Quarta-feira, Junho 3, 2026
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O fantasma do Paul

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Nas colinas do vale de São Vicente que descem do Paul da Serra, perto da levada do Norte, um pouco abaixo do Caramujo, ergue-se um pedregulho enorme, sui generis. Perfeitamente visível de dia, quando não há nuvens, à noite transforma-se numa sombra escura que o luar destaca.

O basalto escuro, coberto de musgo, parece representar um homem de capa subindo a montanha. Mas, quando o luar o toca em cheio, dando-lhe maior contraste, um vulto negro alonga-se e toma a forma de um homem sombrio,  alto, de capa larga, capuz, imóvel na vertente.

Leonor tinha seis anos em 1962. Pequena para a idade, cabelo escuro cortado à tigela pela mãe, olhos que pareciam guardar tudo sem pressa de dizer. Falava pouco. Preferia olhar. Sentava-se no muro do quintal e via o pai regressar da levada ao fim do dia, botas pesadas de lama vermelha, mãos gretadas. Ouvia as conversas dos adultos sobre milho que mal dava para o ano, sobre túneis que o governo mandava abrir para levar mais água ao sul, sobre homens que embarcavam para o continente ou para a Venezuela em busca de vida menos dura. A ilha era linda, diziam, mas exigia.

A casa da família ficava no sítio das Ginjas, um punhado de paredes de pedra basáltica e telhados de colmo que o vento norte vergava todos os invernos. O melhor, no entanto, era o terreiro, o quintal, onde, nas noites quentes do verão, a família se reunia.

Ali vivia Manuel, pai de Leonor, que desde rapaz abria caminhos nas levadas com picareta e pólvora. Rosa, a mãe, cuidava da casa, criava galinhas, tratava da horta e cosia até tarde à luz do candeeiro. O avô António, curvado pelos anos de carregar água e lenha, e duas irmãs mais velhas, que ajudavam na cozinha e no campo, completavam a casa.

Todas as noites, depois da sopa de trigo e batata e umas talhadas de carne de porco salgada, a família reunia-se no quintal quando o tempo deixava. O pai acendia o cigarro, a mãe remendava roupa, o avô contava histórias de quando as levadas se cavavam só à mão e os fantasmas eram mais comuns que os forasteiros.

Leonor já era grandita, mas gostava de aconchegar-se no colo da mãe, quando esta estava nos seus dias de boa disposição. Aninhava-se no seu colo ou então sentava-se num banquinho baixo, encostada às pernas da mãe, que lhe acariciava os cabelos de vez em quando.

Invariavelmente, Leonor fixava o vulto da montanha. Havia como que uma espécie de atração. Todos os dias o olhava e, por vezes, parecia-lhe que ele se movia. Esfregava os olhos e dizia para consigo: — É só uma pedra.

De alguma forma, em especial à noite, deixou de se sentir segura. Não sabia explicar porquê, mas, a partir de determinada altura, parecia-lhe ter ouvido algo. Como se o vulto a chamasse. Um velho a chamá-la, com voz rouca. O pior é que passou a sonhar com isso, e as noites mal dormidas passaram a ser mais do que muitas.

O medo instalou-se devagar. Primeiro um aperto no peito quando a lua aparecia forte. Depois a certeza de que a sombra se mexia, muito ligeiramente, quando ninguém olhava. Leonor não contava. Temia que rissem, como riam das histórias do avô. Mas o medo crescia. À mesa, deixava cair a colher. De noite, acordava a chorar sem saber porquê.

Uma tarde de Outono, o pai levou-a até à Levada do Norte. Queria mostrar-lhe como a água corria limpa, vinda lá de cima, e como alimentava as hortas das Ginjas. Leonor caminhou ao lado dele, mão dada, sentindo o cheiro a terra molhada e erva cortada. Manuel parou na beira da levada e disse, com a voz rouca de quem fumava desde os doze anos:

— Esta água é o sangue da ilha, menina. Sem ela, nada cresce. Os nossos avós morreram a abri-la.

Leonor assentiu, mas os olhos desviaram-se para a colina. O pedregulho estava quieto à luz do dia, estava mesmo ali, a alguns metros de distância, acima da linha da levada. Apenas pedra coberta por alguma vegetação. O pai reparou.

— Tens medo daquela rocha, não tens?

Ela baixou a cabeça. Não respondeu. O pai baixou-se ao nível dela, olhou-a nos olhos, apertou-lhe a mão com mais força e disse-lhe simplesmente:

— Não tens de ter medo. É só uma pedra que, de longe, parece um homem de capa. Só isso. Não é?

— Sim, pai, é verdade, mas à noite mete-me medo. Parece que ele me chama e às vezes não durmo bem.

— Eu sei. Tua mãe já me falou nisso. Por isso é que te trouxe aqui. Para veres que é apenas uma pedra.

— Não é isso, pai. Eu sei que é uma pedra. Mas à noite parece que ela se transforma e se torna num fantasma. É aí que tenho medo.

— Pronto. Mas tens de saber que isso não é verdade. Que é só imaginação tua.

Manuel pegou na filha ao colo, deu-lhe um beijo na cara, abraçou-a e acrescentou:

— Não vamos mais falar sobre isso. Eu estarei sempre aqui para te proteger. Não tens que ter medo.

Leonor não respondeu, agarrou-se com mais força ao pescoço do pai, sentiu o seu coração no seu, deu-lhe um beijo e sentiu-se confortável. Coisa que não acontecia há algum tempo.

A tendência incontrolável de olhar para a montanha à noite, no entanto, não desapareceu. Por mais que tentasse evitar, os seus olhos ficavam vidrados no vulto.

Chegou a noite de lua cheia de Novembro. O ar frio e seco, o céu limpo. A família estava no quintal. Rosa servia pão de batata barrado em manteiga, acompanhado com chá de funcho. O avô falava da guerra, dos barcos americanos que paravam no Funchal. As irmãs riam baixinho. Leonor, enrolada num xaile da mãe, olhava fixamente para a colina.

O luar batia em cheio. A sombra formou-se perfeita: ombros largos, capa até ao chão, cabeça ligeiramente inclinada como se observasse a casa. Leonor sentiu o coração acelerar. A sombra pareceu mover-se. Primeiro um braço, depois o corpo inteiro, descendo devagar a encosta, como se caminhasse sobre a levada invisível.

— Pai… — murmurou.

Ninguém ouviu. O vulto aproximava-se. Leonor via as pregas da capa, o contorno do chapéu, a mão que parecia estender-se. O medo subiu-lhe pela garganta como água fria. O quintal, as vozes, o cheiro do pão afastaram-se. Só existia aquele homem vindo da colina, direito a ela.

Gritou. Um grito fino que cortou a noite. O pai virou-se. A mãe deixou cair a agulha. Leonor como que se apagou.

Acordou no dia seguinte, na cama estreita que partilhava com a irmã. Luz cinzenta entrava pela janela. A mãe passava-lhe um pano húmido na testa. O pai fumava junto à porta, olhar no chão. O avô rezava o terço baixinho.

— Dormiste muito, minha filha — disse Rosa, voz cansada e quente. — Foi só um susto.

Leonor não respondeu de imediato. O corpo pesava como se tivesse corrido léguas pela levada acima. Olhou pela janela. A colina estava lá, o pedregulho também, agora só rocha sob a luz do dia.

Nos dias que se seguiram, a família não falou muito. O Manuel voltou ao trabalho na levada. A Rosa tratou da horta e das galinhas. Leonor ajudava a apanhar ovos, a varrer o quintal, a levar água do tanque. Falava pouco, como sempre. Mas observava de outro modo.

Uma tarde, semanas depois, estava sozinha no muro quando o luar começou a nascer, ainda fraco. Olhou para a colina. A sombra formou-se devagar: o homem de capa, imóvel. Leonor sentiu o aperto antigo no peito, mas não fugiu. Ficou quieta, respirando o ar frio que cheirava a terra molhada e fumo de lenha.

— És só uma pedra. Não me metes mais medo. Desiste!

Pareceu-lhe milagre, mas, a verdade é que sombra não desceu. Ficou onde sempre estivera. A pedra obedecera-lhe. E isso encheu-a de orgulho. E pensou para consigo, como se estivesse a falar com o vulto da montanha: – Agora quem manda sou eu. Por isso, não me chateies. Fica sempre aí, para sempre. Não há mais discussão.

Leonor estendeu a mão pequena no ar, como se tocasse na distância entre ela e a rocha. Os dedos tremeram um instante. Depois baixou-a. Tarefa concluída.

Dentro de casa, a mãe chamou-a para o jantar. A voz era a mesma: cansada, mas quente e familiar. Leonor levantou-se, sacudiu o pó da saia e entrou. A porta rangeu ao fechar-se atrás dela.

Na colina, o pedregulho permaneceu sob o luar, silencioso. A Levada do Norte corria em direção à Encumeada, levando água do Paul da Serra para o sul. E a noite, em São Vicente, seguiu o seu curso, leve como o luar sobre a pedra.

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