Domingo, Junho 21, 2026
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O Bairro de Chelas do Funchal

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O Paredão Negro do Funchal

Há uma imagem que resume tudo: vista de cima, a encosta oeste do Funchal estende-se ao mar com a claridade característica das suas construções — o branco das paredes, o vermelho dos telhados, a pedra escura dos muros que divide a ilha em socalcos. É uma paleta que não foi escolhida por nenhum arquitecto: foi ditada pelo basalto, pelo calcário, pela cal e pelo sol. É a Madeira a dizer como quer ser vista.

E então, no meio dessa luz, ergue-se o “Dubai Madeira”. Nove edifícios. Quatrocentos apartamentos. Uma massa edificada de cor escura, quase negra, que rompe com tudo o que a rodeia como um punho cerrado sobre uma mesa de bordados. Chamar-lhe “Dubai” é, afinal, uma confissão: não é para cá. É para um outro lugar, imaginado por alguém que visitou o Dubai numa tarde de layover e voltou com a certeza de ter percebido o futuro.

A sombra que ninguém pediu

O problema não é a modernidade. O problema é a volumetria desproporcionada — edifícios com andares a mais, implantados numa zona onde o existente ainda respira com algum espaço entre si. A Varino não quis ser mais um edifício na cidade. Quis ser a cidade dentro da cidade. As fachadas escuras não são um detalhe estético: são uma declaração de indiferença em relação à envolvente. O resultado é um paredão. Um objecto que absorve a luz em vez de a reflectir, num lugar onde a luz é, ela própria, parte da identidade.

A vaidade como projecto arquitectónico

Há um tipo específico de pretensiosismo que só a promoção imobiliária de luxo consegue atingir com tanta naturalidade. É a vaidade saloia elevada a manifesto estético: a convicção de que maior é melhor, que escuro é sofisticado, que o que existia antes era apenas o erro que este projecto veio corrigir. Não são apartamentos. São “residências exclusivas”. Não é uma promoção imobiliária. É “um desafio à arquitectura portuguesa”. Um desafio, sim — o desafio de perceber como é que isto passou em câmara municipal sem que ninguém erguesse a voz de forma audível. Mas a resposta a essa pergunta mora nos cafés. Por este andar, há-de ser conhecido em breve, como as “Malvinas dos Ricos” ou o Bairro de Chelas do Funchal.

A vista para a varanda do vizinho

Os nove edifícios estão literalmente uns em cima dos outros. Comprimidos num lote que a ambição tornou pequeno, crescem em altura porque já não tinham para onde crescer em largura. A esmagadora maioria dos apartamentos — vendidos a peso de ouro com promessas de vistas sobre o Atlântico — terá como horizonte principal a varanda do vizinho do edifício da frente. A vista para o mar ficará reservada aos andares de cima e aos renders do site, compostos com um cuidado de enquadramento que nenhum residente conseguirá replicar a partir da sua sala de estar.

Os vizinhos e o silêncio bem-educado

Fala-se. Nos jantares de família, no intervalo do trabalho, na fila do supermercado, toda a gente tem uma opinião sobre o paredão negro. Indignada, articulada, por vezes eloquente. O problema é que fica entre ele e quem lho perguntou. Reclama-se em privado com a intensidade de quem vai mudar o mundo, e acorda-se no dia seguinte sem ter assinado uma petição, sem ter escrito uma linha pública. A indignação evapora-se entre a sobremesa e o café. E o paredão continua a crescer, andar a andar, escuro e impassível. Os promotores sabem isto. Contam com isto.

Quem pode comprar o paraíso?

O site explica pacientemente as vantagens do Golden Visa: passaporte europeu, acesso a 188 países, mobilidade Schengen. O apartamento como passaporte. A ilha como produto financeiro. A paisagem como argumento de venda para quem a verá, na melhor das hipóteses, duas semanas por ano. A quase totalidade das fracções está a ser adquirida por fundos e compradores estrangeiros. O trabalhador do Funchal olha para aquelas janelas escuras e sabe que nunca serão suas — não porque não queira, mas porque o mercado foi desenhado sem ele em conta, como se fosse um pormenor de paisagem, útil para as fotografias mas dispensável para tudo o resto.

O paradigma que não queremos

O verdadeiro perigo não é este projecto. É que se torne modelo. Que a sua escala seja aceite como nova normalidade, que a paleta escura apareça noutras encostas, que a lógica do enclave de luxo se normalize numa ilha que vive de ser luminosa e humana — e que descubra tarde demais que vendeu essa humanidade a prestações, fracção a fracção, até não restar nada do que tornava o lugar desejável.

A Madeira não é Dubai. Tem basalto e laurissilva, vento e neblina, uma cidade que aprendeu a crescer colada à rocha com uma modéstia que este projecto não conhece e não respeita. O paredão negro não é apenas feio. É um sintoma.

O paredão da Ajuda, e projetos como ele, representam mais do que um empreendimento imobiliário: representam um conflito ideológico. É a vitória da especulação global sobre a identidade local. A cidade de Funchal merece uma evolução que seja orgânica, que celebre a sua luz e a sua história, e não um salto forçado para um modelo de “Dubai Madeira” — um conceito que, apesar do apelo de um luxo estrondoso, é, na prática, uma receita para a alienação social e o esmagamento urbano.

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