
A Furna
Talvez um mês antes do centésimo décimo aniversário do Diário de Notícias do Funchal, foi-me pedido um trabalho de reportagem em localidades esquecidas da Madeira, “literalmente esquecidas”.

Foram escolhidos três sítios, genericamente batizados de Lugares do Fim do Mundo, título que acabou por dar nome à reportagem. Dois deles situavam-se na Ribeira Brava, um na margem esquerda e outro na margem direita, no topo das montanhas: Espigão e Furna. O terceiro ficava na freguesia da Boaventura, os sítios do Lombo do Urzal e, pela proximidade, Achada da Madeira.
Sem qualquer informação prévia disponível, realizei o trabalho de campo acompanhado pelo fotógrafo Manuel Nicolau, que documentou tudo ao pormenor. O transporte foi assegurado pelo motorista do DN, o senhor Pedro, num Jeep — o único meio capaz de, pelo menos no caso da Furna, percorrer a estrada recentemente aberta, de terra batida, que serpenteava à beira do abismo.
A estrada era estreita e não tinha qualquer proteção, o que metia medo, inclusive ao próprio motorista. Bastava um pequeno descuido e, como ele próprio dizia em tom meio sério, meio humorístico, “era uma vez uma equipa do DN que ia à procura de uma reportagem”.
A estrada não chegava propriamente à aldeia da Furna. No fim havia um pequeno túnel pedestre que, depois de atravessado, nos oferecia uma imagem geral do lugar. Via-se a pequena escola, à direita — apenas uma sala de aulas.
Uma escola que funcionava quando dava. Isto é, quando havia professores suficientemente corajosos e resilientes para aguentar a dureza do lugar, mas sobretudo o seu acesso. Se não fosse de carro, só restava o Caminho da Vara, que subia em ziguezague pela encosta até ao topo.
Mesmo que o ditado popular diga que é mais fácil descer do que subir, nem a descida era fácil. O histórico de quedas — mesmo entre os habitantes locais — estava cheio de episódios trágicos.
Espigão

De acesso um pouco mais fácil, tanto o Espigão como o Lombo do Urzal, a par da Furna, eram o retrato vivo da Madeira antiga: isolada e muitas vezes abandonada à sua sorte.
Notavam-se, no entanto, já os primeiros sinais de intervenção pública, nomeadamente com a chegada da eletricidade, da água canalizada e da escola.
As estradas ainda eram de terra e muitas vezes pouco transitáveis, sobretudo nos invernos rigorosos. Para quem não tinha nada, já era alguma coisa — era esse o sentimento que emergia dos contactos que tivemos com as populações.
O trabalho foi publicado na edição comemorativa do centésimo décimo aniversário do DN.
Prémio Leacock
Na sequência desta reportagem, meses mais tarde, concorri ao primeiro Concurso Leacock de Jornalismo, onde acabei por conquistar o primeiro prémio.
Cem contos, na altura — uma quantia que caiu muito bem na carteira. Mais do que o dinheiro, materializou o reconhecimento do meu trabalho como jornalista estagiário e acabou por impulsionar a minha carreira a um ritmo que até a mim me surpreendeu.
Foi um verdadeiro turbilhão em pouco mais de um ano