Terça-feira, Julho 7, 2026
Genealogias
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A judia que dorme na sombra de Cristiano Ronaldo

Gonçalo Mendes Gonçalo Mendes
  • Jun 23, 2026

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A história de Leonor Ribeiro, cristã-nova morta numa cela da Inquisição em 1595, cruza-se quatro séculos depois com a genealogia de Cristiano Ronaldo. Mais do que uma curiosidade sobre o CR7, esta é uma porta para a memória esquecida dos judeus sefarditas e cristãos-novos que encontraram na Madeira uma rota de fuga, sobrevivência e silêncio.

Lisboa, 1595. Numa cela da Inquisição, morre uma mulher. Chama-se Leonor Ribeiro. Está viúva, está sozinha, está longe da família que um dia viveu na Madeira. O crime de que foi acusada — e pelo qual foi presa e torturada — chama-se judaísmo.

Ninguém, nessa hora, poderia imaginar que, quatro séculos mais tarde, o nome de Leonor Ribeiro viria a ser mencionado ao lado do maior marcador de golos de toda a história do futebol.


A descoberta foi feita em 2019, de forma completamente acidental. Pedro Arruda, investigador especializado em genealogia sefardita a trabalhar para uma consultora luso-brasileira, andava a construir a sua própria árvore genealógica quando tropeçou num nome inesperado. “Descobri não só que ele descende desses judeus como temos a mesma ancestral cristã-nova”, contou o investigador, referindo-se a Cristiano Ronaldo.

A ancestral comum é Leonor Ribeiro. O processo inquisitorial dela está guardado nos arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa. Os registos dos seus descendentes encontram-se no Arquivo e Biblioteca da Madeira — abertos à consulta pública, como todos os outros.


Para perceber como é que uma judia do século XVI se tornou antepassada do CR7, é preciso recuar à história da Madeira como rota de fuga.

No início do século XVI, o rei D. João III intensificou a perseguição aos judeus em Portugal continental. Quem não se convertia ao catolicismo — e muitos dos que se converteram continuaram a praticar a sua fé em segredo, tornando-se os chamados cristãos-novos — via-se obrigado a fugir. A Madeira, pelas suas características geográficas e pela distância ao controlo do Santo Ofício, tornou-se uma das principais rotas migratórias para essas famílias.

Cristiano Ronaldo, como muitos outros madeirenses, é descendente dessas famílias que chegaram à ilha fugidas da perseguição. A linha genealógica que o liga a Leonor Ribeiro passa precisamente por essa diáspora interna — judeus que trocaram o continente pelo arquipélago, e que ali construíram nova vida, nova identidade e, com o tempo, novos apelidos.


É preciso ser rigoroso sobre o que este estudo representa e o que não representa.

A investigação foi produzida pela Martins Castro Consultoria, empresa especializada em processos de cidadania portuguesa pela via sefardita — uma lei criada em 2013 como forma de reparação histórica aos descendentes dos judeus perseguidos pela Inquisição. O contexto da pesquisa é, portanto, profissional e jurídico: trata-se de traçar linhas de descendência para efeitos legais, não de escrever biografi­as completas.

Não tenho acesso ao estudo genealógico completo nem o pude verificar de forma independente. O que existe, publicado e disponível, é a referência ao processo inquisitorial de Leonor Ribeiro na Torre do Tombo e aos registos dos seus descendentes no Arquivo da Madeira. Qualquer pessoa pode consultar essas fontes — e essa transparência é, em si mesma, uma garantia de seriedade.


O que me parece mais interessante nesta história não é a ligação ao CR7 — que serve sobretudo de porta de entrada para um tema muito mais vasto. É a Leonor Ribeiro.

Uma mulher que morreu em 1595, viúva e presa, acusada de ser o que era. Uma mulher cujo nome só voltou à superfície quatro séculos depois, numa pesquisa genealógica que ela jamais poderia ter imaginado. Uma mulher que, afinal, está na raiz de uma família madeirense como tantas outras — famílias que carregam, frequentemente sem o saber, histórias de perseguição, de fuga e de sobrevivência.

A história de Leonor é a história de uma Madeira que raramente aparece nos livros: a Madeira dos cristãos-novos, dos judeus disfarçados, das famílias que chegaram com outro nome e outra fé, e que aos poucos se foram fundindo com a população da ilha.

Escrevi neste blogue sobre a genealogia de Cristiano Ronaldo — as suas raízes em Machico, os Aveiro, a avó caboverdiana Rosa Isabel. Esta história acrescenta uma camada que eu próprio desconhecia: uma camada muito mais antiga, muito mais sombria, e talvez por isso mesmo muito mais humana.


Fontes: Estudo genealógico publicado pela Martins Castro Consultoria Internacional (2019), divulgado pelo Portal Terra. Os arquivos documentais referenciados — Torre do Tombo (Lisboa) e Arquivo e Biblioteca da Madeira — são de consulta pública.

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