Há paredes que se leem de pé, com o pescoço dobrado para trás. Esta fica na foz da Ribeira da Janela, no norte da ilha, onde o basalto se desfaz devagar em direcção ao mar.
A água, o sal e o vento trabalharam-na durante séculos. Ficaram cavidades fundas, e algumas têm a forma exacta de uma boca aberta a meio de uma palavra. Outras são órbitas. Quem passa e levanta os olhos sente-se contado, um por um, como num recenseamento antigo.
Dentro de vários buracos repousam seixos redondos, polidos pela água. Foram levados até ali por mãos, e não pelo mar. Alguém os apanhou na praia, subiu até à parede e escolheu um nicho, como quem deixa um recado ou paga uma promessa. Ninguém assinou. Nem sei se quem o fez saberia dizer porquê. A pedra guardou-os a todos.
Dizem que a rocha é muda. Não creio. Fala numa língua que não gasta verbos, só tempos: o da erupção, o do arrefecimento, o da ferrugem que lhe tingiu um canto de ocre. Cada fractura é uma frase que levou milhares de anos a escrever. Nós vivemos uma fracção insignificante desse tempo e respondemos com seixos. Ouvimos apenas uma ou duas sílabas e deixamo-nos embalar pela sua beleza implícita.
Os livros de baptismo e os róis de confessados que frequento são conversa de ontem ao lado disto. E contudo é aqui, neste gesto pequeno e repetido, que a parede parece ter encontrado quem lhe responda.
Joana
22/10/2026Bom texto, e boas fotografias. 🙂