Augusto e Augusta casam-se junto à capelinha do Livramento, numa casa nova erguida sobre a Ribeira Seca. Entre o pudor dos costumes antigos, a descoberta do amor e a crença num destino escrito desde sempre, a vida dos dois transforma-se numa história breve, mas intensa.
Augusto e Augusta casaram-se no tempo em que a vida lhes parecia eternamente imutável, enquanto o mundo girava numa roda-viva de loucura coletiva. Os votos de fidelidade dos dois augustos nubentes deram-se na velha capelinha do Livramento, templo que fazia paredes meias com a casa onde iriam viver, provavelmente até morrer. Parecia um contrato para a eternidade, abençoado pela vizinha capela que lhes garantia a graça divina e a proteção necessária para o futuro que logo ali começava.
A casa de pedra, de quatro águas, com as paredes cobertas de alvenaria e pintada de branco, era coberta por telha de canudo — uma inovação e uma qualidade que poucos vizinhos poderiam reivindicar. Dois pequenos quartos de dormir, uma salinha, uma casa de banho moderna para a época, com pia, banheira e sanita, e uma cozinha generosa davam ao jovem casal um estatuto pouco habitual no contexto da vizinhança.
O pequeno quintal era, ao mesmo tempo, um terraço sobranceiro à ribeira que corria mais de uma dezena de metros ao fundo. Ribeira Seca, assim batizada porque, regra geral, só se lhe via água a correr nos invernos. Do terreiro da pequena casa (um casarão para os vizinhos), Augusto e Augusta perdiam-se muitas vezes a olhar para o fundo da ribeira, em especial quando as águas limpavam as pedras e corriam a precipitar-se mais adiante para o Cabouco, em três quedas de água consecutivas, deixando atrás de si o ruído natural que, de certa forma, os embalava, em especial nas noites frias.
Na verdade, Augusto e Augusta não tinham propriamente vizinhos próximos. A uns 200 metros para sul havia uma casa grande, de dois andares, e nada mais. Na encosta, do outro lado da estrada, a norte da capela, vivia a Dona Ester, dona e senhora de quase todos aqueles terrenos e que tinha vendido um pequeno lote ao pai de Augusta para este construir uma casa para a filha. Foi mais uma oferta do que uma venda, já que, desta forma, Dona Ester — como toda a gente lhe chamava, apesar de ser uma mulher dura, fria e implacável — sabia ser generosa para quem a ajudava e a respeitava. Além de que também pagava uma dívida pelos trabalhos que o homem não se cansava de fazer na grande propriedade, nomeadamente nas muralhas de contenção e na manutenção do solar, sempre a precisar de pequenas obras.
Do outro lado da ribeira, depois da curva que rodeava a capela e da ponte, havia meia dúzia de casas bem compostas, mas suficientemente distantes para impedir qualquer invasão de privacidade à casa dos dois recém-casados. No verão, quando a ribeira era mesmo seca, dando razão ao nome, Augusto e Augusta gostavam de passar o serão no terreiro, por vezes pendurados no banco de cimento que dava diretamente para a ribeira. Ali se aconchegavam, até porque, pela madrugada fora, o fresco dava-lhes maior conforto do que o calor e o incómodo da cama de palha de milho que lhes tinha sido oferecida aquando do casamento. Eles agradeceram a oferta dos padrinhos, mas, logo na primeira noite, detestaram a sensação. O colchão era incómodo, as palhas por vezes pareciam espetos na pele e por pouco não impediram a consumação do casamento.
Augusta não parava de se queixar, até que Augusto lhe propôs: — Vamos para a rua. Estendemos umas mantas em cima do banco de cimento. Está calor. Ficamos melhor lá.
Dito e feito. O que foi uma solução de emergência para a noite de núpcias tornou-se um hábito, utilizado com muita regularidade quando os calores do tempo e do desejo se conjugavam, o quarto não era a melhor solução e a espera não era opção. Nem um nem outro receava ser observado. Os vizinhos estavam longe e os ruídos do prazer afogavam-se na brisa da noite e das árvores.
De certa forma, o colchão de palha fora uma bênção, pensava consigo própria Augusta quando, sozinha, relembrava o início da sua descoberta do prazer. Foi uma surpresa absoluta. Tanto para um como para outro. Na verdade, nenhum sabia o que esperar. Eram os dois jovens, inexperientes, e a preparação para a intimidade era tabu.
— Hás de descobrir — disse-lhe a mãe na véspera do casamento.
— Descobrir como? — perguntou-lhe a filha.
— Entrega-te. Põe-te nua e entrega-te. Ele há de saber o que fazer — e mais não disse.
Augusta magicou sobre o que queria a mãe dizer com “entregar-se”. “Bem — pensou ela — seja lá o que for, é o que farei”. Augusto, ao contrário do que pensava Augusta, também não sabia o que esperar. As suas duas décadas de vida não lhe tinham proporcionado nenhuma experiência, apesar de, dizia-se, haver duas mulheres nas redondezas que recebiam visitas masculinas noturnas e onde eram muito bem recebidos: a Maria Cachopa, que vivia num palheiro para os lados das Ginjas, e a Farinheira, também num palheiro no Pé da Corrida.
As conversas que Augusto ouvia na tasca também não ajudavam muito. Mais do que aprender, os homens desconversavam e contavam piadas, tanto mais que o álcool impedia qualquer conversa séria. As risotas sobrepunham-se a qualquer explicação plausível e Augusto não tinha tempo nem pachorra para aquele tipo de diálogos absurdos e ininteligíveis. Melhor dizendo, não tinha paciência para aturar homens bêbados e conversas porcas ou menos limpas. Não era que ele fosse religioso — pelo contrário — mas havia ali algo que não encaixava com o seu modo de ver as coisas.
A conversa, no entanto, animou na véspera do seu casamento. Entre dicas, risotas, exageros, meias-verdades e frases inconsequentes, Augusto, por obrigação, teve de juntar-se aos copos e, portanto, nada do que foi dito ou ensinado ficou guardado na memória.
— Vais lá e tiras-lhes os três. É só isso! — repetiam todos e voltavam a beber mais um copo de um quarto de litro de vinho seco, soltando gargalhadas, levando Augusto para o meio da tasca e obrigando-o a simular o ato.
No dia do casamento, como era previsível, Augusto acordou tarde com uma dor de cabeça monumental. No entanto, mais do que a dor que o atormentava, a sua principal preocupação era qual seria a sua condição ao princípio da tarde, quando tivesse de vestir o fato e subir as escadas da capela do Livramento para receber a noiva no altar.
— Não consigo — dizia para consigo mesmo. — Estou perdido. O pai dela mata-me.
Ciente do perigo, pediu à mãe que lhe arranjasse qualquer coisa que lhe aliviasse as dores.
— Muita água, rapaz. Bebe água. E já te arranjo um chá de hortelã-pimenta. Onde é que já se viu? Chegar ao dia do casamento bêbado! Queres que a tua noiva te despache logo, é? Onde é que tinhas o juízo? — ralhou-lhe a mãe, enquanto preparava o chá e arranjava umas compressas de água fria para lhe colocar na nuca e na testa.
Seja como for, a mezinha da mãe, se bem que não lhe tivesse aliviado completamente as dores, foi suficiente, de tal forma que, quando chegou à capela para receber a sua Augusta, estava quase fino. Um banho de água fria também ajudou, de verdade.
— É de água fria que é para aprenderes — disse-lhe a mãe, enquanto lhe despejava um balde de água gelada em cima da cabeça.
— Vais ver que ficas melhor. Calor… bem… isso vais ter à noite com a tua noiva — e riu-se.
Com tudo isto, Augusto até deixou de pensar no que fazer à noite com a sua amada. Estava mais preocupado em parecer bem do que no resto. O que foi de grande ajuda, diga-se de passagem, porque, assim, passou-lhe o nervoso miudinho e centrou todas as atenções em agradar à sua futura mulher. Apesar de o casamento ter sido uma espécie de contrato familiar, Augusto e Augusta gostavam um do outro genuinamente. Não é que tivessem convivido muito, pelo contrário. As regras eram muito rígidas, mas a empatia mútua começava pelos seus nomes. Desde criança que se admiravam.
— Acho que nascemos um para o outro. Estávamos destinados desde sempre — disse à noiva quando, um mês antes, o casamento foi oficializado e marcado.
— Também acho — disse-lhe Augusta que, enrubescida, o olhou com profundidade, confundindo-o, mas, através daquela troca de olhares, dando-lhe a certeza de que o destino estava traçado desde os primórdios.
Ele era o homem da sua vida e ela seria, com certeza, a mulher da vida dele. Até ao casamento só se falaram meia dúzia de vezes, em trocas de olhares onde procuravam a profundidade do sentimento e a certeza do passo que estavam para dar. Mais também não era possível. Nos dois únicos passeios que deram a seguir à missa de domingo tiveram sempre a companhia da tia de Augusta, uma velhota solteirona, beata dos sete costados, que impedia qualquer avanço de um ou de outro.
Augusto e Augusta não eram propriamente de famílias ricas. A guerra, apesar de longínqua, sentira-se no dia a dia de todos, e o facto mais visível era a fuga dos homens mais capazes para o Brasil, Venezuela, Curaçau, eventualmente os Estados Unidos e África do Sul. Todavia, Augusto nunca teve esse desejo. Augusta tão-pouco. O que viria a ser o seu destino estava “escrito nas estrelas” e, por isso, a vida fazia-se um dia de cada vez. O pai de Augusta era oficial de pedreiro, o que lhe dava um certo estatuto. Augusta nascera de um parto complicado e algo mudou a vida do casal. Apesar de várias gravidezes, Maria, a mãe de Augusta, abortava sucessivamente: duas, três, quatro vezes. À quinta veio o diagnóstico final: não podia ter mais filhos. Religiosa, Maria rezava o terço todos os dias e subia de joelhos a escada do Livramento, mas o milagre nunca aconteceu. Quando o médico lhe demonstrou que não poderia ter mais filhos, Maria limitou-se a aceitar, convicta de que, se Deus lhe tinha dado uma filha única, isso significava que essa filha só podia ser especial.
O pai, apesar de sempre ter querido ter filhos varões, não teve outro remédio senão aceitar também a inevitabilidade do destino e assumiu a raridade da filha como uma bênção. Desta forma, Augusta passou de primogénita a filha única, jóia de família e abençoada, que tanto o pai como a mãe protegeram até ao limite. Não foi, por isso, de admirar que, quando Augusta fez 18 anos, o pai tivesse decidido iniciar a construção de uma casa para a sua princesa. E que melhor lugar senão junto à capela do Livramento? Era uma espécie de entrega à proteção divina para que a Virgem protegesse a sua criança.
Era uma noite de agosto, dois meses após o casamento, quente e sem vento, como só aquele vale sabia guardar o calor depois de o sol se ir embora. As mantas estavam estendidas no banco de cimento, como tantas outras vezes, e a ribeira, lá em baixo, estava seca e quieta, com as pedras brancas visíveis mesmo com a pouca luz que a lua deixava passar entre as nuvens. Estavam os dois enlaçados quando Augusta escorregou. Não foi nada — um movimento errado, um desequilíbrio de meio segundo, o corpo que traiu o instante. Augusto sentiu a mão dela escapar-se-lhe entre os dedos antes de perceber o que estava a acontecer. Houve um grito — curto, surpreendido, quase incrédulo — e depois o silêncio.
Um silêncio diferente de todos os outros. Augusto ficou de joelhos no banco, com as mãos agarradas ao parapeito, a olhar para baixo. A escuridão do fundo da ribeira não lhe devolvia nada. Chamou-a. Uma vez com voz firme, como quem ainda espera resposta. Uma segunda vez com a voz já partida. Uma terceira que não foi bem um nome — foi mais um som que saiu de dentro dele sem pedir licença. Silêncio.
Ficou assim, não sabia quanto tempo. Tempo suficiente para sentir o frio do cimento nas palmas das mãos. Para reparar que as mantas ainda tinham o calor dos dois. Para olhar para a janela da casa, para a luz apagada lá dentro, para a capelinha ao lado com a porta fechada e toda a gente a dormir como se nada tivesse acontecido. Pensou na mãe. Pensou no sogro, que tinha construído aquela casa com as próprias mãos para dar um lar à filha. Pensou nas manhãs de domingo e no cheiro do pão que Augusta punha a cozer à sexta-feira. Depois, parou de pensar.
“Nascemos um para o outro” — tinha ele dito um mês antes do casamento, e acreditara em cada palavra. Não como quem diz uma coisa bonita, mas como quem reconhece uma verdade que existia antes de ele próprio existir.
Olhou uma última vez para o céu. Agosto estava cheio de estrelas, indiferente e magnífico como sempre.
Não chamou ninguém. Não havia nada nem ninguém para chamar. O destino estava traçado.
Augusta e Augusto. Para a eternidade.
A casa ficou fechada. A capelinha continuou aberta.
A ribeira, nesse inverno, correu mais do que nunca.