Quando o realizador britânico Sam Mendes venceu o Oscar pelo seu filme Beleza Americana, logo em Portugal se estabeleceu uma ligação do laureado com as suas origens portuguesas. Muitas páginas se escreveram, ligando o seu nome aos madeirenses que, movidos pela fé e pela perseguição religiosa, foram obrigados a fugir da ilha em meados dos século XIX.
Na verdade Samuel Mendes tem uma ligação directa à ilha, embora, desde logo quando questionado sobre a questão, tivesse desvalorizado esse evento, parecendo não querer trazer ao de cima o ambiente hostil que a sua família enfrentou quando foi obrigada a emigrar por se ter convertido ao protestantismo do escocês Robert Kalley.
Quando se pesquisa na internet pela genealogia de Sam Mendes a informação é pouca, incompleta e, muitas vezes, pouco rigorosa, incluindo a que é originária de familiares seus, mais ou menos afastados.
Pouco ou nada se sabe em que condições os antepassados do realizador de American Beauty saíram da Madeira em direcção a Trinidad e Tobago, no mar da Caraíbas. O retrato mais próximo que temos foi-nos dado há alguns anos através do livro de Ferreira Fernandes, “Madeirenses Errantes”, publicado pela editora Oficina do Livro que, aqui e ali, lança algumas pistas sobre a saga da família Mendes nas Antilhas.
De uma maneira geral a informação conhecida até agora dizia que Sam Mendes era tetraneto de Francisco Mendes e de Rose (Rosa) de Andrade, que tinham fugido da Madeira para escapar às perseguições religiosas. Alguém escreveu até que, sendo isso verdade, não se conhecia nenhuma actividade religiosa a Francisco Mendes. Na verdade era de todo impossível que Francisco Mendes tivesse sido obrigado a emigrar por essa causa. Francisco tinha pouco mais de 3 anos quando foi levado para Trinidad.
Alguma falta de rigor e de documentos credíveis levaram a que nunca se tivesse estabelecido com verdade alguns dados essenciais na vida de Francisco Mendes, a começar pelo seu nascimento.
Através do cruzamento de alguns dados, conseguimos estabelecer, pensamos nós, a ligação correcta de Francisco Mendes à ilha da Madeira.
Vamos por partes.
A fonte mais próxima que dá conta da odisseia da família Mendes nas Caraíbas é-nos relatada pelo escritor Alfred Hubert Mendes, através da sua autobiografia, que, no primeiro capítulo do seu livro, conta pormenores das suas conversas com o avô Francisco, descrevendo as suas características pessoais, e um pouco da história da família, apesar de, em dois ou três dados dar sinais contraditórios. Todavia, Alfred H. Mendes contraria informações veiculadas na internet, por exemplo sobre as datas de nascimento de Francisco e de Rose de Andrade. Francisco, de acordo com Alfred, terá falecido por volta de 1912, com a idade de 64 anos (logo teria nascido por volta de 1848). Diz também não ter conhecido a avó Rosa, que morreu antes de o próprio ter nascido. Na árvore genealógica publicada no fim do livro, no entanto, estão assinaladas as datas de nascimento e da morte dos dois. Francisco teria nascido em 1842 e falecido em 1910, enquanto Rose terá nascido em 1845 e falecido em 1888. Alfred H. Mendes revela também que Francisco chegou a Trinidad e Tobago no final de 1846, incluído na vaga de fugitivos à perseguição religiosa aos madeirenses presbiterianos convertidos. O mesmo terá acontecido a Rosa de Andrade.

Alfred Hubert Mendes, neto do madeirense Francisco Mendes e avô de Sam Mendes
Temos assim que tanto Francisco como Rosa seriam crianças muito pequenas quando chegaram às Caraíbas. Três anos para Francisco e um ano para Rosa.
O que é mais curioso nesta história é que, em lado algum, se fala de Joaquim Mendes e de Perpétua Rosa de Andrade, os pais de Francisco, que, com certeza, teriam viajado, levando as suas crianças na viagem.
Os dados disponíveis revelam que Joaquim Mendes nasceu em 1784. O que significa que já tinha 62 anos quando chegou às Caraíbas, em 1846. Da sua esposa, nem uma palavra.
O trabalho mais completo sobre a genealogia da família Mendes está no site http://freepages.genealogy.rootsweb.ancestry.com/~mendes/, onde é derramada toda a descendência de Joaquim Mendes, o verdadeiro patriarca dos Mendes que terá viajado para Trinidad e Tobago no final do ano de 1846, de acordo com o livro “Autobiography of Alfred H. Mendes 1897-1991″, editado por Michèle Levy.
Pelo que conseguimos apurar, Joaquim Mendes, na verdade de seu nome completo, chamava-se Joaquim Mendes Neves. Ao contrário do que é referido em todos os locais, não é natural de Setúbal, mas de São Vicente, Madeira. No site já referido, aliás, diz-se que Joaquim Mendes é natural de Setúbal, Madeira. Pensamos que tal se deverá a um lapso na leitura de algum documento antigo.
No mesmo site estão identificados 3 filhos de Joaquim Mendes: António, nascido a 21 de de Abril de 1840, Francisco e Virgínia. A estes filhos devem juntar-se João, um galã, nas palavras de Alfred H. Mendes, e outras duas mulheres.
De posse destes dados e da genealogia publicada por Alfred H. Mendes no seu livro autobiográfico, começámos a nossa pesquisa pelos casamentos no Arquivo Regional da Madeira. Aí encontramos o casamento (São Vicente, 1822) de Joaquim Mendes (Neves) com Perpétua Rosa de Andrade, tal como é identificada pelos seus descendentes, como pais de Francisco Mendes.
Fomos então à procura dos filhos. De posse da data de nascimento de António, confirmámos o seu registo de baptismo, realizado no dia 9 de Maio de 1840, e nascido a 21 de Abril do mesmo ano, em São Vicente. Foram padrinhos Manuel Gomes de Andrade e Maria Luísa de Andrade, irmãos. Encontrámos também o registo de baptismo de Francisco. Nasceu no dia 16 de Abril de 1843 e foi baptizado no dia 21 de Julho do mesmo ano, tendo como padrinhos Francisco Manuel de Andrade e Maria Antónia de Oliveira. Tanto um como outro foram baptizados na Igreja paroquial de São Vicente pelo padre Jacinto Neri da Silva, pároco da localidade.
A partir daqui, pensamos, fica desatado o nó que bloqueava a pesquisa para gerações anteriores.

De acordo com os vários registos de casamento e de nascimento que possuímos, os pais de Joaquim Mendes e de Perpétua Rosa de Andrade residiam no sítio do Lombo da Achada dos Judeus e na Fajã dos Vinháticos, uma localidade muito próxima, o que poderá indicar, pela morada e pelos nomes Mendes e Neves as origens judias desta família.
Fica ainda por esclarecer a origem da família de Rosa de Andrade, mulher de Francisco Mendes que, de acordo com o seu neto Alfred era também descendente de madeirenses.
Na nossa pesquisa, contamos com a colaboração de várias pessoas e estabelecemos contacto com descendentes de António Mendes, e de Virgínia Mendes, irmãos de Francisco. Do mesmo modo, continuamos a tentar encontrar o fio à meada nos antepassados da mãe de Alfred H. Mendes, Isabella Jardine (Jardim) cuja família, sendo também vítima de perseguição religiosa na Madeira, esteve algum tempo em Trinidad e Tobago, mas viajado pouco depois para Granada, onde voltou ao catolicismo.
A titulo de curiosidade, refira-se que o escritor Alfred H. Mendes conta que seu pai, tendo ido a Granada visitar a família Jardim, com a idade de 21 anos, em 1895, conheceu Isabella quando esta estava num convento. Apaixonado, Alfred não parou enquanto não arrancou Isabella da vida religiosa e a levou para Trinidad, onde se casaram no ano de 1896. Daqui nascerá um conflito religioso entre os dois já que Alfred era protestante e Isabella católica. Talvez por isso, Alfred se manteve afastado da religião, tornando-se agnóstico. Isabella Jardine Mendes faleceu em 1911 vítima de tuberculose.
A consulta do gráfico que se segue dá-nos as sementes que Joaquim Mendes e Perpétua Rosa, movidos pela fé, levaram para as Caraíbas.
Fontes:
Foruns onde se pesquisam os Mendes
Livros:
- MENDES, Alfred H. Mendes, The Autobiography of Alfred H. Mendes, 1897-1991, editada por Michèle Levy, UWI Press, Jamaica, 2002
- FERNANDES, Ferreira, Madeirenses Errantes. Oficina do Livro, Lisboa 2004
Nota: em 2019, Sam Mendes volta com um grande filme, “1917”, baseado em histórias contadas pelo seu avô, Alfred Hubert Mendes.