A minha aventura com as criptomoedas teve início em 2013/2014, na sequência dos escândalos com os esquemas multinível como o TelexFree e outros.
Fui daqueles que nunca se entusiasmou com esse esquema, porque, apesar de todas as promessas, desde logo tomei consciência de que era um processo insustentável e sem lógica. E por isso, nunca fiz parte dele. No fundo, só conseguia ganhar dinheiro quem conseguisse arranjar muitos amigos. Resumindo, se eu estivesse no esquema, enganava os amigos, que ficavam sem o dinheiro, e eu ficava com parte dele. Roubar os amigos seria a melhor definição para o caso.
Depois do TelexFree, apareceu um outro esquema — já nem me lembro bem do nome, qualquer coisa como “Coin Generation” — que vendia a ideia de ter os nossos computadores ligados em rede, disponibilizando parte da capacidade de processamento da nossa máquina para um projeto global. Na génese, a ideia era válida, tanto mais que hoje existem vários projetos que funcionam corretamente e com algum sucesso, como a partilha da capacidade não utilizada de armazenamento ou de processamento do nosso computador — é o caso de projetos como o Filecoin ou o Storj.
De acordo com a lógica apresentada, para participar no Coin Generation bastava instalar um pequeno programa e fazê-lo correr 24 horas por dia, depois de pagar uma determinada quantia (cerca de 150 euros), tentando ainda arranjar muitos amigos e criando assim uma rede de dependentes que garantiriam um retorno mais elevado. O problema é que, se por princípio eu deveria estar a partilhar parte da capacidade do meu computador, quem tivesse um computador mais potente deveria receber mais do que alguém com uma máquina de fracos recursos — e não era isso que acontecia. Para além disso, não era possível ter dois ou mais computadores ligados na mesma rede, o que impossibilitava aumentar a capacidade de partilha. O único interesse real do projeto era criar uma rede multinível em que os que estavam nos níveis superiores ganhavam e os restantes perdiam o seu dinheiro. Exatamente o mesmo que o TelexFree.
Acontece que esse projeto centrava muito a sua linguagem no Bitcoin. E foi aí que comecei a interessar-me e comecei a investigar para tentar perceber coisas como bitcoin, Bitcoin (com letra maiúscula), blockchain, até que surgiu um acontecimento muito importante que me convenceu de que estávamos perante algo de revolucionário e com futuro.
Referências
TelexFree — Esquema de pirâmide financeira com origem no Brasil que operou entre 2012 e 2014, disfarçado de serviço de VoIP. Em 2014, as autoridades norte-americanas encerraram a operação e os seus fundadores foram detidos e condenados. Foi considerado um dos maiores esquemas de Ponzi da história, com perdas estimadas em mais de mil milhões de dólares.
Coin Generation – O Coin Generation (coingeneration.com) foi um esquema online de 2012/2013 que prometia pagar aos utilizadores por “alugar” o poder de processamento dos seus computadores, através de um software chamado Thread Manager. Na prática, o modelo não tinha qualquer lógica técnica — ter hardware mais potente não dava vantagem, e ligar mais do que um computador na mesma rede era proibido, sinais claros de que era um esquema Ponzi disfarçado de tecnologia. A partir de abril de 2013 os pagamentos começaram a ser congelados, a empresa tentou relançar-se sem sucesso, e o domínio acabou por expirar em setembro de 2014. Apesar de tudo, teve um efeito colateral inesperado: foi através dele que muitas pessoas tomaram o primeiro contacto com o Bitcoin e as moedas digitais.
Filecoin — Protocolo de armazenamento descentralizado construído sobre a rede IPFS (InterPlanetary File System), desenvolvido pela Protocol Labs. Permite que qualquer pessoa alugue espaço de armazenamento não utilizado do seu computador em troca de tokens FIL. A rede principal foi lançada em outubro de 2020.
Storj — Plataforma de armazenamento em nuvem descentralizada e de código aberto, fundada em 2014. Os utilizadores partilham espaço de armazenamento disponível nos seus discos e recebem tokens STORJ como compensação. Ao contrário dos esquemas multinível, remunera efetivamente em função da capacidade disponibilizada.
GM