Duas pequenas formigas vivem debaixo de uma pedra num jardim cheio de flores. Quando percebem que os celeiros estão quase vazios e o Inverno se aproxima, a Formiga Espertalhona passa a noite acordada a imaginar uma solução luminosa.
Era uma vez duas formigas. Viviam debaixo de uma pedra, a um canto de um jardim cheio de flores coloridas, na companhia de mais outras cinco mil formigas. À volta dos canteiros do jardim, um enorme campo de relva estendia-se de tal maneira que, aos olhos das duas formiguinhas, parecia não ter fim.
Certo dia, depois do trabalho, a Formiga Valente e a Formiga Espertalhona, assim se chamavam as duas amigas, subiram a uma pedrinha para apanharem os últimos raios de sol do dia que escurecia.
— O Verão está a chegar ao fim e os celeiros estão quase vazios — dizia a Formiga Espertalhona, esfregando as patas para as limpar — esta vida não devia ser assim.
— Foi sempre assim! — respondeu logo a Formiga Valente.
— Mas não devia — murmurou quase conformada a Formiga Espertalhona.
— Mas porquê? — perguntou a outra.
— Ora essa — exclamou indignada a Formiga Espertalhona. — Então tu, que és tão forte e inteligente, ainda não percebeste que se não houvesse noite poderíamos trabalhar mais e assim arranjar mais alimentos para o Inverno?
— Nunca tinha pensado nisso.
— Mas vou pensar eu! — exclamou com convicção a Espertalhona.
E pôs-se então a pensar. Sem mais nem menos, desceu da pedrinha onde se encontrava, percorreu o longo corredor até ao dormitório do formigueiro e foi-se deitar.
Debaixo da pedra onde viviam, havia um enorme rebuliço, com as formigas mais atrasadas a arrumarem as suas colheitas para depois descansarem.
Cabisbaixa, a Formiga Espertalhona passou sem cumprimentar quem quer que fosse, nem mesmo a Formiga Chefe que, ao vê-la naquele estado, deu um salto e pôs-se à frente dela.
— Ó Espertalhona! Então não se diz boa noite a ninguém? — questionou a Formiga Chefe com ar sério e uma voz que mais parecia um trovão.
— Desculpe — disse atrapalhada a Espertalhona. — É que… é que eu tenho cá um problema para resolver. Boa noite.
Sempre cabisbaixa, levando uma pata à cabeça, seguiu em frente e, sem se importar com o barulho que ainda havia, foi-se deitar, tendo atrás de si os olhos da Formiga Chefe que, arregalada, não soube mais que dizer.
«Efetivamente — pensava a Espertalhona — se conseguíssemos que a noite não existisse, poderíamos trabalhar mais e aproveitar outras coisas que não se conseguem juntar durante o dia. Mas como é que vamos descansar? Ah! É verdade, quando é que vamos descansar?… Se todas fôssemos fortes como a Valente era outra coisa… mas assim…»
— Então, já resolveste o problema? — interrompeu baixinho a Formiga Valente, que, entretanto, se deitara ao seu lado.
— Qual problema?
— O de a gente trabalhar à noite, sempre…
— Ah! Psss… tem calma, deixa-me pensar. Não paro de pensar nisso. Amanhã digo-te qualquer coisa. Dorme.
A noite escura caiu por fim sobre a pedra do jardim. Debaixo dela viviam cinco mil formigas trabalhadoras.
Quando o frio se fez sentir, encostaram-se umas às outras. O silêncio era quase total. Apenas se ouvia o ressonar da Formiga Chefe, que, sozinha, dormia um sono profundo, bem aconchegada num fio de lã recolhido numa das suas vistorias pelos arredores.
Encostada à Formiga Valente, a Espertalhona não pregava olho. Dentro da sua cabeça passava um mundo de ideias umas atrás das outras, tentando resolver o seu problema. Mesmo quando tentava fechar os olhos, o seu pensamento não parava. Entretanto a noite foi passando e, quando era quase madrugada, adormeceu.
De repente, ouviu a Valente que a puxava com todas as suas forças.
— Levanta-te. A Chefe já anda por aí a ver quem ainda está a dormir.
— Todas de pé! — gritou a Chefe. — Hoje — disse em voz muito alta para que todas ouvissem — temos que encher o novo celeiro. O Verão está quase a acabar e há por aqui muita formiga mandriona. Quem não trabalhar o suficiente vai passar a dormir lá em cima, na relva. Acabou-se a brincadeira… Ouviram?
Os gritos da Formiga Chefe entravam pelos ouvidos de todas as outras formigas de tal maneira que ninguém se atreveu a levantar a cabeça, ainda por cima numa altura em que mal tinham acordado.
— Vamos! — insistiu a Chefe.
— Espere… espere — gritou do outro lado a Formiga Valente.
Todas as formigas, boquiabertas, viraram as suas cabeças e os olhos bem arregalados para ver qual era a que assim falava.
— A Formiga Espertalhona — continuou a Valente — esteve toda a noite a pensar.
— E o que é que ela sabe fazer a não ser pensar? — perguntou a Chefe, ao mesmo tempo que dava uma enorme gargalhada, no que foi logo seguida por todas as outras.
Acabada a gargalhada geral, disse então a Chefe:
— Ela que fale!
Todas se puseram em silêncio.
— Sabemos — começou por dizer a Espertalhona — que a nossa colheita deste ano tem sido fraca. Por isso, com a ajuda da Formiga Valente, pus-me a pensar numa maneira de podermos trabalhar mais, para podermos ter mais alimentos para o Inverno.
— E o que é que descobriste? — perguntou a Chefe, intrigada.
— Bom — continuou a Espertalhona — a única maneira é não só trabalharmos de dia como de noite.
— Isso não! — protestaram todas as formigas em coro, provocando uma enorme confusão.
— Calma, calma — teve de gritar a Espertalhona para se poder fazer ouvir, mas também mais segura de si, no que era ajudada pela Valente. — Para que isso seja possível, continuou, temos de trabalhar por turnos. A Formiga Chefe faz um horário de trabalho: enquanto umas trabalham, outras descansam.
— Só há uma coisa que não estou a perceber — interrompeu a Chefe. — A tua ideia é muito engraçada, mas eu não estou a ver como é que vamos trabalhar às escuras.
Enchendo o peito de ar e encavalitando-se em cima da Valente, a Formiga Espertalhona começou então a expor o seu plano. Todas as outras formigas ficaram em silêncio, um silêncio que era apenas interrompido pelo chilrear dos pássaros que também acabavam de acordar.
— Ao nosso lado — começou por dizer — vivem os pirilampos.
— Os pirilampos não são para aqui chamados — protestou o Formigão Zaragateiro, que arranjava brigas por tudo quanto era canto.
— Silêncio! — gritou novamente a Chefe, adiantando: — Só depois da Espertalhona falar é que vocês também o poderão fazer.
A Espertalhona, que até não era vaidosa, sentiu uma pontinha de orgulho e, mais confiante, continuou:
— De dia, os pirilampos dormem e, à noite, andam à procura de alimentos. Por isso, proponho que façamos um acordo com eles. Enquanto eles andam por aí ao Deus-dará, passam a andar à nossa volta, iluminando-nos o caminho.
— Viva a Formiga Espertalhona! — gritou a Formiga Valente, levantando a sua amiga.
— Viva! — responderam em coro todas as outras.
— Só que — disse a Formiga Chefe, do seu canto, para que toda a gente ouvisse — como é que os vamos convencer a servir de lampiões?
— Proponho — disse então a Valente — irmos nós as três, eu, a Espertalhona e a Chefe, falar com o rei dos pirilampos. Em troca da sua luz, nós podemos oferecer um pouco do alimento que conseguirmos. Assim ficamos pagos.
— Viva a Formiga Valente! — gritou desta vez a Espertalhona com toda a força, quase caindo de papo para o ar.
— Viva!… Viva!…
E assim se fez. Com um grande ar de cerimónia, lá foram as três falar com o Rei dos Pirilampos. Este concordou plenamente e só lamentou que alguém não se tivesse lembrado daquilo mais cedo. Ordenou então aos seus guardas que, a partir daquela data, todos os pirilampos tinham como obrigação iluminar as formigas de noite enquanto estas trabalhavam. Em troca, as formigas comprometeram-se a dar de comer aos pirilampos durante o Inverno.
Para celebrar o acordo, o Rei dos Pirilampos organizou uma grande festa para essa noite e convidou todas as formigas da pedra do jardim.
— Estás a ver? — disse a Espertalhona para a Valente enquanto saboreava um grão de açúcar. — A partir de agora as formigas trabalhadoras não mais passarão fome durante o Inverno.
— Os amigos são para as ocasiões — interrompeu um pirilampo que escutava a conversa.
— Pois é! — responderam as duas amigas, rindo de contentamento.
GM | Agosto 2001

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