Depois de sessenta anos dedicados ao açúcar e ao álcool, João Higino Ferraz pediu apenas o reconhecimento oficial do ofício que todos lhe reconheciam. Na última parte desta história, a Questão Hinton chega ao fim, o Torreão desaparece e os cadernos do técnico tornam-se a derradeira memória do império açucareiro da Madeira.
Três histórias da Questão Hinton
Oficialmente, nada
Na secretária, a chama do candeeiro ia baixa e o velho ia no sétimo copiador — o de 1927 a 1929, o dos anos maus. Havia livros que lhe apetecia folhear devagar, por causa das coisas boas que lá vinham; este abriu-o como se abre a porta de um quarto onde alguém esteve doente.
Os anos vinte foram, para o açúcar da ilha, uma guerra civil de tacho e alambique. Caído o regime dos privilégios, sobrava a aritmética: a cana era muita, o açúcar não se vendia, e a aguardente vendia-se de mais — a ilha bebia-a com uma dedicação que lhe valeu lá fora o epíteto de ilha da aguardente, e ao Estado uma dor de consciência periódica. De um lado o Torreão, único fabricante de açúcar, moderno, enorme, mal-amado; do outro os chamados aguardenteiros, dezenas de alambiques pequenos, cada um com a sua freguesia, o seu deputado e o seu jornal. Mediam forças a cada decreto, e os decretos vinham como as trovoadas, de Lisboa e sem aviso: o de 14.168 trouxe alívio — «ficará tudo mais seguro», escreveu Ferraz —, e meses depois já era, na mesma pena, «a maldita nova lei saccarina».
A campanha fez-se como sempre se fizera, com a diferença de os jornais serem agora mais caros e os amigos mais raros. Harry, de Lisboa, recomendava entrevistas que valorizassem a modernidade do engenho; Ferraz dava-as com a mestria de meio século de ofício — explicava ao Diário da Madeira que só o Torreão podia moer toda a cana da ilha em três meses, e depois escrevia a Harry, sem uma ruga de ironia, que falara das obras da fábrica «mas sem dizer que era para augmentar a capacidade», não fossem os inimigos aproveitar. Chamava-lhes sempre isso, os inimigos, sem nomes, como quem fala do nevoeiro. E entre os inimigos novos contava-se agora um que doía: Quirino de Jesus, o advogado e publicista que em tempos fora o mais aguerrido defensor do regime sacarino, e que mudara de trincheira com armas e bagagens e igual talento. Nos copiadores, Ferraz despacha-o com uma frase que é um portão a fechar-se: um traidor «que não tem outro fim senão vingar-se do Senhor Hinton». O que se passara entre eles, nem os copiadores o dizem, nem este conto o vai inventar.
No meio disto, a fábrica continuava a ser fábrica, com a sua quota anual de milagres e desastres. Em 1928 rebentou uma caldeira. Foi de manhã, com a laboração em curso: um estrondo que se ouviu na cidade, um jacto de vapor que varreu a casa das máquinas, homens a correr por entre a névoa escaldante a gritar os nomes uns dos outros. Ferraz, que estava no laboratório, chegou à casa das caldeiras ainda o vapor assobiava, e fez à sua maneira o que havia a fazer: contou os homens. Contou-os duas vezes, como contava tudo. A conta deu certa, por sorte ou por milagre — nos copiadores a explosão despacha-se em linhas técnicas, causas prováveis, reparação, prazos — mas quem esteve lá contou sempre que o velho técnico, com a conta fechada, foi sentar-se sozinho atrás do laboratório, e que esteve um bom bocado de mãos abertas em cima dos joelhos, a olhar para elas. Duzentos e trinta homens tinham nome, casa e horário, e ele sabia-os de cor; naquela manhã soube-os doutra maneira — um a um, pelo peso que cada nome teria se a conta não fechasse. O açúcar sempre se pagou em moeda amarga; quem anda nele sessenta anos sabe a tabela de câmbios de cor.
Foi por essa altura que Harry Hinton, com setenta e tal anos, se cansou. As contrariedades eram muitas, os amigos poucos, os decretos malditos, e o homem que meio século antes ameaçava chefes de governo falava agora em vender a fábrica. Foi Ferraz quem o demoveu — instância a instância, número a número, como o outro o fora buscar ao Deão trinta anos antes; a vida tem destas simetrias, e cobra-as. Harry deixou-se ficar. E João Higino, com sessenta e seis anos feitos, sentou-se depois à secretária e escreveu a um amigo de França, Georges Lefebvre, a frase que é talvez a única queixa inteira que se lhe conhece em quarenta anos de cartas — e escreveu-a em francês, como se em português não se atrevesse:
«Il est riche et peut reposer… Et moi…»
Ele é rico e pode descansar. E eu… As reticências ficaram lá, no papel de decalque, à espera. Ninguém lhes respondeu nunca. Copiou a carta no livro, como copiava tudo, e passou à seguinte, que era sobre melaço.
Depois veio o Estado Novo, e a Questão Hinton, que dois regimes tinham discutido aos gritos, foi resolvida à maneira do terceiro: em silêncio e por ofício. O senhor doutor Oliveira Salazar não discutia questões; despachava-as. Numa carta de 1935 ao presidente da Junta Geral, examinou as reclamações da lavoura sacarina com a paciência de um confessor e a caneta de um guarda-livros: das muitas queixas, «apenas duas me pareceram susceptíveis de deferimento e não ainda assim como era pedido». Quanto aos industriais da aguardente, a sentença dispensava recurso: «fabricam um artigo que se não vende», e não era caso de indemnização, «nem para se consentir outra vez o envenenamento dessa gente, como era de antes». A ilha da aguardente leu, benzeu-se, e obedeceu. Em 1939 fecharam-se de uma penada quarenta e oito fábricas de aguardente — quarenta e oito casas com nome, forno e freguesia, varridas por um parágrafo — e o Torreão, mal-amado de três regimes, ficou mais sozinho e mais senhor do que nunca. A Questão morrera; o monopólio, esse, gozava de perfeita saúde. Há doenças assim, que se curam matando o doente que se queixava.
Fosse como fosse a política, uma coisa os decretos nunca conseguiram regulamentar: o fim da safra. Todos os anos, moída a última cana, a fábrica fazia a sua festa — mesa comprida no pátio, vinho que desta vez não era para análise, os homens de fato domingueiro e as mulheres e os filhos a verem por dentro o monstro que lhes comia os maridos e os pais três meses por ano. Ferraz ia sempre, e sempre da mesma maneira: chegava, provava, dava duas voltas à mesa, dizia meia dúzia de nomes — sabia-os todos, dos duzentos e trinta, e das famílias os principais — e encostava-se depois a um pilar, de copo intacto na mão, a olhar. Um ano, já nos anos trinta, um foguista novo, com a coragem dos dezoito anos e de dois copos, foi-se a ele:
— Ó senhor Ferraz, o senhor nunca se ri?
O velho técnico olhou-o de cima a baixo, como quem lê um manómetro.
— Rio. No fim da safra.
— Mas a safra acabou hoje!
— Pois acabou. — E levantou o copo meia polegada, o que nele era uma gargalhada. — À tua saúde. Vê lá as pressões, que para o ano quero-te cá.
E é justo que se diga, antes do fim, aquilo que a ilha nunca disse em voz alta: o técnico do Torreão era, àquela altura, uma autoridade nacional na matéria. Em 1928 foi a Angola acompanhar a montagem do engenho do Cassequel, no Lobito, onde a casa tinha interesses; em 1930 estava em Ponta Delgada a ensinar a fábrica de Santa Clara a fermentar melaço. Quem quisesse montar açúcar ou álcool em terra portuguesa, do Atlântico a África, acabava mais tarde ou mais cedo a escrever ao Funchal, a um senhor de letra desenhada que respondia a tudo, com purezas, esquemas e paciência. Portugal consultava-o como técnico; só não achou nunca maneira de lhe dizer, num papel com selo branco, que ele o era.
Os copiadores de Ferraz acabam em 1937, no nono livro, sem cerimónia nenhuma: uma carta comercial qualquer, e depois páginas em branco. Nesse mesmo ano partiu para Londres, doente, o engenheiro Marsden, trinta e cinco anos de casa, o do cachimbo apagado na noite do incêndio; morreu lá no ano seguinte, longe do vapor que o gastara. Ferraz ficou. Tinha setenta e quatro anos e não sabia estar de outra maneira: continuou a ir à fábrica, a provar as guarapas, a apontar rendimentos em cadernos que já ninguém lhe pedia. O ofício era a única terra firme que restava de tudo — a firma do avô, a praça, o Deão, os decretos, os amigos, os inimigos, tudo o mais se tinha gasto — e ele agarrava-se ao ofício com as duas mãos, como o náufrago à tábua: não por esperança, por educação.
E assim chegamos outra vez, e de vez, à noite de 25 de Novembro de 1944 — vinte e sete anos, dia por dia, depois da noite em que vira arder a destilaria, embora seja quase certo que ele não deu pela coincidência, ocupado como estava com as contas.
O caderno enchia-se devagar, na letra desenhada de sempre, um pouco mais trémula: as datas, os nomes, os avós, os tios, a praça, o Deão, o Torreão. «Asseitei a oferta», escreveu, à moda dele, que sabia de purezas e rendimentos tudo e de ortografia o que calhava — os erros na escrita eram-lhe como os calos nas mãos: prova de serviço, não de ignorância. A casa estava calada. Em cima da cómoda, os retratos faziam o seu próprio inventário: a mulher, com quem casara em 1891; a filha Mathilde, que já lá estava do outro lado, com a moldura mais limpa que as outras, porque a mão da mãe passava por ali todos os dias; a Maria Elisa, doente — no caderno, ao lado do nome dela, o velho pôs um ponto de exclamação que ninguém sabe se era dor ou protesto; a Maria Sofia, casada com um coronel; o João, casado com uma inglesa de nome Dolly — nem nos casamentos escapava a casa a Inglaterra; e a Maria Amélia, solteira, que era quem agora lhe trazia o chá e lhe apagava o candeeiro quando ele adormecia sobre os livros. A vida devolvia-lhe os nomes pela ordem dela, não pela ordem dele. Somou os anos de serviço: da Ponte Nova ao Torreão, de 1884 a 1944. Sessenta. Conferiu a conta. Estava certa. Era das poucas contas da vida dele que fechava sem ponto de interrogação.
E então, no fim da última página, com a fábrica a dormir lá em baixo e o século a dormir por cima, João Higino Ferraz molhou o aparo e escreveu a pergunta que trazia atravessada — a pergunta para que servira, afinal, o caderno todo, a noite toda, a vida toda:
«Não tenho direito a têr o titulo de Tecnico de Fabrica assucar e alcool? Oficialmente em Portugal.»
Um título. Não pedia dinheiro, que o não tinha de sobra mas tinha; não pedia pensão, nem condecoração, nem rua com o seu nome. Pedia um papel oficial que dissesse aquilo que a ilha inteira sabia e nenhuma repartição confirmara: que ele era do ofício. Sessenta anos de açúcar e álcool, três gerações, duas fábricas perdidas e uma engrandecida, meia dúzia de sistemas que os manuais estrangeiros citavam, a Questão mais falada do Parlamento português passada pelas suas mãos carta a carta — e no fim de tudo, o homem que escrevera cartas a viscondes, a ministros, a presidentes do conselho, escrevia a última petição da sua vida a ninguém, num caderno particular, à luz de um candeeiro, com um erro de ortografia e toda a razão do mundo.
O título nunca veio. Não consta que o tivesse pedido a quem de direito, nem que houvesse, em Portugal, um direito a quem pedi-lo: o país tinha títulos para tudo — para os viscondes do melaço, para os doutores das leis sacarinas, para os comendadores das despesas grandes — menos para quem sabia fazer as coisas. João Higino Ferraz morreu em 1946, quarenta e sete anos depois de ter entrado no Torreão para não mais sair. Fabricante de açúcar, aguardente e álcool há sessenta e dois. Oficialmente, nada.
O resto conta-se depressa, porque é o resto.
A fábrica sobreviveu-lhe como as fábricas sobrevivem aos homens: por inércia e mais trinta anos. Em 1969 a família Hinton anunciou que aquilo não era rentável; o Estado, por costume, compensou; em 1972 um relatório declarou o beco sem saída com a franqueza dos relatórios — uma fábrica com menos de vinte mil toneladas não tinha possibilidade razoável de ser rentável no mundo novo; e o engenho do Torreão, que fora a maior potência a vapor da ilha e a questão mais apaixonada do Parlamento, moeu as últimas canas nos anos setenta e apagou-se de vez na década seguinte. Demoliu-se depois, com a pressa que se tem em apagar o que se deixou morrer. Do arquivo da fábrica, meio século de papéis, não se salvou nada: perdeu-se no desmantelamento, ao Deus-dará, como se perde tudo o que não tem dono que grite. Salvaram-se — por estarem em casa dele, na secretária dele, guardados pela família dele — os nove copiadores, os livros de notas e o caderno de 1944 de João Higino Ferraz. De maneira que hoje, de todo o império do açúcar da Madeira, dos decretos, dos monopólios, das despesas grandes e dos compromissos, o que existe, o que se pode ler e tocar, é o arquivo particular do técnico. A História, que em vida lhe não deu título nenhum, ficou-lhe a dever a matéria-prima toda — e paga como sempre pagou aos da sua condição: postumamente, e sem juros.
No lugar do Torreão, à beira da Ribeira de Santa Luzia, fez-se um jardim público: relvados, canteiros, bancos à sombra, turistas de máquina ao peito — e placa nenhuma a dizer que ali ferveu meio século de vapor, de açúcar e de política.
Era uma vez um homem que sabia fazer açúcar. Discutiu-se cinquenta anos, em dois regimes e uma ditadura, de quem devia ser o açúcar da Madeira: se do inglês, se do Estado, se dos lavradores, se dos aguardenteiros. Responderam os decretos, os folhetos, os parlamentos, os jardins. Só uma pergunta ficou por despachar, escrita a aparo numa noite de Novembro, e é ela que este conto vem, com sessenta e tal anos de atraso e nenhuma competência oficial, tentar deferir:
Tinha. O título era dele. Sempre foi.
Nota do autor
Este conto nasce do estudo e edição do arquivo particular de João Higino Ferraz (1863-1946), director técnico da fábrica do Torreão, da firma William Hinton & Sons — nove copiadores de cartas (1898-1937), livros de notas e as notas autobiográficas de 1944 —, acervo raro na história da técnica e da indústria portuguesas, publicado pelo Centro de Estudos de História do Atlântico (CEHA).
São factos documentados: a família Ferraz e a fábrica da Ponte Nova (o livro de notas do avô Severiano, de 1848; a sua morte pela cólera em 1856; o braço que o tio Ricardo Júlio perdeu no moinho da fábrica; a liquidação da Ferraz Irmãos em 1886 e a venda em praça ao capitalista Manica, com a proposta de sociedade de H. Mails recusada pelo lance maior); os dois anos de desemprego e o arrendamento da fábrica da Ponte do Deão (1888-1899) com o tio João Cezar de Carvalho; a contratação por Harry Hinton em 1899, incluindo a mesada vitalícia ao tio; a posterior aquisição da fábrica da Ponte Nova pela casa Hinton; o regímen sacarino de 1895 e os decretos de 1903-1904 que deixaram só duas fábricas matriculadas; a patente do Visconde do Canavial (1870), a sua cópia pelo engenho Hinton e a acção cível de 1884; o sistema Hinton-Naudet e a visita de Naudet ao Torreão em Junho de 1907; o cuiseur M. Frederique («é sóbrio e delicado»); as cartas citadas — ao Visconde da Idanha («bocadinho da Patria», 1901), as instruções tipográficas e a ordem de calar a imprensa («se for precisa qualquer despeza para isso é faze-la», 1903), as «despezas grandes com o decreto» (1903), o ultimato a João Franco (1907), o boato trazido pelo Power e o comentário céptico de Ferraz (carta de 27 de Outubro de 1905), «o nome Hinton é sempre visto com maus olhos» (1911), a «maldita nova lei saccarina» (1928), «il est riche et peut reposer… Et moi…» (1929); a representação dos 4.000 proprietários (1915); o incêndio de 25 de Novembro de 1917 e a explosão da caldeira de 1928; a viragem de Quirino de Jesus; a carta de Salazar de 1935 («fabricam um artigo que se não vende»); a visita de Batalha Reis (1905); as deslocações de Ferraz ao Cassequel, em Angola (1928), e a Ponta Delgada (1930); o encerramento de 48 fábricas de aguardente em 1939; o engenheiro Marsden (1902-1937, morto em Londres no ano seguinte); as notas autobiográficas de 25 de Novembro de 1944, incluindo a pergunta sobre o título e os erros de ortografia transcritos tal e qual; o anúncio de encerramento pela família (1969), o relatório de 1972, a perda do arquivo industrial no desmantelamento e o jardim público construído no lugar do engenho, junto à Ribeira de Santa Luzia. Sobre o fim exacto da laboração as fontes divergem — há quem aponte meados dos anos setenta, há quem estenda a agonia até meados dos oitenta —, e o conto preferiu a formulação que as acomoda a ambas. A grafia «Mails», do amigo da praça de 1886, vem das notas autobiográficas e pode ser leitura incerta do manuscrito.
São invenção deste conto, como manda o ofício: todos os diálogos (a praça, o termómetro do tio Severiano, os serões do Deão, a contratação, a cena do escritório com Harry no Outono de 1903 — incluindo a gota de tinta —, o incêndio com Marsden, a festa da safra — a festa em si está documentada por fotografia), a cena do inventário da Ponte Nova e do moinho apontado ao ferro-velho (a compra é documentada; a cena é imaginada), as consequências atribuídas à visita de D. Carlos em 1901 (a visita é documentada; o estudo apenas sugere que «poderá ter sido um momento crucial»), a cena da contagem dos homens após a explosão, os pensamentos atribuídos a Ferraz e a coincidência sublinhada das duas noites de 25 de Novembro — as datas são ambas documentais, mas foi o conto que as pôs frente a frente.
Claudia Faria
05/08/2026Adorei estes textos do homem do açúcar. Quero mais!!!!
Gonçalo Mendes
05/08/2026Viva. Para já, é o que há. Sobre este tema não tenho nada programado. Outras coisas, com certeza. Domingo há mais.
Obrigado pela participação.