Todos em simultâneo, de todas as árvores do vale, os pássaros abandonaram os ninhos com uma urgência que não deixava dúvidas. O bater das asas tapou o sol por instantes e escureceu o vale.
A Furna
Primeira de três partes.
Ao amanhecer, quando o nevoeiro descia das escarpas e se enrolava no fundo do pequeno vale como fumo de lareira, o silêncio ali era de outro mundo. Não havia nome para aquele lugar. Não havia caminho que lhe chegasse, nem viajante que soubesse da sua existência. A natureza tinha-o cosido às montanhas com tal cuidado que as próprias montanhas pareciam tê-lo esquecido.
Do lado poente do grande vale central que atravessa a ilha, partindo-a ao meio, duas colinas quase paralelas formavam no topo um pequeno recanto alcandorado, voltado para o céu, com uma única abertura — qual varanda sobre o abismo —, tendo na base a ribeira brava que corria apressada ao encontro do oceano e que dá nome à localidade. Tudo ali era verde: muitos verdes, de todos os tons e texturas, cada reentrância preenchida por arbustos e árvores de tamanhos impossíveis, os ramos tão carregados de ninhos que se curvavam. Pequenos córregos desciam pelas colinas, uniam-se no ribeiro que corria a meio e que, ao alcançar o seu extremo, se atirava para o precipício.
Perfeito. Seguro. Invisível.
Num mundo novo, se este vale não era o paraíso, pouco lhe faltava.
Na pequena gruta encrostada na rocha, Gasmira amamentava a filha.
Era uma mulher alta e forte, de cabelos ruivos e olhos claros, coberta por peles de cabra até aos pés. A bebé, de cabelos encaracolados e brilhantes como os da mãe, mamava com a seriedade dos recém-nascidos. Enquanto lhe dava o peito, Gasmira trauteava uma velha balada. Já não se lembrava das palavras, mas os ritmos cadenciados estavam-lhe bem presentes na memória, e fazia questão de os reproduzir para que a filha também os aprendesse.
— Guayarmina — dizia-lhe, em voz muito baixa. — És tão linda. Quem sabe um dia não voltaremos à terra dos teus avós.
E beijava-lhe as faces rosadas.
Quando os raios de sol rompiam pela gruta e iluminavam os cabelos da criança, fios de ouro pareciam desenrolar-se-lhe na cabeça. Nessas alturas, Gasmira tinha a certeza de que nunca nada de mau haveria de acontecer à sua menina, mesmo que um dia ficasse sozinha.
Foi então que os pássaros levantaram voo.
Todos em simultâneo, de todas as árvores do vale, abandonando os ninhos com uma urgência que não deixava dúvidas. O bater das asas tapou o sol por instantes e escureceu o vale. O ruído foi como um trovão próximo, e depois cessou, deixando atrás de si um silêncio diferente do de antes — o silêncio de quem espera.
Gasmira pôs-se de pé. Apertou a filha ao peito. Deu dois passos em direcção à entrada da gruta, olhou o céu. Apurou o ouvido.
Nada além da água nos ribeiros.
Respirou fundo. Não seria a primeira vez que um bando inteiro fugia de uma cobra enroscada num ramo, ou da sombra de uma águia a rasar as colinas. Beijou a testa de Guayarmina, dispôs-se a voltar para o calor da gruta.
Há dois anos que ninguém via rasto dela nem de Maninidra. Dois anos bastam para um homem pensar que já ninguém procura, e é justamente esse pensamento que os caçadores de gente sabem explorar. O capitão-mor pagava por guanche fugido — mais se viesse com vida e em condições de voltar à enxada — e corriam pela ilha histórias de recompensas em panos, em vinho, nalguns casos numa courela de sesmaria. Não era preciso ser soldado para caçar homens; bastava conhecer as levadas, saber ler uma pegada na lama seca, e não ter escrúpulos que travassem o passo. Havia quem vivesse só disso, ano após ano, à espera de uma pista que valesse a viagem à serra.
Foi então que os ouviu de novo. Desta vez era o vale inteiro, num alarido que nenhum bicho sabe fazer sozinho: paus a partir, pedras a rolar, um cão a ladrar lá longe, do lado da ribeira.
Colocou Guayarmina no aconchego das peles no fundo da gruta, pegou na catana e percorreu os cem passos até à boca do vale. Deitou-se no chão, chegou a cabeça ao patamar que dava para o abismo, e perscrutou a encosta toda, desde a ribeira até ao cimo.
Nada.
Só um cheiro estranho a subir com o vento — suor de homem, couro molhado, fumo de cachimbo apagado há pouco.
Um bis-bis pousou-lhe no ombro esquerdo, batendo as asas com insistência. Depois um pombo no ombro direito. Os dois puxavam-na para trás. Outros pássaros voavam à sua frente, chilreando, apontando em direcção à gruta.
— Mina! — gritou, pondo-se de pé. — Guayarmina!
Voltou a correr. A meio caminho da gruta, um homem vinha com a espada em riste. Atrás dele, outros dois, também armados — um deles com um cão preso por uma corda curta, a puxar, a fungar o chão onde ela tinha passado. Gasmira parou. Colocou-se em posição de combate.
Os homens também pararam.
— Finalmente apanhámos-te — disse o primeiro. — Vamos queimar-te na fogueira, como todas as bruxas.
Ela não respondeu. Fixou os olhos nos três e ficou imóvel. Foi então que viu, atrás deles, uma mulher com o rosto coberto por um véu negro. A sua Guayarmina estava no colo dela. Fechou os olhos por instantes, concentrou-se, levou a mão à boca. Recuou dois passos.
— A minha filha — disse. — Traga-me a minha filha.
Os homens avançaram. Ela ergueu a catana e recuaram.
— Não me tentem prender. Não vou com vocês.
O que vinha mais atrás passou à frente dos outros e disse:
— Não me reconheces?
Gasmira reconheceu-o — o filho do seu antigo dono, vestido num fato bom de mais para a serra, as botas novas já cobertas de lama até ao joelho — mas abanou a cabeça. Tinham passado alguns anos.
— Mentirosa. Sabes bem quem eu sou. Vim buscar o que é meu. Tu. Não vale a pena resistires. Dá-me a catana.
Ela recuou até encostar as costas ao til enorme que dominava o patamar. Entre a árvore e o abismo não havia mais que dois passos.
— Há muitos anos roubaram-me da minha ilha, era eu praticamente uma criança — disse, com uma voz igual à do vale: quieta e sem pedir licença a ninguém. — Isso não vai acontecer outra vez. Nunca mais serei escrava. Não nasci para isso. Não vou morrer assim.
O homem riu às gargalhadas.
— E como vais conseguir isso?
— É assim que pagas o que fiz por ti, quando cuidava de ti em bebé, em criança? É assim que pagas todo o colo que te dei, as sopas que te preparei, os passeios em que te acompanhei, o ombro que te ofereci, os beijos que me pediste?
Ele não respondeu logo. Por um instante os olhos fugiram-lhe para as botas enlameadas, e a mão que segurava a espada apertou-se mais do que era preciso. Depois riu — uma risada alta, feita para os outros dois ouvirem — e a espada voltou a apontar para ela.
Gasmira continuou:
— Enganei-me. Foi tudo um erro. Teria sido mais fácil deixar-te morrer. Lembras-te? Arrastado pela ribeira bravia, e fui eu que saltei para te salvar. Claro. Como havias de te lembrar? Iludi-me. Pensei que eras alguém. Mas agora vejo tudo com uma clarividência notável — e dolorosa.