Às três da tarde, o sol colocava-se quase a pique sobre as falésias colossais que marcam a paisagem entre S. Vicente e o Seixal. A estrada recente, estreita, calcetada, escavada na rocha, desafiando a vertigem das montanhas, cortando os veios de lava solidificada, ultrapassando os ribeiros caudalosos através de pequenas pontes de pedra e túneis escuros, pouco ou nenhum movimento tinha. O caminho era novo e um automóvel era um luxo. De tal maneira que se, por dia, passassem meia dúzia deles, era um acontecimento. Não faltavam por isso os mirones sempre que o roncar dos motores se sentia e ouvia ao longe. Corríamos todos. Velhos e novos. Não apenas para ver as máquinas, mas também para sonhar, invejar e bilhardar.
No Calhau, quase deserto, quatro jovens adolescentes jogavam à bola no campo improvisado de areia, encaixado entre a muralha da nova estrada marginal e o mar.
Setembro já ia alto. As festas do Senhor Bom Jesus de Ponta Delgada, que haviam arrastado multidões de romeiros, pagadores de promessas e de foliões, já tinham terminado, pelo que, perto da foz da ribeira, sob proteção do rochedo da capela do Santo que deu o nome à freguesia, estava tudo calmo.
Junto à capela, a água, recolhida de todos os córregos que escorrem das montanhas, desde a Encumeada e do Paúl da Serra, pelo vale fechado de São Vicente, corria devagar, a um canto, passando apenas pelo vão direito, do lado da Fajã da Areia. Quem a viu e quem a vê. Alguns meses antes, durante o inverno anterior, a ribeira mais parecera um rio caudaloso, violento, aterrador, galgando as muralhas, ameaçando inundar a vila e destruir as pontes. O medo levou a população do povoado a passar várias noites em branco, alerta, rezando, implorando a clemência divina. Era quase todos os anos assim. Toda a gente sabia disso. E, também talvez por isso, todos os anos se renovavam os votos, como se enfrentar o medo fosse uma rotina à qual era preciso dar energia com regularidade, não fosse o receio tornar-se crónico e o destino fatal.

Na igreja matriz, o padre Lira dissera uma missa pedindo o abaixamento do nível das águas, prometendo uma peregrinação anual à novíssima Capela de Nossa Senhora da Piedade, no Laranjal, construída para agradecer a não participação de Portugal na Segunda Grande Guerra, no caso de nenhum mal acontecer às suas gentes.
Não se sabe se por efeito ou não das rezas — as beatas garantem que sim —, as águas lá se acalmaram, o nível da ribeira desceu, e o sono pôde então ser recuperado e saboreado da melhor forma, garantindo também que a ponte de quatro arcos sustentada a meio pelo rochedo da capelinha do Calhau nunca iria ceder e manteria de pé a ligação da Vila de São Vicente com a Fajã da Areia e a vizinha Ponta Delgada.
Para não esmorecer a fé, toda a gente foi convocada para uma missa campal de ação de graças junto à foz. Não se sabe ao certo quantas pessoas lá estavam, mas, garantiu o regedor da freguesia, sempre pronto a aparecer à frente para que o povo o reconhecesse, foram mais de cinco mil pessoas. Um exagero, para os críticos. Uma verdadeira multidão devota, para os crentes nas artes do milagre.
Na verdade, quem é que mais estaria interessado do que as pessoas de São Vicente? — perguntou a si mesmo Gregório, filho do barbeiro das Feiteiras, que, sem qualquer hesitação, fora um dos milhares que foram até ao Calhau ver a missa e olhar o mar mais de perto. Milagre ou não, estava ali, agradecendo a regularização do leito da ribeira e tendo a oportunidade de, mais uma vez, descer do centro da freguesia e tocar o mar.
Tão perto e tão longe. Lá de cima, do meio do vale, era sempre possível ver o mar. Mas uma coisa era vê-lo no V formado pelas duas cordilheiras que fecham o vale profundo e outra completamente diferente era estar ao pé dele, sentir-lhe o cheiro, desejar mergulhar nas suas águas, saborear o seu sal e desafiar as suas ondas. A meia dúzia de quilómetros que separava a aldeia da imensidão do oceano era uma barreira só ultrapassada em ocasiões especiais. Apesar do acesso não ser muito difícil e de não demorar assim tanto tempo a lá chegar, a vida organizava-se por ali à volta de casa. Entre as quatro paredes de pedra, o quintal e a fazenda onde os ciclos das plantações se sucediam calmamente ao ritmo da natureza sem grandes sobressaltos.
O cheiro do mar, a brisa… apanhar umas lapas, quem sabe… Gregório prometeu voltar. Tão breve quanto possível.
Com 15 anos feitos, a caminho dos 16, o jovem filho do barbeiro olhava a linha do horizonte, acompanhava o movimento das ondas e perscrutava com o olhar o traço riscado nas montanhas pela estrada, na quase vã esperança de que um automóvel passasse. Mas nada acontecia. Nenhum ronco de motor, nenhum ruído diferente.

Assim debruçado, como que se esqueceu dos seus três amigos, que, acaloradamente, jogavam à bola a poucos passos atrás de si, no chão de areia, correndo, suando, gritando, mas não o importunando. Era como se lá não estivessem. A exceção era um ou outro grito dado por João. O motivo era simples: tinha vários furúnculos no corpo e a bola, de quando em vez, acertava num deles, causando-lhe dores agudas. Razão, claro está, suficiente para lhe soltar um grito de dor, impedindo-o momentaneamente de jogar, mas também motivo de gozo dos amigos que pareciam fazer pontaria para se rirem à custa dele.
— Água do mar, água do mar! — Dissera-lhe a mãe na véspera, garantindo-lhe que tal era o melhor remédio para a maleita que lhe macerava o corpo, putrefazia as feridas, deixando-o cheio de dores e impedindo-o de dormir descansado.
Os furúnculos foram, assim, o principal motivo que levou João, Gregório e mais dois amigos a ir ao mar. Razão primeira da autorização pronta da família para a aventura juvenil.
Depois de um primeiro mergulho — estava o mar calmo e convidativo —, regressaram a terra e deleitaram-se a correr na areia pontapeando a pequena bola de cabedal, relíquia que João tinha recebido como prenda pela conclusão da escola primária, havia três anos.
Cismado, insatisfeito, colado à linha do horizonte, Gregório sentiu-se em pulgas. Queria um desafio extremo.
Num relance, quase impulsivo, levantou-se de um salto, correu para o chão de areia e, na primeira oportunidade, prendeu a bola debaixo do pé e chamou os amigos para junto de si.
— Então, como é? — perguntou o João. — Vais mandar a bola ou não?
— Quero ir pelo mar dentro.
— Pelo mar dentro, como? Até ao Porto Santo? — perguntou e riu um dos amigos, olhando para o horizonte, na direção de Ponta Delgada, tentando descortinar a sombra da ilha vizinha.
— Nada disso — respondeu Gregório. — A minha ideia é mais interessante. Vamos nadar, sempre em frente, até vermos as casas da Terra Chã.
— E não é perigoso? — perguntou um deles.
— Cá nada. O mar está calmo, por isso não há problema.

— O último a chegar à água é burro! — Gritou João, desembaraçando-se da camisola, correndo para a água, mergulhando rapidamente e iniciando desde logo, em largas braçadas, o percurso pelo oceano, afastando-se da costa.
Os três amigos fizeram o mesmo e, passados poucos minutos, estavam todos juntos, nadando vigorosamente, medindo cada braçada dada, comparando-se entre si, olhando de vez em quando para trás, certificando-se de que a escarpa da Terra Chã parecia cada vez maior a cada pequeno avanço através do mar.
A Terra Chã é um pequeno planalto que se estende entre a orla marítima, o Calhau, e a vila de São Vicente. A sua origem deve-se às escoadas vulcânicas que, há muitos milhões de anos, deslizaram do Paúl da Serra para o extenso vale. Essas lavas escorreram e assentaram calmamente no fundo do vale, formando um planalto a poucos metros do nível do mar. Com o tempo, a erosão provocada pelas águas dos inúmeros ribeiros que descem as montanhas abruptas romperam essa escoada, escavaram o planalto, formando a ribeira que hoje corre no fundo do vale, deixando, em especial do seu lado esquerdo, uma autêntica parede, cortada a direito, que acompanha o serpentear da ribeira até ao mar. O pequeno planalto que resistiu à erosão das águas violentas da montanha e à bravura do mar tornou-se um espaço privilegiado, não apenas pela segurança que aparenta, apesar da presença das altas montanhas que o ladeiam, mas também pela calma, tranquilidade, proximidade e vista sobre o mar.
Ao fim de meia hora de fortes braçadas, Gregório sentiu os braços doridos e resolveu parar um pouco. Voltou-se para trás boiando, tentando descobrir uma das poucas casas da Fajã. Nem um telhado. Esperou meia dúzia de minutos pelos amigos que se aproximavam mais devagar e sugeriu-lhes regressar.
— Nem penses — respondeu-lhe de pronto João. — Já que estamos aqui vamos até ao fim.
Com uma resposta assim, qual é o amigo que se atreve a fazer-se passar por medricas?
E pronto. Lá seguiram na direção do infinito, sem olhar para trás.
— As ondas estão maiores — gritou Gregório para os amigos que lhe seguiam o rasto.
— Não estás a ver que as ondas aumentam quanto mais nos afastamos? — respondeu-lhe João.
— Não é isso! Repara para o céu. Está mais escuro. Está mais vento e as ondas são cada vez maiores.
As campainhas de alerta soaram nas quatro cabeças. A uma só vez, voltaram-se para trás.
— Olha o fumo nas chaminés! Conseguimos!
— Pronto, já chega. Vamos voltar — sugeriu Gregório.
— Preciso de descansar um bocado — respondeu João.
O mar picou-se. Levantou-se. As ondas cresceram e no seu ondular mais acentuado, os quatro jovens lá conseguiram ver os telhados de algumas das casas da Terra Chã, dando por concluída a tarefa que os tinha levado a enfrentar as ondas e o mar do norte.
Os festejos só não foram mais efusivos porque se deram conta de que o regresso ia ser uma tarefa complicada. Num movimento não combinado, mas em perfeito sincronismo, os jovens olharam para as montanhas ao longe e, sem perda de tempo, aceleraram o regresso, braçada atrás de braçada, tentando fugir à profundidade e ao ondular cada vez mais intenso. O esforço necessário fazia esquecer o cansaço. A vontade de chegar perto bloqueou o medo.
Exaustos, ao fim de meia hora de intenso nadar, os jovens deram por si já bastante perto da costa. Só que desta vez o problema era a rebentação. Ondas enormes iam e vinham quebrando-se perto da praia de areia preta semeada de calhau, uns maiores do que outros, mas que dificultavam uma saída sem problemas.
O mar calmo tinha dado lugar a uma sequência de vagas cada vez mais violentas. Ao mar bravio juntava-se agora a escuridão dos céus com nuvens negras ameaçando uma borrasca violenta.
Sem se falarem — coisa que era praticamente impossível dado o ruído do mar e o cansaço de cada um —, os quatro amigos procuraram instintivamente juntar-se, ficar próximos uns dos outros. Gregório levantou a mão o mais que pôde dando a entender aos amigos para esperar.
Pelo sim pelo não, gritou:
— Vamos contar as ondas. Depois de sete vagas grandes vêm sete vagas mais pequenas. Quando chegar a vez da sétima vaga pomo-nos em posição para nadar com toda a força até à praia.
— Vamos para mais perto — sugeriu um dos amigos.
A tensão do momento silenciou-os, fazendo-os descansar os braços e as pernas, mas mantendo-os alerta para o derradeiro esforço, tentando ao mesmo tempo aproximarem-se um pouco mais da costa sem correrem risco de serem arrastados por uma onda violenta.
— Preparem-se… é agora — gritou então Gregório depois de contar a sequência das ondas mais altas. E lançou-se em direção à praia com todas as forças. As que tinha e as que não tinha.
Com alguma dificuldade, Gregório e os amigos deram por si com os pés nos seixos miúdos e na areia e, antes que o mar voltasse à sua série de ondas violentas, escapuliram-se e atiraram-se sobre o manto de areia negra onde antes tinham estado a jogar à bola. Exaustos, deixaram-se ficar, começando a sentir pequenas mazelas aqui e acolá, em especial nos pés e nas pernas, devido às pancadas que apanharam no reboliço do encontro das águas com as rochas.
Não deve ter passado muito tempo. Gregório abriu os olhos e, num relance, deu-se conta de que apenas estava ele e dois dos amigos. Faltava o João. Num pulo, pôs-se de pé, puxou pelos outros que continuavam a descansar e olhou aflito em direção ao mar que, cada vez mais agitado, parecia querer partir todas as pedras, ameaçando a pequena praia, invadindo o campo de areia.
De João nem sinal. Olhou, olhou, chamou, gritou. Era impossível. Se as nuvens se tornavam cada vez mais escuras, as horas iam-se tornando tardias.
E agora? Receosos, os três amigos começaram a percorrer a costa, vigilantes, tentando descobrir o amigo desaparecido. Nada. Gregório caminhou em direção à foz da ribeira.
Quase debaixo da ponte que se apoia no rochedo da capelinha, Gregório descobriu o amigo furunculoso debruçado sobre uma nesga de areia, o rosto encostado à água, a espuma a beijá-lo, com o corpo cheio de areia preta e o sangue a escorrer-lhe pelo corpo.

Gregório aproximou-se do amigo e ouviu-o dizer:
— Não te preocupes. Custou, mas estou vivo. Este sangue não é nada.
— Olha, vê. Os inchaços desapareceram — disse Gregório, ao mesmo tempo que começou a inspecionar com cuidado os furúnculos que atormentavam João.
— Pois. Eu é que sei — começou ele por dizer. — Quando me aproximei da praia veio uma grande onda que me arrastou para este lado da ribeira. Fui atirado como um saco de batatas contra a areia. Acho que saí enrolado. De cada vez que dava uma volta, era uma dor que nem calculas. Parece que cada volta me fazia cair em cima de um dos furúnculos, esborrachando-os.
Um banho rápido na água doce da foz da ribeira foi o suficiente para retirar o sal e a areia preta, deixando a descoberto todos os orifícios dos furúnculos que haviam atormentado João durante uns dias. Quatro pequenos veios de sangue, um de cada furúnculo, escorriam-lhe pelo corpo.
— Acho que a minha mãe tem razão. A porcaria saiu toda.
Uma inspeção rápida dos amigos às pequenas aberturas dos furúnculos confirmou que o assunto estava resolvido.
— Quando chegar a casa, deito água oxigenada e mercurocromo e está feito — sentenciou João.
A subida desde o Calhau até meio da freguesia fez-se num ápice.
A tempestade que começara no mar alastrou-se pelo vale acima. Correndo, empurrados pelo vento e refrescados pela chuva que começou a cair, os quatro amigos ficaram com a certeza de que teriam uma história para contar. Um dia.
PS: Imagens criadas com ajuda da IA. (Claude)
GM – 12/11/2025
Sancho Spínola
19/03/2026Leitura deliciosa, este conto do “Bexigas” e dos seus furúnculos! Abraço.
Gonçalo Mendes
19/03/2026Obrigado amigo, pela leitura e pelo comentário. Sugestões são sempre bem vindas.