Olhei para o mural, mas não me revejo nele. Sou eu? Não pode ser. Até poderia ser, mas há pormenores que dizem o contrário. São contraditórios até.
Sendo eu um chef, qual seria, diga-me lá, a minha ferramenta de eleição? Ferramenta, não. Ferramentas, para ser mais rigoroso. Tachos, panelas, facas, balanças, frigideiras, fogão, forno, sei lá… um montão de coisas fundamentais que fazem com que um chef seja um verdadeiro chef. Onde é que estão? Não as vejo. Que pintor — pintora, melhor dizendo — altera as regras do jogo e se esquece disso?
Ou foi de propósito? A que propósito? Não acredito que se tenha esquecido. Só pode ter sido de propósito. Mas para quê? Para me desconsiderar? Também não acredito.
Um chef que se preze ama as suas ferramentas, melhor dizendo, os seus utensílios. Da melhor qualidade. Uma garantia de que, seja qual for a sua receita, tudo tem de ser perfeito. Digno de, pelo menos, uma estrela Michelin.
Não é que eu dê muita importância a isso. Acho até que as estrelas são compradas. Um leilão caríssimo que uns quantos inventaram para encher os bolsos de outros tantos à conta de um suposto trabalho de qualidade invulgar, enganando os parolos cheios de dinheiro que só se sentem felizes quando o cheque que desembolsam é graúdo.
Viram a série “Gotas Divinas”? A série não é sobre comida, mas sobre vinhos; o princípio, porém, é o mesmo. Sabem como é que os vinhos de “qualidade”, ou suposta qualidade, eram escolhidos para poderem aparecer no guia mais famoso dos vinhos? O nível de exposição era diretamente proporcional à quantidade de zeros colocados à direita de um qualquer algarismo. Quanto mais zeros… melhor seria o vinho.
Ora, até a criança mais inocente sabe que não é assim. Quem não pagasse — fosse porque considerava o esquema um roubo, ou porque, pura e simplesmente, não reunia os requisitos financeiros para tal — era simplesmente ignorado, comprometendo muitas vezes os seus negócios e levando-os à falência.
Desconfio que as famosas estrelas de pneus utilizam as mesmas ferramentas de promoção. Também por isso não consigo rever-me no mural da Bárbara Gil. Não a conheço, mas acho que gostava de a conhecer para que ela me pudesse explicar a razão da pintura.
Bem sei que uma obra de arte está aberta à interpretação individual de cada um, mas, mesmo assim, um lamiré da autora seria bem-vindo para eu perceber, sentir-me mais confortável comigo mesmo e não implicar com o diabo da pintura sempre que passeio pela Estrada Monumental e vejo o mural gigante na parede do Hotel Baía Azul.
Assim, à primeira vista, até parece interessante. Acredito até que, para a maioria das pessoas que o veem, seja algo com interesse, bonito até. Os turistas, em especial, param regularmente para o fotografar. Mas, olhando bem, tudo aquilo parece estar errado.
Não falo da técnica da artista. Até porque, como bom profissional que tento ser, não vou fazer juízos de valor sobre algo que não domino, que não percebo. Na verdade, a minha arte é outra. Eu trato da arte dos sabores. A Bárbara Gil trata de arte visual.
A minha arte também tem muito de visual, até porque, como bem diz o povo, primeiro come-se com os olhos. Logo, não é área que se deva descurar, pelo contrário. Mas nem estou a falar disso. Falo das técnicas, do estilo, da pintura. Não quero meter-me por aí. Não percebo nada e, na verdade, nem quero perceber. Só me interessaria mesmo perceber o conceito, a razão de ser da pintura.
Há quem diga que a arte é a qualidade do inútil. E não vejam nisto uma desvalorização — pelo contrário. A capacidade de fazer com que algo inútil tenha um valor imenso e seja alvo da maior cobiça é, deveras, notável. Porque, se por um lado é inútil, por outro transporta-nos para patamares que estão além das coisas comezinhas do dia a dia, dando-nos aquilo que as nossas necessidades básicas não conseguem dar de forma nenhuma. Além disso, há a raridade — e a raridade é cara, não só em termos monetários, mas também na capacidade que tem para nos transportar para ambientes, sensações e vivências que só a criatividade dos artistas consegue mostrar. Haverá alguma obra de arte com verdadeira utilidade? Talvez não. E é precisamente aí que reside o seu valor.
Ao fim e ao cabo, ao olhar para aquele mural, eu ando à procura dessa sensação. Estou com dificuldade em encontrá-la, mas… quem sabe? Será que chego lá?
Eu olho para aquela pintura e ainda não vejo arte. Ou melhor, vejo alguma arte, mas não consigo rever-me nela. Vejo que ali há talento, trabalho e criatividade. Ao mesmo tempo, há algo que me irrita.
Eu sou um chef. E um chef tem de ser respeitado.
Olho para a parede, viro a cabeça para a direita, inclino-me para a esquerda e dou comigo a pensar: o que há de errado ali? E o que está simplesmente certo?
Não seria melhor aquela parede continuar branca, como foi criada originalmente? Mas aí, onde estava o espaço da criação? Porque raio haviam de plantar ali um chef de cozinha? Por ser uma parede de um hotel?
Hotéis há muitos; chefes — chefes verdadeiros — há poucos. Raros mesmo, diria. E eu não me sinto representado nele. Como poderia?
Não é justo.
Um chef vidrado no telemóvel? Que diabo de mensagem é esta? O que quis dizer a artista com isto? Ou será que o talento da artista se manifesta exatamente através desse pormenor?
Até pode ser. Mas um chef não revela os seus segredos.
