Quase 49 mil pessoas entraram em Ceuta em 24 horas, Melilla fechou a fronteira de Beni Enzar e o mar devolveu já 19 corpos, a pior contagem desde a tragédia do Tarajal, em 2014. Espanha manda o Exército; a Europa manda avisos.
A incoerência começa em Madrid. Espanha exige Gibraltar ao Reino Unido invocando a geografia e o fim do colonialismo, mas recusa esse argumento a Ceuta e Melilla, coladas a Marrocos há séculos. Devolvê-las resolveria a contradição espanhola, não a marroquina: Rabat pede autodeterminação para o que nunca governou e nega-a ao Sara Ocidental, que ocupa desde 1975.
Bruxelas e Roma juntam-se à incoerência. Itália e Finlândia ameaçam suspender Schengen com Espanha; a Comissão oferece agentes da Frontex e pede a Marrocos que trave as saídas. Ninguém repara na ironia: Ceuta e Melilla já vivem fora do espaço Schengen, com controlos próprios até para quem segue para a Península. Ameaçar suspender o que, ali, nunca vigorou por inteiro é fechar uma porta que já estava entreaberta.
Aqui não se discutem pessoas; discutem-se mapas e regulamentos. O Estreito continua a engolir gente nova.