Genealogias
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Henry Veitch: o cônsul, o pecador e os filhos que a ilha guardou

Gonçalo Mendes Gonçalo Mendes
  • Jul 8, 2026

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Henry Veitch chegou jovem ao Funchal e tornou-se uma das figuras mais influentes da Madeira oitocentista: cônsul britânico, proprietário, liberal conservador, interlocutor de Napoleão e personagem rodeada de lenda. Entre a pipa de vinho enviada para Santa Helena, o mausoléu do Jardim da Serra e os filhos madeirenses que os registos ainda deixam entrever, este artigo procura seguir o rasto público e íntimo de um homem que a ilha nunca esqueceu.

Agosto de 1799. O Funchal acordava para o Atlântico com o barulho habitual dos armazéns de vinho e dos carregadores no cais — branco de cal, cinzento de basalto, cheirando a mar e a madeira molhada. E foi nesta ilha que desembarcou, ainda jovem, um escocês de dezassete anos nascido em Selkirk, na fronteira com a Inglaterra, trazendo na bagagem os primeiros anos de aprendizagem de um ofício que o haveria de prender ao arquipélago para o resto da vida.

Henry Gordon Veitch. Filho de John Veitch e de Barbara Veitch. Nem herói nem vilão. Um homem.

Henry Veitch

Chegara como assistente consular, a trabalhar sob Charles Murray e depois sob Joseph Pringle, numa firma já com tradição no negócio da representação britânica. Em abril de 1809 — dez anos depois da chegada —, assumiu finalmente o cargo que o tornaria célebre: cônsul-geral e agente britânico para o arquipélago, por nomeação de Jorge III. Nessa altura, a guerra estava em todo o lado: os jornais ingleses chegavam com semanas de atraso, os portos do continente estavam fechados pelo bloqueio napoleónico e a Madeira vivia a segunda ocupação militar britânica. Não era um momento para homens hesitantes.

Dois anos antes, em setembro de 1807, Beresford traçara um breve perfil de Veitch num “Memorandum of Characters” enviado a Castlereagh. O retrato era o de um homem “calmo” e “sensato”, “respeitado” pela elite insular — mas também de quem não era fácil obter palavra ou ação (“it is not easy to get him to speak or to act”). Homem “prudente e com bom senso”. Não o perfil do agitador, portanto. Mas quem o estudou à distância acabou por reconhecer que quem o descreveu, em 1807, acertou no essencial.

Para além da personalidade, contribuíram para a sua nomeação o apoio que conquistara junto do Foreign Office e a posição de sócio da importante firma Scott, Pringle & Cª (mais tarde Scott, Longhnan, Penfold & Veitch), da qual já tinham saído outros cônsules. Em Londres, contou com o respaldo de Spencer Perceval — futuro primeiro-ministro e o único que, ocupando esse cargo, viria a ser assassinado — e do seu secretário George Harrison, cunhado de Veitch. Mas foi a intervenção de Henry Dundas, Visconde de Melville, que se revelou decisiva para convencer o ministro dos negócios estrangeiros, George Canning, a assinar a nomeação.

O posto que passou a ocupar valia £800 por ano — quantia que punha qualquer homem bem acima da linha do conforto — e representava a nação que militarmente dominava o Atlântico. Veitch soube jogar com isso. Em pouco tempo tornou-se não apenas cônsul, mas figura central da vida política e social da ilha.

Casara em 1808 com Margaret Antoinette Harrison — irmã de George Harrison, aliança que não era fruto do acaso. Dela teve três filhos: Henry, Robert e George Waterloo, o mais novo assim chamado por ter nascido precisamente em 1815. A mulher morreu em julho de 1837. Mas o cônsul, segundo ficou registado, há muito compensara as eventuais solidões domésticas com uma generosidade espalhada pela ilha. “Um dos maiores pecadores da ilha”, assim lhe chamaram. Era escocês, sim. Mas de temperamento meridional.

Acumulou quintas e terras com a mesma determinação com que acumulava influência. Possuiu cinco quintas, entre as quais a Quinta Calaça e a sempre muito citada Quinta do Jardim da Serra — autêntico retiro romântico onde tentou desenvolver o cultivo do chá. Esta última foi onde mandou construir um mausoléu para si próprio e, diz a lenda, para o seu cão. Detalhe que, como veremos, tem a sua piada.

Em defesa dos madeirenses, Veitch foi mais do que um emissário da Coroa. Homem de simpatias liberais — que descrevemos com mais precisão como um liberalismo conservador —, apoiou abertamente a causa da autonomia da Madeira e entrou, amiúde, em conflito com os poderes instalados tanto em Lisboa como em Londres. Não por ideologia pura, mas por algo mais concreto: quanto maior fosse o grau de autonomia dos poderes insulares, menor era a dependência dos interesses britânicos das flutuações do poder em Lisboa.

O seu consulado pode dividir-se em quatro períodos. O primeiro, entre 1809 e 1815, coincidiu com o auge das guerras napoleónicas — uma época de ouro para a economia madeirense. O segundo, entre 1816 e 1822, correspondeu à tentativa de absorver, pacificamente, as convulsões políticas que se seguiram: a adesão da Madeira ao liberalismo, os debates sobre a adjacência ao Brasil ou ao Reino, e até correntes independentistas que nunca chegaram a afirmar-se. Neste período, Veitch foi um dos defensores da criação de um porto franco para a ilha. O terceiro, entre 1823 e 1828, foi marcado pela guerra civil portuguesa — e pela simpatia do cônsul pelos liberais, que o levou a ser suspenso quando os miguelistas tomaram o poder na Madeira. Os seus hóspedes eram visíveis às janelas da casa junto à Ribeira de Santa Luzia; o edifício chegou a ser apedrejado por populares. Em fevereiro de 1832 foi reposto no cargo — porque, entretanto, já interessava a Londres que D. Miguel saísse de Lisboa.

O quarto e último período, entre 1832 e 1836, corresponde ao desfecho da guerra civil e à transição de poderes. Veitch envolveu-se diretamente no processo, contribuindo para que a saída dos miguelistas, em agosto de 1834, decorresse sem incidentes. Foi, aliás, o denominador comum de toda a sua carreira: o esforço constante para garantir transições de poder pacíficas, num arquipélago que estava, em diferentes momentos, perante quatro hipóteses políticas bem identificadas — a adjacência ao Brasil, a independência pura, a adjacência ao Reino (a via que acabou por triunfar) e a inserção no império britânico.

Não é despiciendo afirmar que se ficou a dever, em muito, à ação de Veitch o facto de a guerra civil portuguesa não ter ensanguentado a Madeira como ensanguentou o continente. Seguido por uns e detestado por outros, revelou-se um elemento essencial para a harmonia interna da comunidade britânica e para um relativo bom entendimento entre esta e a madeirense. Quando deixou de exercer essa função de charneira, as disputas que se seguiram deram razão à falta que fazia.

Em 1836 foi definitivamente afastado do cargo — desgastado pelas inimizades acumuladas e pelos conflitos com o Foreign Office, que desde 1825 o fora reduzindo em autonomia e em rendimentos. A isto acresceu uma perda que o abalou como nenhuma outra: o filho Robert Harrison Veitch, que havia trazido para o consulado com o objetivo de lhe suceder no cargo, morreu inesperadamente numa viagem a Inglaterra, em outubro de 1833. A dor foi grande. As dívidas do filho, que se viu obrigado a assumir, ainda maiores. Para substituir Robert, serviu-se de outro filho, George Waterloo, mas o Veitch que chegou a 1836 era já, segundo os contemporâneos, um homem frio, amargo e cada vez mais sozinho.

Decano dos cônsules britânicos em todo o mundo — distinção de que ele próprio se vangloriava na correspondência com o Foreign Office —, Henry Veitch recolheu-se à vida privada com uma pensão e raramente voltou a aparecer nas reuniões da comunidade britânica. Mas não desapareceu por completo: em 1837 surge como presidente da Sociedade das Corridas Funchalenses; no início dos anos 40, a prestigiada revista O Panorama elogiou-o publicamente; e em 1844 chegou a apresentar um plano para a construção de um cais na baía do Funchal, reivindicação antiga da ilha que só o Estado Novo resolveria definitivamente.

A grande cena da sua vida — a que ficou para a história e que alimentou o conto que publiquei aqui nos Cadernos de Outono — aconteceu a 23 de agosto de 1815. O HMS Northumberland ancorou no porto do Funchal, a caminho de Santa Helena, com Napoleão Bonaparte a bordo. O imperador caído estava proibido de desembarcar. Veitch pediu e obteve permissão para subir ao navio — o único habitante da ilha a consegui-lo.

Encontrou Napoleão no convés. Cometeu — ou praticou deliberadamente — o erro de o tratar por “Vossa Majestade”, quando os ingleses determinavam que o tratamento correto era “General”. Ofereceu frutas subtropicais, trocou impressões de circunstância, e convenceu o exilado a comprar-lhe uma pipa de vinho Madeira — qualquer coisa como seiscentas garrafas. Napoleão deixou-se levar pelo entusiasmo do momento. Depois reflectiu. E decidiu que não havia de tocar no vinho: com os ingleses a levá-lo para o fim do mundo, quem garantia que a bebida não estava envenenada? A pipa atravessou o Atlântico intacta, chegou a Santa Helena, ficou em Santa Helena, e regressou à Madeira depois da morte do imperador.

Quanto às moedas de ouro que Napoleão enviou para pagar o barco que levara as provisões — Veitch, segundo a tradição, atirou-as para debaixo da pedra inaugural das obras da Igreja Anglicana do Funchal, no Quebra-costas.

O vinho foi engarrafado a partir de 1840 com o nome de “Battle of Waterloo”. Duzentas garrafas. As poucas que sobrevivem valem hoje uma fortuna.

Enviuvado em 1837, Veitch esperou quase duas décadas antes de voltar a casar. Em abril de 1855, na Sé do Funchal, uniu-se a Carolina Joaquina de Freitas, filha de pais incógnitos, de quarenta e dois anos, domiciliada na Rua do Veitch — detalhe que o assento matrimonial regista com uma secura de tabelião e que dispensa comentários. Nascida por volta de 1813, Carolina era trinta anos mais nova do que o cônsul, que o registo descreve como “Henrique Veitch, de Religião Anglicana, natural da Escócia, de idade de setenta e dois anos, viúvo”. O assento revela ainda um filho anterior ao casamento, de nome Henrique, legitimado pelo ato.

Dois anos depois, em 7 de agosto de 1857, Henry Veitch morreu no Funchal. Tinha setenta e cinco anos.

Na Quinta do Jardim da Serra existe o mausoléu que mandara construir para si. A lápide, mandada gravar pela viúva, diz:

Here lye the mortal remains of Henry Veitch H.B.M.’s Agent and Consul General in this island from 1809-1836 / Born at Selkirk 2nd July 1782 Died at Madeira 7 August 1857 / He built this Quinta do Jardim da Serra and there in selected this resting place for his mortal remains / This tablet erected as a tribute to his memory by his widow Caroline I Veitch

Só que não. Havia restrições religiosas que impediam enterramentos fora dos cemitérios e Veitch, não sendo católico, fora sepultado no Cemitério Inglês. O que aconteceu a seguir pertence à lenda: o corpo terá sido transportado às escondidas para o Jardim da Serra. Com o cão. Verdade ou mito, é exatamente o tipo de história que um homem com a reputação de Veitch merecia.

A investigação genealógica que realizei a partir de documentos do Arquivo Regional da Madeira permitiu identificar, a par da linha britânica legítima, duas linhas madeirenses. A primeira nasce do casamento de 1855 com Carolina e do filho Henrique — que assina por vezes como “Henry Veitch”, solteiro, residente na Sé, e que aparece nos anos 80 do século XIX como padrinho de três crianças: José, Maria e Zeferina, filhos de Helena Veitch de Jesus, ela própria filha de Maria Joaquina de Jesus e de pai incógnito. Nos registos de batismo surge ainda uma Zeferina Augusta Veitch, “solteira que se ocupa do trabalho doméstico, moradora em São Gonçalo”.

Henrique morreu no mar, junto à Quinta Calaça, não tendo deixado descendência, que se conheça, pelo menos.

Henrique. Helena. Zeferina. Irmãos, meios-irmãos, ou apenas primos unidos pelo apelido? A investigação não o esclareceu. O que é certo é que não há registo de casamentos de Henrique nem de Zeferina com o nome Veitch. Como se o nome tivesse sido emprestado à nascença e devolvido mais tarde, em silêncio.

A linha mais curiosa é a de Helena Veitch de Jesus, que casou com José Pinto em 1867. A filha deste casal, Maria Augusta, casou em 1885 com José de Freitas e deu origem a treze crianças. Nos treze registos de nascimento, a mãe está identificada de formas variadas: Maria Augusta Weitch. Maria Augusta Veitch. Maria Augusta Witch. Maria Augusta Wicth. Quatro grafias, uma só família. A língua popular fazia o que sempre faz: apanhava uma palavra estranha e amassava-a até lhe dar jeito. E assim o nome do cônsul inglês foi sobrevivendo nas atas dos párocos do Estreito de Câmara de Lobos, malfeito mas persistente, como uma semente num muro.

Para concluir — porque toda a história tem a sua surpresa guardada para o fim — convém acrescentar que Henry Veitch foi bisavô de Sir Noël Coward, o dramaturgo e compositor britânico, um dos espíritos mais brilhantes e irónicos do século XX. Que o bisneto do “maior pecador da ilha” se tenha tornado o mestre da comédia de costumes e do humor seco é, ao menos, uma coincidência que Veitch teria apreciado.

A descendência completa de Henry Veitch na Madeira — a legítima e a outra — está ainda por mapear na sua totalidade. Esta é apenas a abertura do trabalho. Para quem queira continuar, os olhos azuis e o cabelo loiro ainda podem ser pistas. Ou talvez não. Hoje, o ADN diria outra coisa.

Afinal, o talento, quando existe, também se herda.

Este artigo foi originalmente publicado em maio de 2011 no blogue “Madeira Genealogy”, tendo sido agora republicado nos Cadernos de Outono com pequenas atualizações.

Fontes:

 

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