo curto que trouxera.
– A central está a trabalhar a meio – disse o tio Zé, sem olhar para ninguém. – O engenheiro do Funchal mandou dizer que talvez falte luz para as iluminações. Natal sem luz é como missa sem padre.
Manuel não respondeu. Olhou para a levada. A água corria devagar, quase preguiçosa, mas ele sabia que bastava um golpe fundo na parede de cimento para a fazer sangrar para o vale. Um golpe, e a Serra d’Água ficaria seca. E o Funchal às escuras. Sinal de festa estragada. Mas o que fazer?
Então era só o Funchal que tinha direito a ter iluminação. Todo o resto da ilha tinha de voltar à escuridão dos tempos por causa dos meninos da cidade?
– A água é nossa. – Era uma espécie de slogan repetido até à exaustão nas tabernas de S. Vicente, quando entre o Natal e o Ano novo, chegou a notícia de que, a eletricidade ia ser cortada nos últimos dias do ano, para garantir que as Festas e fogo de artifício alegrariam os turistas como estava prometido.
Não podia ser. Manuel foi para a Encumeada com outros três amigos, mas outras duas equipas puseram-se a caminho para outros locais mais recônditos para garantir que caso a iluminação faltasse em São Vicente a água seria cortada. Que não houvesse dúvidas.
Ele lembrava-se do pai a contar histórias daquela mesma levada. Como fora aberta à mão, à picareta, por homens pendurados nas rochas, muitos dos quais não sobreviveram quando, por alguma razão as cordas ficaram mal presas, ou alguma rocha mais atrevida se desprendia e os arrastava para o fundo do abismo. O sacrifício, no entanto valeu a pena. O excesso de água a norte foi matar a sede do sul, ao mesmo tempo que garantiu noites iluminadas, nas ruas e nas casas. E agora a água ia servir para acender as luzes da cidade que eles mal conheciam. Manuel tinha estado uma vez no Funchal, aos vinte anos, para vender batatas. Vira as ruas cheias de gente que falava depressa e olhava para os pés dos camponeses como se fossem sujos. Nunca mais voltara.
O Chico acendeu outro cigarro com a brasa do anterior.
– Dizem que mandam a polícia. Um corpo, para nos assustar.
O tio Zé riu-se, um riso seco.
– Que mandem. Nós somos mais.
Manuel tirou o canivete do bolso. Abriu-o devagar. A lâmina brilhou um instante à luz da lanterna de petróleo que o Chico segurava. Não cortou nada. Passou só o polegar pela aresta, como o pai fazia quando queria sentir se ainda estava boa. O gesto era o mesmo. A memória também.
Passaram a noite assim. De hora em hora, um deles caminhava duzentos metros pela levada, verificava o nível da água, voltava. O vento aumentava. Trouxe chuva miúda, quase nevoeiro, que lhes colava a roupa à pele. Manuel sentia o cheiro da lã molhada misturado com o fumo do cigarro. Pensou na Maria, lá em casa, com as duas pequenas debaixo do cobertor. Ela não perguntara nada quando ele saíra. Limitara-se a pôr-lhe no bolso um pedaço de pão com queijo. Agora, talvez estivesse acordada, a ouvir o vento bater nas janelas de madeira.
De madrugada, ouviram o motor. Um jipe subia a estrada de terra, faróis amarelos cortando a névoa. Os homens endireitaram-se. O tio Zé cuspiu para o chão. Manuel fechou o canivete mas não o guardou. Segurou-o aberto, junto à perna.
O jipe parou a cinquenta metros. Dois guardas saíram. Uniformes escuros, capas de chuva brilhantes. Um deles trazia a espingarda ao ombro, mas não a tirou. O outro, mais velho, ergueu a mão num gesto que queria ser pacífico.
– Ordens da Junta. Não podem estar aí.
– Aqui como? Na beira da levada? Mas onde é que já se viu isso. Estamos a fazer alguma coisa de mal? Não brinque com a gente.
– Vá, não arranjem problemas. Vão lá para as vossas casas e nada acontece. Está tudo calmo.
Ninguém se mexeu.
O guarda mais novo olhou para a levada, para os homens, para o machado do Chico. Engoliu em seco.
– Não queremos problemas – disse o mais velho. – Mas se cortarem a água, cortam a luz ao Funchal.
Manuel deu um passo. A voz saiu rouca, como se não a usasse há dias.
– E nós também queremos luz que é dada pela nossa água. Por que razão têm eles de ter luz e nós não? Quanto muito cortavam lá a luz e davam mais a nós. É a nossa terra que lhes dá a água para a luz. Isto não está certo.
– Acalme-se homem – disse o guarda mais velho.
– Claro que me acalmo – respondeu Manuel. Deixem as coisas como estão, Não nos cortem a luz e tudo ficará bem. A água é nossa.
– A água é nossa, a água é nossa. – Repetiram os companheiros. Da vigília.
O guarda olhou-o nos olhos. Manuel não baixou os seus. Apertou o canivete com mais força. A lâmina estava fria agora.
O jipe deu meia-volta. Os faróis desapareceram na curva. O silêncio voltou, mais pesado.
No dia seguinte, 30 de Dezembro, o rádio do tio Zé apanhou a notícia. A Junta Geral do Funchal cedia. A central ia trabalhar a toda a força. As luzes iam acender-se.
Os homens não gritaram. O tio Zé limitou-se a apagar o cigarro na sola da bota. O Chico encostou o machado à parede de pedra. Manuel guardou o canivete no bolso, devagar, como quem guarda uma promessa. E, na maior das calmas começaram a descida para as suas casas.
Ao fim da tarde, quando a luz já fugia, as pessoas juntaram-se em grupos em diferentes sítios, celebrando a bravura, a determinação e a força do povo de São Vicente.
– Vai-se falar disto durante muitos anos, acreditem. Atirou um jovem estudante, filho de um mediano proprietário que estudava em Coimbra.
Mulheres com lenços na cabeça, velhos com bengalas, crianças que corriam entre as pernas dos adultos. Alguém trouxe uma garrafa de aguardente. Beberam por turnos, do gargalo. Depois o tio Zé começou a cantar, voz baixa e rouca:
Com o povo de São Vicente,
nem a Polícia se mete.
Vamos todos prá rambóia
nem que chova canivetes.
Os outros pegaram no refrão. Manuel cantou também, mas a voz saiu-lhe mais baixa, quase para dentro. Sentiu o canivete mexer-se no bolso a cada sílaba. Não era raiva. Era outra coisa. Uma coisa antiga, que o pai também conhecera.
Quando a noite caiu, Manuel voltou sozinho pelo caminho de terra até à sua casa. Lá em cima, a água seguia o seu caminho, agora mais cheia, como se soubesse que o seu trabalho estava garantido. A chuva parara.
Nos povoados, cá em baixo, o ar cheirava a terra lavada e a fumo de lareira.
Quando chegou a casa, esperava-o uma sopa quente. A Maria estava à porta, com um xaile sobre os ombros. Não perguntou nada. Apenas lhe tocou no braço, um toque breve, como quem verifica se o homem voltara inteiro. As pequenas dormiam no catre, respirando devagar.
Manuel sentou-se no banco de madeira junto à lareira. Tirou o canivete do bolso e pousou-o na mesa. A lâmina refletiu a luz vermelha das brasas. Ficou ali, quieto, a ouvir o crepitar do fogo e, lá fora, o silêncio da noite, imaginando o rumor constante da água deslizando na montanha para fazer o que sabia. Alimentar a central e dar vida às terras do sul.
No dia seguinte, as festas de fim-de-ano do Funchal celebraram-se com todas as luzes acesas.
Em São Vicente, apesar da luz não ter faltado, a festa celebrava-se de outra maneira. A alegria interior, o orgulho, a confiança. Até parecia que algo de novo e bom estaria para acontecer. O que os desejos de Ano Novo poderiam oferecer. Quem sabe ?…
O canivete estava na mesa, e a levada continuava a correr. E isso bastava.
– A água é nossa!