ContosContos de São Vicente
  • 8 minutos de leitura

O fantasma do Paul

Gonçalo Mendes Gonçalo Mendes
  • Mai 15, 2026

Comments visualizações
magzin magzin

Nas colinas do vale de São Vicente que descem do Paul da Serra, perto da levada do Norte, um pouco abaixo do Caramujo, ergue-se um pedregulho enorme, sui generis. Perfeitamente visível de dia, quando não há nuvens, à noite transforma-se numa sombra escura que o luar destaca.

O basalto escuro, coberto de musgo, parece representar um homem de capa subindo a montanha. Mas, quando o luar o toca em cheio, dando-lhe maior contraste, um vulto negro alonga-se e toma a forma de um homem sombrio,  alto, de capa larga, capuz, imóvel na vertente.

Leonor tinha seis anos em 1962. Pequena para a idade, cabelo escuro cortado à tigela pela mãe, olhos que pareciam guardar tudo sem pressa de dizer. Falava pouco. Preferia olhar. Sentava-se no muro do quintal e via o pai regressar da levada ao fim do dia, botas pesadas de lama vermelha, mãos gretadas. Ouvia as conversas dos adultos sobre milho que mal dava para o ano, sobre túneis que o governo mandava abrir para levar mais água ao sul, sobre homens que embarcavam para o continente ou para a Venezuela em busca de vida menos dura. A ilha era linda, diziam, mas exigia.

A casa da família ficava no sítio das Ginjas, um punhado de paredes de pedra basáltica e telhados de colmo que o vento norte vergava todos os invernos. O melhor, no entanto, era o terreiro, o quintal, onde, nas noites quentes do verão, a família se reunia.

Ali vivia Manuel, pai de Leonor, que desde rapaz abria caminhos nas levadas com picareta e pólvora. Rosa, a mãe, cuidava da casa, criava galinhas, tratava da horta e cosia até tarde à luz do candeeiro. O avô António, curvado pelos anos de carregar água e lenha, e duas irmãs mais velhas, que ajudavam na cozinha e no campo, completavam a casa.

Todas as noites, depois da sopa de trigo e batata e umas talhadas de carne de porco salgada, a família reunia-se no quintal quando o tempo deixava. O pai acendia o cigarro, a mãe remendava roupa, o avô contava histórias de quando as levadas se cavavam só à mão e os fantasmas eram mais comuns que os forasteiros.

Leonor já era grandita, mas gostava de aconchegar-se no colo da mãe, quando esta estava nos seus dias de boa disposição. Aninhava-se no seu colo ou então sentava-se num banquinho baixo, encostada às pernas da mãe, que lhe acariciava os cabelos de vez em quando.

Invariavelmente, Leonor fixava o vulto da montanha. Havia como que uma espécie de atração. Todos os dias o olhava e, por vezes, parecia-lhe que ele se movia. Esfregava os olhos e dizia para consigo: — É só uma pedra.

De alguma forma, em especial à noite, deixou de se sentir segura. Não sabia explicar porquê, mas, a partir de determinada altura, parecia-lhe ter ouvido algo. Como se o vulto a chamasse. Um velho a chamá-la, com voz rouca. O pior é que passou a sonhar com isso, e as noites mal dormidas passaram a ser mais do que muitas.

O medo instalou-se devagar. Primeiro um aperto no peito quando a lua aparecia forte. Depois a certeza de que a sombra se mexia, muito ligeiramente, quando ninguém olhava. Leonor não contava. Temia que rissem, como riam das histórias do avô. Mas o medo crescia. À mesa, deixava cair a colher. De noite, acordava a chorar sem saber porquê.

Uma tarde de Outono, o pai levou-a até à Levada do Norte. Queria mostrar-lhe como a água corria limpa, vinda lá de cima, e como alimentava as hortas das Ginjas. Leonor caminhou ao lado dele, mão dada, sentindo o cheiro a terra molhada e erva cortada. Manuel parou na beira da levada e disse, com a voz rouca de quem fumava desde os doze anos:

— Esta água é o sangue da ilha, menina. Sem ela, nada cresce. Os nossos avós morreram a abri-la.

Leonor assentiu, mas os olhos desviaram-se para a colina. O pedregulho estava quieto à luz do dia, estava mesmo ali, a alguns metros de distância, acima da linha da levada. Apenas pedra coberta por alguma vegetação. O pai reparou.

— Tens medo daquela rocha, não tens?

Ela baixou a cabeça. Não respondeu. O pai baixou-se ao nível dela, olhou-a nos olhos, apertou-lhe a mão com mais força e disse-lhe simplesmente:

— Não tens de ter medo. É só uma pedra que, de longe, parece um homem de capa. Só isso. Não é?

— Sim, pai, é verdade, mas à noite mete-me medo. Parece que ele me chama e às vezes não durmo bem.

— Eu sei. Tua mãe já me falou nisso. Por isso é que te trouxe aqui. Para veres que é apenas uma pedra.

— Não é isso, pai. Eu sei que é uma pedra. Mas à noite parece que ela se transforma e se torna num fantasma. É aí que tenho medo.

— Pronto. Mas tens de saber que isso não é verdade. Que é só imaginação tua.

Manuel pegou na filha ao colo, deu-lhe um beijo na cara, abraçou-a e acrescentou:

— Não vamos mais falar sobre isso. Eu estarei sempre aqui para te proteger. Não tens que ter medo.

Leonor não respondeu, agarrou-se com mais força ao pescoço do pai, sentiu o seu coração no seu, deu-lhe um beijo e sentiu-se confortável. Coisa que não acontecia há algum tempo.

A tendência incontrolável de olhar para a montanha à noite, no entanto, não desapareceu. Por mais que tentasse evitar, os seus olhos ficavam vidrados no vulto.

Chegou a noite de lua cheia de Novembro. O ar frio e seco, o céu limpo. A família estava no quintal. Rosa servia pão de batata barrado em manteiga, acompanhado com chá de funcho. O avô falava da guerra, dos barcos americanos que paravam no Funchal. As irmãs riam baixinho. Leonor, enrolada num xaile da mãe, olhava fixamente para a colina.

O luar batia em cheio. A sombra formou-se perfeita: ombros largos, capa até ao chão, cabeça ligeiramente inclinada como se observasse a casa. Leonor sentiu o coração acelerar. A sombra pareceu mover-se. Primeiro um braço, depois o corpo inteiro, descendo devagar a encosta, como se caminhasse sobre a levada invisível.

— Pai… — murmurou.

Ninguém ouviu. O vulto aproximava-se. Leonor via as pregas da capa, o contorno do chapéu, a mão que parecia estender-se. O medo subiu-lhe pela garganta como água fria. O quintal, as vozes, o cheiro do pão afastaram-se. Só existia aquele homem vindo da colina, direito a ela.

Gritou. Um grito fino que cortou a noite. O pai virou-se. A mãe deixou cair a agulha. Leonor como que se apagou.

Acordou no dia seguinte, na cama estreita que partilhava com a irmã. Luz cinzenta entrava pela janela. A mãe passava-lhe um pano húmido na testa. O pai fumava junto à porta, olhar no chão. O avô rezava o terço baixinho.

— Dormiste muito, minha filha — disse Rosa, voz cansada e quente. — Foi só um susto.

Leonor não respondeu de imediato. O corpo pesava como se tivesse corrido léguas pela levada acima. Olhou pela janela. A colina estava lá, o pedregulho também, agora só rocha sob a luz do dia.

Nos dias que se seguiram, a família não falou muito. O Manuel voltou ao trabalho na levada. A Rosa tratou da horta e das galinhas. Leonor ajudava a apanhar ovos, a varrer o quintal, a levar água do tanque. Falava pouco, como sempre. Mas observava de outro modo.

Uma tarde, semanas depois, estava sozinha no muro quando o luar começou a nascer, ainda fraco. Olhou para a colina. A sombra formou-se devagar: o homem de capa, imóvel. Leonor sentiu o aperto antigo no peito, mas não fugiu. Ficou quieta, respirando o ar frio que cheirava a terra molhada e fumo de lenha.

— És só uma pedra. Não me metes mais medo. Desiste!

Pareceu-lhe milagre, mas, a verdade é que sombra não desceu. Ficou onde sempre estivera. A pedra obedecera-lhe. E isso encheu-a de orgulho. E pensou para consigo, como se estivesse a falar com o vulto da montanha: – Agora quem manda sou eu. Por isso, não me chateies. Fica sempre aí, para sempre. Não há mais discussão.

Leonor estendeu a mão pequena no ar, como se tocasse na distância entre ela e a rocha. Os dedos tremeram um instante. Depois baixou-a. Tarefa concluída.

Dentro de casa, a mãe chamou-a para o jantar. A voz era a mesma: cansada, mas quente e familiar. Leonor levantou-se, sacudiu o pó da saia e entrou. A porta rangeu ao fechar-se atrás dela.

Na colina, o pedregulho permaneceu sob o luar, silencioso. A Levada do Norte corria em direção à Encumeada, levando água do Paul da Serra para o sul. E a noite, em São Vicente, seguiu o seu curso, leve como o luar sobre a pedra.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *