Num debate imaginado em Paris, em 1802, Napoleão Bonaparte e Madame de Staël confrontam duas visões irreconciliáveis: a ordem como condição da liberdade e a liberdade como limite indispensável do poder. Entre o Estado forte, a censura, o exílio e o medo da anarquia, a conversa revela uma tensão que continua viva dois séculos depois.
Napoleão Bonaparte e Madame de Staël frente a frente: dois espíritos excepcionais, uma incompatibilidade absoluta
Depois das entrevistas a cada um deles, Napoleão Bonaparte e Madame de Staël aceitaram sentar-se frente a frente para um confronto de ideias, num debate verdadeiramente histórico. As regras foram simples: Os participantes falaram por turnos, sem interrupções. Não foram tolerados ataques pessoais; apenas confronto de ideias. O que se segue é um resumo da conversa. O cenário foi montado para realizar-se em 1802, em Paris.
Pela primeira vez, o Primeiro-Cônsul da República e a escritora mais exilada de França sentaram-se à mesma mesa. O que se seguiu foi menos um debate e mais um retrato íntimo da contradição que governa este tempo: um homem que construiu instituições para sobreviver a si próprio e uma mulher que foi exilada por acreditar que as palavras são mais perigosas do que os exércitos. Ao longo de hora e meia, a liberdade e a ordem debateram-se — e nenhuma das duas ganhou.

Napoleão Bonaparte — Primeiro-Cônsul da República Francesa. Estratega, legislador, homem de ordem. Crê que a liberdade sem autoridade é caos.
Germaine de Staël — Escritora, filósofa e salonnière suíço-francesa. Defensora das liberdades individuais e da soberania da razão sobre o poder.
A Revolução proclamou a liberdade. O Consulado instaurou a ordem. São estas duas coisas compatíveis, ou a ordem exige necessariamente o sacrifício de uma parte da liberdade?
Napoleão Bonaparte: — A liberdade não é um estado natural. É uma conquista — e como toda a conquista, exige disciplina, estrutura, e um poder que a defenda dos seus próprios excessos. O que a Revolução chamou de liberdade foi, durante anos, apenas o direito de guilhotinar o vizinho com a consciência tranquila. Isso não é liberdade. É terror com outro nome.
Eu não sacrifiquei a liberdade em nome da ordem. Eu salvei a liberdade da sua própria destruição. O Código Civil que promulguei garante a igualdade perante a lei a cada cidadão francês — independentemente do nascimento, do título, da religião. Isso é mais liberdade real do que qualquer discurso na tribuna da Convenção.
A ordem não é o oposto da liberdade. É a sua condição. Um rio sem margens não é um rio livre — é uma inundação. E as inundações não libertam ninguém. Afogam. Aqueles que me acusam de ter restringido certas liberdades deveriam perguntar-se: liberdade para quê? Eu sou o filho da Revolução. Mas sou também o seu médico.
Madame de Staël, a senhora acusou Napoleão de ter sequestrado a Revolução em benefício próprio. Mas sem um poder centralizado, não teria a França recaído no Terror ou na anarquia? Existe uma liberdade possível sem um Estado forte?
Madame de Staël: — Ninguém aqui nega que a França precisava de ordem após o Terror. Eu própria perdi amigos à guilhotina. A questão não é se era necessário um Estado forte. A questão é que tipo de Estado forte.
O Cidadão Bonaparte apresenta-se como médico da Revolução. Mas um médico que, ao curar o doente, lhe amarra os pulsos à cama e proíbe as visitas — esse médico tem outros interesses que não a saúde do paciente. A liberdade de imprensa foi suprimida. Os tribunais foram esvaziados de independência. E eu própria fui exilada — não por ter pegado em armas, mas por ter escrito e por ter pensado em voz alta.
Um Estado forte é necessário, sim. Mas a força de um Estado mede-se pela sua capacidade de proteger os cidadãos — incluindo dos excessos do próprio Estado. O que a França tem hoje não são instituições. É um homem.
A senhora fala de instituições — mas a República que as tinha deixou-as destruir. Quem as protege quando elas próprias falham?
Madame de Staël: — As instituições falharam por razões que podemos estudar e corrigir. Falharam porque eram jovens e improvisadas, porque o país estava em guerra simultânea com metade da Europa e com si próprio. Nada disto prova que as instituições são impossíveis. Prova que são difíceis.
Quem protege as instituições quando elas falham? A resposta incómoda é: os cidadãos. Uma imprensa que vigia. Escritores que nomeiam o que veem. Mulheres e homens que recusam a comodidade do silêncio. O Primeiro-Cônsul oferece uma alternativa mais simples: confiar nele. E reconheço que é tentador. Mas a questão nunca é se este homem merece confiança. A questão é o que acontece depois dele.
O que levou o Primeiro-Cônsul a exilar Madame de Staël? Que perigo representa uma mulher com uma pena?
Napoleão Bonaparte: — Perigo? Nenhum. Esse é precisamente o ponto que os seus admiradores não compreendem. Não exilei Madame de Staël porque a temia. Exilei-a porque ela transformou o seu salão numa instituição política paralela. Paris tem um governo. Não precisa de um segundo, instalado numa sala de visitas da Rue de Grenelle.
Ela é brilhante — tenho dito isso publicamente e repito-o aqui. Mas o brilho pode ser posto ao serviço de muitas causas, e o dela estava sistematicamente ao serviço da desestabilização. Uma república não pode ter dois centros de gravidade. Se ela tivesse ficado em Coppet a escrever romances, estaria hoje em Paris.
Madame de Staël: — “Se tivesse ficado a escrever romances.” Aí está. Em oito palavras, o Primeiro-Cônsul resumiu a sua teoria do lugar da mulher — e do intelectual — na sua república. Escreve. Mas não penses. Publica. Mas não influas.
O que ele chama de instituição política paralela era uma conversa. Se isso é suficiente para ameaçar um Estado, então esse Estado é mais frágil do que aparenta — ou mais despótico do que admite. Ele diz que não me temia. Os homens que não temem não exilam. Deportam-se ameaças, não inconveniências.
Daqui a duzentos anos, quando a paição deste tempo tiver arrefecido e a história tiver feito o seu julgamento — quem terá razão?
Napoleão Bonaparte: — A história julgará pela obra, não pelas palavras. Um código de lei não morre quando o seu autor morre. Uma estrada não desaparece quando o engenheiro que a mandou construir fecha os olhos. Mas vou mais longe: ela tem razão num ponto que me custa reconhecer. Um homem só não basta. Nem eu.
O que me preocupa não é a minha morte. É que a França ainda não aprendeu a querer as suas próprias instituições. Talvez Madame de Staël e eu queiramos a mesma coisa. Apenas discordamos sobre quem tem pressa.
Madame de Staël: — Não quero ter razão. Se daqui a duzentos anos a liberdade de imprensa for considerada indispensável, se a separação de poderes for vista como condição mínima de civilização — então não terei razão eu. Teremos razão todos.
E se, pelo contrário, os homens continuarem a trocar liberdade por ordem sempre que um líder carismático lhes prometer segurança — então nenhum de nós terá razão. Porque o problema nunca foi Napoleão. O problema somos nós — a tentação permanente de preferir um homem forte a uma ideia difícil. Espero que daqui a duzentos anos já não seja necessário este debate.