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O dia do Baptismo

Gonçalo Mendes Gonçalo Mendes
  • Ago 9, 2026

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João e Isabel descem do Lombo do Urzal até à igreja de Ponta Delgada para baptizar a filha, Maria José, levando ao colo o pouco que a vida lhes dera de mais precioso.

O Lombo do urzal

Era manhã de outubro quando João Silveira ajudou a mulher a levantar-se do catre, com a criança ao colo, e os dois saíram pela porta baixa da sua casa sem olhar para trás. Não havia razão para olhar. A casa era o que era: quatro paredes de madeira velha coberta de colmo, encostada ao barranco como se tivesse medo de cair, no Lombo do Urzal, Boaventura, ali onde o monte cede e a terra começa a dobrar-se para o mar. A porta pendia de uma dobradiça solta e nunca fechava de todo. A janela era um vão sem vidro, tapado por um farrapo de serapilheira cosido à moldura que, no inverno, não parava o vento nem a chuva que entrava de través. Mas era dali que os dois saíam para ir batizar a filha, e isso sim merecia olhar em frente.

O Lombo do Urzal ficava mais para o interior, acima da estrada, por uma vereda irregular de terra batida, louco linear, difícil mesmo de percorrer devidos aos seus desníveis contantes que só não se perdia a si mesmo porque o gado o pisava todos os dias. Não era sítio de passagem nem de chegada. Era sítio de quem ali nascia e ali ficava, com sorte. Sem sorte, era sítio de onde se fugia cedo, para o Brasil, para o Havai, para os Estados Unidos, países longínquos, mas que pareciam mais próximos do que a cidade. A Ponta Delgada, que não era cidade nenhuma, mas tinha uma igreja junto ao mar, um padre e um largo com plátanos, ficava a cerca de duas horas a pé — e parecia outro mundo.

A casa em que viviam tinha sido da mãe de João, e antes disso do avô da mãe de João, e ninguém sabia bem ao certo quem a tinha construído nem com que intenção, se de durar ou apenas de aguentar. Provavelmente de aguentar, que foi o que fez. As vigas do tecto eram de castanheiro, e ainda eram boas, mas o colmo que as cobria havia já muitos anos que deixara de ser substituído como devia. Em tempo de chuva forte, a água entrava por três ou quatro sítios diferentes, e Isabel tinha aprendido a reconhecer cada um deles pelo som que faziam: o pingo miúdo na panela de barro, o zumbido surdo na tábua do sobrado junto à porta, o escorrer silencioso pela parede do fundo que só se descobria ao toque. Tinha aprendido a pôr recipientes onde devia, a dobrar os trapos molhados, a acordar a meio da noite sem alarme para verificar o estado das coisas. Era assim que se vivia ali. Era assim que se dormia.

O interior da casa era um só compartimento, dividido pelo uso e pelo hábito em espaços que a imaginação tornava separados sem nunca o serem de facto. Do lado da porta ficava o que se poderia chamar cozinha; um fogareiro de pedra assente sobre um reboco de cal, dois alguidares de barro, uma prateleira pregada à tábua da parede onde ficava a panela grande, uma mais pequena, um cântaro para a água e os poucos mantimentos que havia. Do lado oposto, encostado à parede que dava para o barranco, ficava o catre de colmo. Uma armação de madeira com uma palha fina por cima onde se estendia o que havia de coberta. No meio ficava tudo o resto, que não era muito: um banco de três pés que também servia de mesa, dois caixotes que guardavam roupas, e um baú de madeira escura onde João guardava os papéis que tinha, poucos e importantes, e a camisa de linho das ocasiões.

Não havia por ali aquecimento de espécie nenhuma que não fosse o calor do fogo baixo que Isabel mantinha aceso o suficiente para cozer a comida e não mais. A lenha custava tempo a apanhar e o tempo era o que havia em menor quantidade. O frio de dezembro e de janeiro entrava pela fresta da serapilheira e ficava ali, instalado, hóspede que não era convidado, mas que ninguém conseguia pôr na rua.

João sabia bem como era esse caminho. Já o tinha feito centenas de vezes, de enxada ao ombro, descendo ao amanhecer para as terras dos outros, subindo ao fim do dia com o corpo dobrado e as mãos em carne viva. As terras aqui não eram fáceis. O que havia de arado era pouco, entre os calhaus e as raízes e os declives que não convidavam a nada senão ao esforço. Cavava-se regos onde a água da levada chegava, semeava-se trigo e milho nos bocados mais planos, plantava-se semilha nos sulcos da encosta, e rezava-se para que o inverno não fosse tão violento que levasse tudo pela ribeira abaixo. A levada que servia o Lombo tinha sido aberta pelos homens do avô do avô de toda aquela gente, à enxada e à mão, atravessando a rocha em lugares onde hoje um homem sensato não se aventuraria. Custara mortes, disseram. Daquelas mortes que não eram registadas em nenhum livro de óbitos porque os que morriam eram trabalhadores de aluguer que não tinham a quem deixar recado.

Quando a água chegava, chegava. Quando não chegava, ficava-se a olhar para o céu com uma pergunta que ninguém respondia. João tinha aprendido desde muito cedo que o campo pedia tudo e prometia pouco, e que era preciso trabalhar como se prometesse muito para ter qualquer coisa de menos que nada. Seu pai bem o alertara. O pai do pai lhe dissera ao pai. Era uma sabedoria que passava de boca em boca com a mesma convicção com que se passavam as ferramentas. Não porque tornasse a vida melhor, mas porque era a única que havia.

A jorna era paga por dia trabalhado, e nem todos os dias havia trabalho. Quando não havia, João descia ao largo de Ponta Delgada, terra de senhores, e ficava com os outros à espera que aparecesse alguém a precisar de braços. Às vezes aparecia. Às vezes não. Nas semanas piores, o farnel que Isabel preparava de manhã, um pedaço de pão de milho e uma cebola, quando havia, embrulhados num pano, regressava intacto ao final do dia, e, nessas noites, a conversa entre os dois era curta e a sopa era mais água do que couve.

E, ainda assim, tinham chegado a outubro com uma filha a baptizar. O que não era pouco.

 

Maria

A criança nascera em julho, por entre o calor e as moscas, com a ajuda da vizinha Conceição, que não era parteira de profissão, mas era mulher que já tinha ajudado a trazer ao mundo umas tantas almas e sabia o que estava a fazer. Nascera bem, com pulmões fortes, e o seu grito de estreia desceu pelo vale e chegou provavelmente até a sítio vizinho da Falca, um pouco mais abaixo. No Lombo, um grito de recém-nascido era uma notícia boa. Havia os outros gritos, os que não o eram.

Deram-lhe o nome de Maria. Sem mais, porque não era necessário, pelo menos de imediato. No baptismo é que se veria o que o padre tinha a dizer sobre o assunto, e a madrinha Conceição já tinha a sua opinião formada.

O baptismo tardara mais do que o desejado, porque em julho a criança estivera uns dias com febre e Isabel não a largara do peito nem para dormir. Em agosto não havia dinheiro para a ocasião, em setembro o padre Benedito estivera doente ele próprio e a paróquia ficara sem ofícios durante quase três semanas. Mas outubro chegara com o padre restabelecido e, com alguns tostões poupados de um trabalho de três dias que João fizera para um lavrador de Arco de São Jorge, a limpar um terreno em socalcos, arrancando raízes, e que lhe valera os braços doridos durante uma semana. Era o suficiente para o que era preciso. Mal chegava, mas chegava.

Isabel vestira a criança com o que havia de melhor, que era pouco mas estava lavado e passado a ferro em cima da mesa. Uma touca branca de crochet, emprestada pela Conceição para a ocasião, colocada sobre a cabeça redonda da bebé com o cuidado que se dá às coisas frágeis. João havia posto a camisa de linho que usava nas festas e tinha os sapatos de cordão que só saíam do fundo do baú em dias de obrigação. Isabel levava o xaile de lã que a mãe lhe dera quando casou, castanho-escuro, que cobria bem a criança ao colo sem a abafar. Os dois pareciam, assim vestidos, quase outros. Pareciam, por um momento, a versão de si mesmos que a vida não tinha tido jeito de guardar.

O caminho até à igreja de Ponta Delgada era sempre a descer. A terra molhada de orvalho cheirava ao húmido das folhas e ao cheiro acre do chorão que crescia nos valados. Pela encosta acima, as figueiras tinham já perdido quase tudo e os ramos escuros recortavam-se contra o céu de outubro que ainda não sabia bem o que queria ser — nuvem ou claridade. João ia à frente um passo, de olho no caminho, afastando com o pé as pedras soltas, e Isabel vinha atrás segurando a criança com os dois braços em concha, os dedos entrelaçados por baixo, cada passo medido.

Não falaram muito. Não havia muito que dizer e o silêncio não os incomodava. Era o silêncio de dois que já sabem o que o outro está a pensar.

A Isabel estava a pensar no nome. Maria era muito pouco. Talvez Maria José, dissera ela, que era o nome da sua mãe e da mãe da sua mãe, e que ela achava que era o mínimo que se podia fazer pela memória das que tinham vindo antes. João não se opusera, mas também não se entusiasmara. Para ele um nome era uma coisa que os outros punham e que a pessoa carregava sem culpa nenhuma pelo resto da vida. Já bastava.

Atravessada a Lombadinha, chegaram ao Aviso e desceram pelo caminho até Ponta Delgada. Duas mulheres varriam os degraus da igreja e pararam para ver o casal a chegar com a criança. Uma delas, mais velha, fez um aceno com a cabeça que era ao mesmo tempo cumprimento e bênção, desses gestos que no norte da ilha dispensavam palavras e chegavam ao mesmo sítio.

A igreja do Senhor Bom Jesus tinha paredes caiadas de branco que davam nos olhos no pouco sol que se abria entre as nuvens. Era uma igreja antiga, reconstruída depois do grande incêndio, de pedra lavrada, praticamente em cima do mar, com um sino que se ouvia até ao alto das Lombadas, e o cheiro de dentro era o cheiro de sempre: incenso e cera e o frio particular das pedras que não esquentam nunca de todo, nem no Verão. João tirou o chapéu ao entrar. Isabel apertou a criança.

O padre Casimiro era homem de missa curta e sermão raro, o que era apreciado pela maior parte dos paroquianos do norte, que tinham a vida ocupada e a fé posta em ordem sem precisar de ser lembrada a cada momento. Mas nos baptismos demorava mais do que o costume. Dizia que trazer uma alma ao mundo da graça merecia atenção devida. E assim fazia, com uma voz que não era alta mas tinha peso, como coisa que veio de longe e ainda não acabou de chegar.

Havia naquilo também uma lógica que João, sem ser homem de grandes palavras sobre fé, entendia à sua maneira. Não era a lógica dos livros, que não chegavam ao Lombo do Urzal, nem a dos sermões, que escutava sem grande convicção. Era outra coisa. Era a convicção, funda e simples, de que uma criança que não era baptizada ficava no mundo como coisa sem protecção, exposta a tudo o que o mundo tem de azedo e de torto. E que o baptismo era uma espécie de acordo entre os pais e a vida, um acto pelo qual se dizia: esta é nossa, tomem conta dela, nós fazemos o que é da nossa parte. Não havia grandiosidade nisto. Era humilde como tudo o resto. Mas era sério.

Isabel tinha rezado as novenas do costume durante os dias que antecederam o baptismo. Não com o fervor performativo de algumas beatas da freguesia, que rezavam em voz alta suficientemente alta para que ficasse claro que estavam a rezar. Rezava baixo, de noite, com a criança já adormecida e João já a ressonar no catre, e havia nessas rezas uma coisa que era menos pedido e mais conversa. Um acerto de contas com qualquer coisa que ela não saberia nomear exactamente mas que considerava que estava ali a ouvir.

O padre Benedito principiou com as orações de abertura em latim, que a maioria não entendia, mas todos reconheciam. Havia algum conforto naquilo — nas palavras que não se percebiam, mas eram sempre as mesmas, geração após geração, na mesma pedra, com o mesmo cheiro de cera. Isabel murmurava junto às orações com os lábios quase fechados. João ficou parado com o chapéu nas mãos e os olhos que iam da criança para o padre e do padre para a vela que ardia na borda da pia baptismal.

A pia era de pedra negra, baixa e larga, com uma tampa de madeira que o padre removeu com cerimónia. A Conceição segurava agora a criança com as duas mãos,e a bebé olhava para a chama com aquela atenção séria que os recém-nascidos têm, como se percebessem mais do que os outros suspeitam. Talvez percebam.

Quando o padre perguntou o nome, a Conceição respondeu:

— Maria José.

E o padre repetiu com solenidade:

— Maria José, eu te baptizo em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.

A água fria da pia tocou na testa da criança, que franziu os olhos e soltou uma queixa breve, quase indignada. A Conceição sorriu. O padre secou a testa pequenina com um pano de linho branco, fez a unção com o polegar e pronunciou as últimas palavras da cerimónia com a voz que tinha para essas alturas, pausada e com convicção. A criança voltou a olhar para a chama como se o assunto não lhe dissesse respeito.

Estava feito. Maria José Silveira pertencia agora à comunidade dos baptizados, com toda a protecção e toda a responsabilidade que isso implicava, embora ela ainda não soubesse de nenhuma das duas.

 

O que vai ao colo

Do adro da igreja, sentia-se a forte maresia do mar, logo ali, azul-escuro a poucos metros de distância. João ficou um momento a olhar para ele com o chapéu na mão. Isabel aproximou-se, a criança já outra vez ao seu colo, e encostou-se a ele levemente, de ombro, sem dizer nada. Havia naquele gesto, naquele momento, qualquer coisa que um homem ou uma mulher pobres raramente se permitem: a sensação, breve e nítida, de que a vida estava em ordem. De que se cumpria qualquer coisa. Não era felicidade no sentido largo da palavra, que seria excessivo. Era outra coisa mais modesta e mais sólida. Era a paz de quem fez o que tinha de fazer.

O padre Benedito apareceu no vão da porta e despediu-se com um aceno:

— Deus vos acompanhe.

Puseram-se a caminho de volta.

Tinham andado talvez um quarto de hora, já de volta à subida, mal tinham chegado ao centro da Lombadinha, quando ouviram os passos de alguém a correr na subida do vale do outro lado, da Boaventura. João viu primeiro.

Era o rapaz do Custódio, um miúdo de doze ou treze anos, com os pés descalços e a cara vermelha do esforço. Veio parar quase em cima deles, sem fôlego, com as mãos nos joelhos.

— Ó João — disse ele, quando conseguiu.

Houve uma pausa. Daquelas pausas que não são silêncio, são coisa diferente. O rapaz levantou os olhos para João e depois para Isabel e depois para a criança. E só então disse:

— A casa ardeu.

João ficou parado. Isabel apertou a criança sem dar conta de o fazer.

— Que casa? — perguntou João, como se houvesse outra.

— A vossa. Lá no Lombo. Não sobrou nada. Disseram-me para vos avisar.

O rapaz ficou ali ainda um momento, como quem não sabe se fez bem ou mal em ser o portador do recado, e depois deu meia-volta e foi-se embora pelo caminho abaixo, a correr outra vez, talvez com pressa de se afastar daquela notícia que já entregara e que não era mais sua.

João não disse nada. Isabel também não. Havia pouco a dizer. A casa era de madeira velha coberta de colmo, e uma brasa mal apagada, uma faísca de nada, chegava e sobejava para consumir em minutos o que demorava anos a apodrecer devagar. Sabiam-no. Toda a gente no Lombo sabia.

João olhou para o caminho que descia e depois subia para o Lombo do Urzal. Ficou a olhar durante uns segundos que pareceram mais. Depois virou as costas.

Olhou para a mulher. Para a criança no colo dela e para a touca branca de crochet que a Conceição tinha emprestado, que ainda estava posta com cuidado na cabeça redonda da bebé.

Não havia nada a que regressar. Literalmente nada. O catre, a panela de barro que colocava debaixo do pingo do tecto, o baú com os sapatos e a camisa de linho — a camisa que ainda tinha vestida —, as ferramentas encostadas à parede, o farnel que tinha ficado em cima da mesa porque era dia de festa. Tudo cinza.

Voltaram a descer o caminho que tinham subido. Mas desta vez foi diferente. Os mesmos calhaus, o mesmo cheiro a chorão húmido, a mesma encosta dobrada para o mar. Tudo diferente. Isabel andava a olhar para a criança, e a criança dormia sem saber de nada, com a serenidade absoluta que só os muito velhos e os muito novos conseguem ter em frente às grandes mudanças.

O padre Benedito ainda estava no adro quando eles voltaram. Viu-os de longe, percebeu que alguma coisa tinha mudado pela maneira como andavam, e ficou à espera sem perguntar.

João tirou o chapéu.

— Padre — disse. — A nossa casa ardeu. Não temos para onde ir.

O padre ficou um momento em silêncio. Depois fez um gesto com a mão, para dentro.

— Entrem — disse simplesmente.

Nessa noite dormiram numa dependência da casa paroquial que servia de arrecadação, sobre palha, com uma manta emprestada. A criança dormiu no meio dos dois, pequena e quente, como se não soubesse que o mundo em que entrara era este.

De manhã cedo, o padre deu-lhes pão e uma tigela de caldo quente e sentou-se à mesa com eles. Não disse grande coisa. Tinha aprendido, ao longo dos seus muitos anos de paróquia no norte da ilha, que nas horas difíceis as palavras eram geralmente o que havia de menos necessário.

Quando se levantaram da mesa, João agradeceu. Isabel dobrou a manta com cuidado antes de a devolver, como se fosse da sua.

Puseram-se a caminho da cidade ainda antes do sol estar alto, com a criança ao colo e mais nada. Podiam ter regressado pela Boaventura, subido a montanha até ao Curral, mas João recusou-se.

– Não quero ver mais aquele lugar – disse à mulher – Vamos por São Vicente, subimos a Encumeada e, depois, apanhamos um barco na Ribeira Brava para o Funchal.

– Quanto tempo homem? Como vamos conseguir? Demoramos o que for preciso, mas não é tanto. Onde vamos dormir?

– Alguém nos há-de ajudar. Conheço umas pessoas no Rosário. Eles são pobres como nós, mas vão-nos ajudar. Tenho a certeza

A Ponta Delgada ficou para trás. Depois ficou o vale, o barulho da ribeira e até o mar deixou de se ver. Ninguém lhes perguntou para onde iam, afinal. Também eles não saberiam responder com certeza. A cidade? Talvez, quem sabe.

– A vida tem tantos imprevistos – respondia João, talvez melancólico, mas de olhar decidido.

Depois de passarem a Encumeada, o casal perdeu-se para sempre na memória do Lombo do Urzal e redondezas. Primeiro ficaram preocupados, rezaram e, depois, esqueceram. E memória diluiu-se na labuta diária. Ficou apenas uma pequena história que, de tempos em tempos, é recordada como curiosidade, mas também como sinal de decisão a recordar a coragem dos que nada tendo tudo arriscam.

É que há casas que se perdem e outras que se abandonam, e o que distingue uma coisa da outra é saber se ainda havia alguma coisa dentro para lamentar. A de João e Isabel era de madeira velha e colmo podre, e o que valia nela não tinha ficado dentro.

Iam com isso ao colo.

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