Quarta-feira, Abril 15, 2026
ContosContos-São Vicente
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Um dedo na montra

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António era irmão da Maria, a dona da mercearia e tasca que ficava na esquina do entroncamento da Estrada Regional com a velha estrada que rasga a freguesia desde o Calhau até à Encumeada. De vez em quando, passava uns dias com a irmã, fazendo-lhe companhia. Maria era casada, mas, desde que me lembro, o marido vivia emigrado na Venezuela. Manuel não queria a mulher no país sul-americano e Maria também não fazia muita questão. Por isso recebia com prazer, de tempos a tempos — em especial em épocas mais festivas —, o irmão uns anos mais novo, praticamente ainda um rapaz, na sua casa.

Numa dessas estadias, pelo Carnaval, a animação atingia sempre o auge: os mais afoitos, atrevidos e libertinos davam-se ao prazer de fazer estalar bombinhas em qualquer canto. O que para uns era diversão, para muitos era uma verdadeira aflição. Confesso que a mim também não me atraía muito. Isso não impedia que, uma vez por outra, raramente, diga-se, às escondidas do meu pai e da minha mãe, tentasse lançar a minha bombinha e tirar o prazer de uma explosão seca no tubo da levada que cruzava, por baixo, a estrada em frente à oficina do meu pai. Até que um dia — não sei se por distração, se por defeito de fabrico — a bomba rebentou-me na mão esquerda e fiquei com os dedos dormentes até mais não.

Aterrorizado, não tanto pelo efeito da bomba mas principalmente pela reprimenda que era certa, fiz-me de forte, escondi a dor e, durante o resto do dia, “adoeci”: enfiei-me na cama dando saltos cada vez que uma bomba rebentava na rua. O que deve ter acontecido dezenas de vezes. Na minha cabeça terão sido milhares — mas enfim. A sorte é que ao fim de umas horas a minha mão voltou ao normal, os efeitos do impacto dissiparam-se e eu pude regressar ao Largo, agora com a firme convicção de que aquela tinha sido a minha última bomba de Carnaval.

Na verdade, nunca foi uma paixão. Era mais o desafio de ser capaz de, a exemplo dos rapazes mais velhos e atrevidos que passavam parte do dia naquele exercício parvo, também lançar uma bomba com sucesso. A coisa correu mal e serviu-me de lição — até porque praticamente ninguém se deu conta do meu azar.

Num desses dias de explosões, o azar voltou a bater, já não à minha porta, mas à mão do António. O rapaz gostava de desafios. Altos desafios. E, atrevido como era, andava de um lado para o outro atravessando o largo em frente à mercearia do meu velho avô Amadeu que, contrariamente à irmã, não vendia bombinhas de Carnaval e era o primeiro a vociferar contra tal prática. Por isso, ao António dava-lhe um gozo pessoal andar de cigarro na boca e, quando passava à frente da mercearia: lá vai bomba. Pum. E ria-se, ria-se.

O meu avô Amadeu chegava-se à porta de vassoura na mão e ameaçava, mas a idade já não lhe permitia grandes correrias — e para o jovem António a diversão continuava, pelo menos até que a irmã Maria aparecia na mercearia concorrente a pedir desculpa ao meu avô e a prometer que o irmão estaria de volta a casa nos próximos dias.

Até que, numa dessas voltinhas, uma das bombinhas resolveu apressar-se. De cigarro na boca, António chupou o ar, avivando a brasa, e aproximou a ponta do cigarro do pavio da bomba que tinha na mão esquerda. O pavio devia arder quatro ou cinco segundos antes de explodir — tempo mais que suficiente para a lançar longe e usufruir do ruído. Mas tal não aconteceu. Mal a brasa tocou o pavio: PUUUMMMM. O som que, à distância, até era suportável, assim mesmo ao pé parecia uma bomba de foguete — ensurdecedor. António foi cuspido para trás um metro e caiu no chão, ensurdecido, estonteado, desorientado. Às apalpadelas, arrastou-se e conseguiu levantar-se. Os que estavam à sua volta correram para o amparar, mas ele safou-se e refugiou-se na mercearia da irmã sem saber bem o que tinha acontecido. Não conseguia ver direito, e a única coisa que sentia era uma dormência quase absoluta, sobretudo na mão esquerda.

Maria correu para ele, amparou-o, fitou-o nos olhos e só então reparou na mão. A falangeta do dedo indicador tinha desaparecido. Não havia sangue — apenas uma massa branca, a cartilagem da articulação. Prática como era, Maria tratou logo do ferimento e, assim que o trabalho ficou concluído, a primeira coisa que fez foi mandá-lo de volta para casa dos pais, no Loural. Acompanhou-o até à ponte da Ribeira Seca e, junto da capela do Livramento, despediu-se com dois beijos e uma recomendação vigorosa: “Não apareças aqui nos próximos tempos, desastrado.” Acompanhou o andar pesaroso do irmão até à curva da fábrica da manteiga e, com uma lágrima ao canto do olho, voltou para trás, fechou a mercearia e tomou, sozinha, uma carraspana de poncha que tinha preparado para os clientes.

Enquanto todos os que estavam no largo corriam para a mercearia da Maria para se inteirarem do estado de António, o velho Amadeu dirigiu-se, na maior das calmas, ao centro do largo e, sem ninguém dar por ela, pegou na falangeta do dedo do António e levou-a para dentro do seu estabelecimento.

Amadeu riu-se por dentro. Eu bem que o avisei, pensou com os seus botões. E, aproveitando que a mercearia estava vazia, abriu a garrafa de aguardente, serviu-se de um grogue logo seguido de dois gumes de laranja, e sentou-se à porta na sua cadeira preferida, esperando o relato das novidades.

A notícia do azar de António espalhou-se mais depressa que um pavio e, não tardou nada, o Largo estava cheio de gente à procura de se inteirar do evento — estranho, mas de modo algum inesperado. O acidente é sempre algo com que não queremos encarar-nos, mas que, quando acontece, quase ninguém estranha.

Foi com alguma naturalidade, portanto, que toda a gente começou à procura da falangeta do António. Amadeu deixou que os curiosos perdessem o seu tempo na busca infrutífera. Levantou-se e, à luz sombria do quarto dos fundos da mercearia, arranjou um pequeno frasco. Colocou a ponta do dedo do António lá dentro, encheu-o de álcool e aplicou uma rolha de cortiça bem apertada. Logo vejo o que faço com isto, pensou. E voltou à porta da mercearia, onde a maioria dos curiosos já tinha desistido da tarefa.

À noite, antes de fechar o estabelecimento, decidiu o que fazer com o troço de dedo do António que tinha recuperado.

  • Desenho gerado por AI (Claude)
 

Na manhã seguinte abriu as portas da mercearia e as portadas da montra que dava para o exterior. Na prateleira do meio, entre piões, canecas, copos, jarros e sapatos, afastou alguns objetos e colocou o frasco com o dedo desaparecido.

Há dias em que um arzinho maléfico não fica mal a ninguém. O sorriso dele dizia tudo.

Apesar dos protestos — em especial os de António, que ameaçava partir-lhe a montra —, o frasco esteve lá durante alguns anos, a lembrar a pequena tragédia de quem, entretanto, seguira o destino de tantos: a busca incessante do el dorado venezuelano.

GM – 30/10/2025

3Comentários
    Joana M.
    31/03/2026

    Hahaha boa história!

    Frank
    09/04/2026

    O Mestre Amadeu tinha também o bar ao lado, vendeu bombas também mas nunca depois do incidente do Antonio.

      Gonçalo Mendes
      09/04/2026

      Estes contos não são nem pretendem ter rigor histórico. São apenas uma recriação.

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