Entre a rega das laranjeiras e a colheita diária da figueira, um arco-íris formado pelo jacto da mangueira inspira três experiências com figos — compota, licor e figos em calda — num relato do terreno em São Vicente.
Há dias em que o terreno em São Vicente nos dá mais do que aquilo que lá se planta. É o que tem acontecido nos últimos dias. Entre a limpeza, a rega e a colheita da figueira, a meio da tarde, em que a luz percorre o vale para se esconder por trás do Paul da Serra, suplicando por ser fotografada, formou-se um arco-íris a partir do jacto da mangueira, suspenso entre os ramos carregados de fruto verde.
As laranjeiras, apesar de tudo o que passaram, estão a recuperar bem — ainda assim, vão precisar de um tratamento mais radical. Vou esperar pela apanha das laranjas. As árvores parecem ter decidido, por conta própria, que ainda têm trabalho para fazer. As laranjas estão a crescer, firmes e verdes, penduradas entre a folhagem escura, e cada vez que passo por baixo delas sinto que a paciência, desta vez, está a ser recompensada.
Mas quem rouba as atenções, por agora, é a figueira. Este ano tem dado figos verdadeiramente notáveis, limpos, doces, com aquela polpa vermelha que só as boas figueiras conseguem oferecer. Dá para mim e para os pássaros. Eles também têm direito a comer. E dão-nos num ritmo que obriga a organização: de dois em dois dias há colheita nova, e um cesto cheio não se guarda para amanhã sem se transformar em desperdício.
Foi por isso que decidi, depois de prendar os amigos com alguns à hora do almoço, não escolher apenas um caminho, mas experimentar três em simultâneo. Primeiro, a compota clássica, cozida devagar até engrossar e ganhar aquele tom âmbar profundo que qualquer figo maduro promete. Depois, um licor, os figos a macerar, a libertar o açúcar e o aroma aos poucos, num processo que exige mais paciência do que trabalho. E, por fim, os figos em calda, inteiros ou em metades, a cozer em açúcar e água até ficarem translúcidos, prontos para guardar em frascos e reencontrar mais tarde, no Inverno, quando o vale já não tiver esta luz.
Os primeiros frascos já estão feitos, dois deles, bem fechados, com papel a proteger a tampa enquanto arrefecem, à espera de serem rotulados e guardados. Ainda é cedo para saber qual das três experiências vai resultar melhor, mas há qualquer coisa de reconfortante nesta repetição: colher, escolher, cozinhar, guardar. É um ritmo antigo, que o terreno impõe sem pressas, e que este ano, entre laranjeiras a recuperar e uma figueira generosa, tem sido especialmente grato de seguir.

Para as receitas, naturalmente fui à internet e escolhi três, que segui á risca.
Compota de figos
Ingredientes: 1 kg de figos maduros, 600 g de açúcar, sumo de 1 limão, água (q.b.)
Preparação: Lavam-se os figos e cortam-se em quartos ou metades, consoante o tamanho. Colocam-se num tacho com o açúcar e o sumo de limão, deixando repousar cerca de uma hora para os figos largarem o próprio sumo. Depois, leva-se ao lume brando, mexendo de vez em quando, até engrossar, cerca de 40 a 50 minutos. Está pronta quando, ao colocar uma pequena porção num pires frio, a compota enruga à passagem do dedo. Envasa-se ainda quente em frascos esterilizados, fechando de imediato, virando-os ao contrário.
Licor de figos
Ingredientes: 500 g de figos maduros, 1 l de aguardente (ou álcool a 40-50º), 300 g de açúcar, 1 pau de canela (opcional)
Preparação: Lavam-se e cortam-se os figos em pedaços, colocando-os num frasco largo com boca ampla. Cobrem-se com a aguardente, junta-se a canela, e fecha-se bem. Deixa-se macerar num local fresco e escuro durante 30 a 40 dias, agitando o frasco de vez em quando. Passado este período, coa-se o líquido, dissolve-se o açúcar (pode fazer-se um xarope leve com um pouco de água, se preferir mais suave) e engarrafa-se. É aconselhável deixar repousar mais algumas semanas antes de provar. O licor beneficia com o tempo.
Figos em calda
Ingredientes: 1 kg de figos (podem ser um pouco verdes, como os da fotografia), 700 g de açúcar, 1 l de água, casca de limão (opcional)
Preparação: Fazem-se pequenos golpes na base de cada figo, facilitando a entrada do açúcar. Prepara-se uma calda com a água e o açúcar, levando a ferver até dissolver por completo. Juntam-se os figos e deixam-se cozer em lume brando durante cerca de 30 a 40 minutos, até ficarem translúcidos e a calda ligeiramente encorpada. Retiram-se com uma escumadeira e distribuem-se pelos frascos; a calda reduz-se mais um pouco antes de ser vertida por cima, cobrindo bem os figos. Fecha-se ainda quente.
Recomendações finais
Encher os frascos ainda quente — não esperes que a compota ou a calda arrefeça na panela. Enche os frascos esterilizados enquanto o conteúdo ainda está bem quente, isto ajuda a criar vácuo e é essencial para a conservação.
Frascos bem cheios — enche até quase ao topo, deixando pouco ar lá dentro. No caso da calda, garante que os figos ficam totalmente cobertos pelo líquido.
Fechar e virar ao contrário — depois de fechares bem a tampa, vira o frasco de cabeça para baixo e deixa arrefecer assim completamente (pode demorar algumas horas). Isto ajuda a esterilizar a tampa por dentro com o calor residual e a criar vácuo.
Verificar o vácuo — depois de frio, confirma que a tampa está “encovada” para dentro (não estala ao pressionar o centro). Se estalar ou ceder, não fez vácuo correto e é melhor guardar esse frasco no frigorífico e consumir primeiro, em vez de o deixares à temperatura ambiente.
Etiquetar com a data — útil para saberes qual consumir primeiro, já que vais ter várias fornadas diferentes.
Depois disso, guarda em local fresco e escuro até abrir; uma vez aberto, vai para o frigorífico.
Joana
04/09/2026Que delícia!!!! ☺️