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O Chão da Fajã

Gonçalo Mendes Gonçalo Mendes
  • Out 18, 2026

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O vale de São Vicente tem essa particularidade: a humidade não se limita a cair do céu, ela sobe da terra, entranha-se nas paredes de pedra e dita o temperamento dos homens. Ali, a montanha é uma presença vertical que vigia as vidas, esmagando qualquer pretensão de segredo. O destino, quando se quer esconder, escolhe a calçada ou o soalho.

O Convidado e o Vinho

António do Laranjal desapareceu no outono de 1954, quando as uvas já iam no mosto e o cheiro a terra pisada dominava os caminhos. Era um homem de gestos largos, daqueles que usam o riso para desarmar a desconfiança dos maridos. A vaidade masculina, que no norte da ilha se manifesta com a mesma crueza com que o mar bate nas rochas do Calhau, era nele um vício quase inocente. António julgava que as mulheres eram propriedades de fronteiras móveis, fáceis de transpor quando o dono se distraía com a lida das vinhas.

Naquela tarde de outono, o sol cortava as falésias de São Vicente com uma lâmina de luz cinzenta. Silvestre, cujo ciúme era tão conhecido na freguesia como a sua obstinação em não dar esmola à igreja, mandara o recado pelo rapaz da padaria. Era o seu aniversário, ou talvez fosse apenas o pretexto de quem precisava de ver os seus suspeitos reunidos à volta de uma mesa para lhes medir o pulso.

António chegou cedo, empunhando uma garrafa de vinho generoso, embrulhada num papel pardo que o suor das mãos já amaciara.

— É do melhor que se fez nas Feiteiras — disse António, poisando a garrafa sobre a mesa de pinho da cozinha. — Guardado desde a colheita velha. Para o amigo Silvestre não há de ser menos.

Silvestre, que tinha as mãos grossas de quem pega nas pedras com a familiaridade de quem lhes conhece o peso, olhou para a garrafa com um esgar que tanto podia ser de agradecimento como de mofa.

— O vinho das Feiteiras tem o diabo no corpo, António. Entra suave e depois racha as paredes do estômago a quem não tem as tripas calejadas. Mas senta-te. A noite vai ser longa e a minha mulher ainda anda de volta do bolo.

A esposa, que todos sabiam chamar-se Maria, mas a quem poucos prestavam outra atenção que não fosse a de lhe vigiar os passos quando ia à fonte, apareceu à porta com uma travessa de carne de vinha-d’alhos. Tinha os olhos baixos, aquela expressão de resignação das mulheres que se habituaram a que a sua presença fosse apenas um detalhe doméstico entre a mobília de vergar e os potes de banha.

— Boa noite, senhor António — disse ela, sem erguer o olhar além da fivela do cinto dele.

— Muito boa noite, Senhora Maria. Está com muito bom aspeto. A festa de hoje parece que lhe deu outra alma.

— A alma dela está muito bem entregue, António — atalhou Silvestre, servindo um copo de aguardente que tirara de um garrafão empalhado. — Bebe. Para limpar o pó do caminho. O ar do Laranjal é húmido e tu tens a garganta fraca.

Os outros convidados chegaram logo a seguir. Eram homens da vizinhança, pequenos proprietários e mirones profissionais da vida alheia, acompanhados pelas esposas, cujos xailes pretos pareciam uniforme de comício ou de velório. Sentaram-se no banco corrido da sala, onde o fumo dos cigarros Santa Maria depressa criou uma névoa que emprestava às caras uma solenidade fúnebre.

A Ceia das Meias-Palavras

A conversa corria lenta, típica dos jantares onde todos sabem mais do que o que dizem, guardando os trunfos para quando a poncha começasse a fazer efeito.

— Disseram-me no Calhau — começou João das Feiteiras, limpando os beiços à manga do casaco — que andas a pensar em ir para o Funchal, António. Que o negócio das terras por aqui já não te dá para os vícios.

António sorriu, aquele sorriso de rapaz que se sabe cobiçado e que as velhas do vale consideravam uma provocação ao Divino.

— O Funchal é bom para quem tem dinheiro para gastar no teatro ou nas esplanadas do cais, João. Eu gosto deste chão. A terra aqui é dura, mas dá o que se lhe pede. E o que não se pede, às vezes, vem ter connosco.

Silvestre, que mastigava a carne com uma lentidão metódica, quase bovina, levantou os olhos do prato.

— O problema de colher o que não se pede é que, às vezes, a colheita vem com espinhos, António. Ou com o dono da terra atrás, de foice na mão.

Um silêncio pesado instalou-se na mesa. Maria, que servia o vinho, deixou cair umas gotas sobre a toalha de linho cru. Silvestre olhou para a mancha vermelha como se fosse um presságio.

— Estás com as mãos trémulas, mulher — comentou ele, com uma voz desprovida de qualquer emoção. — Parece que viste uma alma do outro mundo.

— É do calor da cozinha, Silvestre — murmurou ela, recolhendo-se rapidamente para a escuridão do corredor.

— O calor da cozinha faz mal às mulheres, mas faz pior aos homens que gostam de se meter onde não são chamados — continuou Silvestre, voltando-se para os convidados. — Mas digam-me lá: como vai a colheita de Ponta Delgada? Ouvi dizer que lá pelos lados da igreja o senhor padre anda preocupado com o dízimo.

A conversa derivou para os assuntos habituais: as derrocadas na estrada nova, a falta de água nas levadas do cimo do vale e os preços que os comerciantes do Funchal pagavam pelo vime. Mas o ambiente tinha ficado irremediavelmente comprometido. Havia uma tensão subterrânea, como a água que corre por baixo do calhau sem que se lhe ouça o barulho, até que a terra cede.

Pelas onze da noite, os primeiros convidados começaram a despedir-se. A noite estava escura, sem lua, e a descida para o centro da freguesia exigia atenção para não se tropeçar nos degraus de pedra da calçada.

— Vens connosco, António? — perguntou João das Feiteiras, enquanto ajeitava o xaile da mulher à porta.

António olhou para Silvestre, que continuava sentado, com o copo na mão, imóvel.

— Ide andando, João. Eu fico mais um bocado a ajudar o Silvestre a dar cabo do vinho das Feiteiras. Temos umas contas de partilhas de terrenos para acertar.

— As contas da terra acertam-se melhor de dia, António — avisou João, com uma ponta de desconfiança na voz. — De noite, as estremas parecem todas iguais.

— Não te preocupes, João — disse Silvestre, erguendo-se finalmente. — Eu conheço bem as minhas estremas. E o António também as vai conhecer muito bem antes de a noite acabar.

A porta fechou-se com um baque seco. Na sala ficaram apenas Silvestre, António e a garrafa vazia sobre a mesa.

O Silêncio do Vale

Na manhã seguinte, o vale de São Vicente acordou com a habitual neblina a descer das escarpas, tapando as cumeadas e deixando a vila num isolamento que parecia eterno. A ausência de António só começou a ser notada ao terceiro dia, quando o barbeiro deu conta de que o jovem não aparecia para a habitual cavaqueira no largo.

O regedor da freguesia, um homem que usava a autoridade como quem usa um fato de domingo que lhe fica apertado nos ombros, subiu até à casa de Silvestre acompanhado por dois guardas.

Encontrou Silvestre no pátio, a limpar uma enxada com um punhado de palha seca.

— Boas tardes, Silvestre — disse o regedor, tirando o chapéu para limpar o suor da testa. — Consta lá em baixo que o António do Laranjal não aparece em casa desde a tua festa.

Silvestre não interrompeu o trabalho. Continuou a raspar a ferrugem do ferro da enxada com uma paciência de pedreiro.

— O António? Esse rapaz nunca teve poiso, senhor regedor. Naquela noite bebeu mais do que devia e andava a falar que a ilha era pequena para as ambições dele. Disse que ia apanhar o autocarro para o Funchal e de lá embarcar para a Venezuela. O dinheiro dele não era muito, mas a vaidade chegava-lhe para o bilhete de terceira classe.

— Mas ele não se despediu da família, Silvestre — insistiu o regedor, olhando de soslaio para a janela da cozinha, onde a silhueta de Maria se vislumbrava por trás dos vidros embaciados.

— A família do António é a taberna e as mulheres dos outros, senhor regedor. Despedidas são para quem tem sentimentos ou vergonha na cara. Ele não tinha nem uma coisa nem outra.

Os guardas bateram à porta da cozinha, mas Maria limitou-se a confirmar a versão do marido com um aceno de cabeça e uma voz que parecia vir do fundo de um poço seco.

— Sim, ele foi-se embora antes da meia-noite — disse ela, mantendo os olhos fixos no chão de terra batida. — Disse que ia apanhar o vapor.

— E não levou nada com ele? — perguntou um dos guardas.

— Levou o que tinha no corpo. Que era tudo o que ele achava que precisava para vencer na vida.

A investigação policial no vale de São Vicente tinha a eficácia das pescas em dia de tempestade: fazia-se muito barulho, mas trazia-se pouca coisa para terra. A suspeita do romance secreto entre António e a mulher de Silvestre era um daqueles segredos públicos que todos guardavam como moeda de troca para futuras conversas de compadrio. Ninguém queria ser o primeiro a apontar o dedo a um proprietário influente como Silvestre por causa de um rapaz de má reputação que, afinal de contas, bem podia estar a esta hora a enriquecer nas colinas de Caracas.

Sessenta anos depois, a Venezuela continuava a ser o destino de muitos, mas António do Laranjal nunca mais enviara uma carta ou uma notícia para o vale. O tempo, que em São Vicente corre com a mesma paciência das águas que escavam o fundo do vale, encarregou-se de apagar as testemunhas e os ressentimentos. Silvestre morreu na sua cama de ferro, com os sacramentos da igreja e o respeito dos vizinhos que lhe acompanharam o caixão até ao cemitério. Maria partira anos antes, consumida por uma melancolia que as vizinhas atribuíam à humidade da casa, mas que talvez fosse apenas o peso de saber que o chão que pisava todos os dias guardava um silêncio que ela não podia partilhar.

O Restauro

A casa da Fajã da Areia foi finalmente vendida em 2014 a um empresário do Funchal que vira no turismo rural a oportunidade de transformar a miséria antiga em luxo rústico. O projeto exigia a demolição das divisórias interiores e o nivelamento do soalho do piso térreo, onde as vigas de madeira já tinham cedido à podridão do tempo.

Os trabalhadores, homens novos vindos de outras paragens que não conheciam a história do vale, começaram a levantar as tábuas podres com pés-de-cabra.

— Isto aqui cheira a mofo que até faz doer a cabeça — comentou o encarregado, um homem gordo de apelido Neves, enquanto acendia um cigarro para disfarçar o odor a terra antiga.

— O chão cedeu a meio — respondeu o servente, apontando para uma depressão no centro da sala de jantar. — Parece que a terra abateu debaixo do soalho.

— Dá-lhe com a picareta. Temos de nivelar isto com cimento antes do fim da semana.

À terceira pancada, o ferro da picareta bateu em algo que não era pedra nem terra. Um som oco, quase como um lamento, ecoou no espaço fechado da sala em ruínas. O servente ajoelhou-se e começou a afastar a terra escura com as mãos.

— Chefe, venha cá ver. Há ossos aqui debaixo.

O encarregado aproximou-se, resmungando contra o atraso que aquilo ia causar na obra.

— Deve ser algum bezerro que os antigos enterraram aqui para não terem de pagar a taxa sanitária. Limpa isso e joga para o entulho.

— Isto não é nenhum bezerro, chefe. Olhe para a cabeça. Isto é um homem.

A polícia foi chamada, mas desta vez não subiram a calçada a cavalo nem traziam fardas de gala. Chegaram em carrinhas brancas, com caixas de plástico e pincéis para limpar os vestígios com uma delicadeza que os vivos do vale nunca tinham conhecido.

O esqueleto estava deitado de lado, numa posição quase de repouso, como se o homem se tivesse deitado ali para dormir uma sesta que durara sessenta anos. O tempo tinha consumido a carne, as roupas e as paixões, deixando apenas a estrutura calcária que é igual em todos os homens, quer sejam maridos traídos ou amantes ousados.

Junto às costelas do lado esquerdo, onde outrora batera um coração impaciente, repousava uma pequena faca de vindima. A lâmina de ferro estava reduzida a uma crosta de ferrugem que a terra tinha colado ao osso, mas o cabo de osso de cabra mantinha-se intacto, exibindo as ranhuras que o dono fizera para não lhe escorregar das mãos quando o suor ou o sangue lhe molhassem os dedos.

O médico-legista do Funchal, um homem habituado a lidar com a morte sem as ilusões dos romancistas, olhou para o relatório semanas depois.

— Causa da morte: traumatismo penetrante no tórax por arma branca. Data presumível: meados do século passado. Identificação: impossível sem testes de ADN comparativos, e não há familiares vivos conhecidos para fazer a recolha.

O processo foi arquivado no tribunal com a frieza burocrática de quem sabe que a justiça é uma invenção dos vivos que os mortos ignoram com soberba.

Hoje, a casa da Fajã da Areia exibe uma placa de turismo rural na parede exterior de pedra lavada. Os turistas de passagem bebem o vinho novo sobre o soalho de carvalho envernizado, elogiando a paz do vale e a autenticidade das gentes de São Vicente. Não sabem, nem precisam de saber, que a beleza da paisagem que fotografam se alimenta do silêncio que os homens enterraram debaixo dos pés, e que a terra, tal como as mulheres do vale, guarda os seus segredos com uma paciência que sobrevive a todas as investigações.

  • Esta é uma história de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.
2 comentários
    Frank Mendes
    18/10/2026

    Será ficção?

      Gonçalo Mendes
      18/10/2026

      Vá-se lá saber. A vida é feita de muitas coincidências, mas a criação deste conto é pura ficção.

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