CrónicaDiário
  • 13 minutos de leitura

A Nona Ilha

Gonçalo Mendes Gonçalo Mendes
  • Ago 12, 2026

Comments visualizações
magzin magzin

Durante décadas, milhares de madeirenses atravessaram o Atlântico em busca de uma vida que a ilha lhes negava. Uns partiram atrás da riqueza, outros para fugir à guerra. Levaram pouco mais do que uma carta de chamada e a esperança de um futuro melhor. Na Venezuela encontraram trabalho, construíram negócios, famílias e comunidades — e acabaram por criar, longe da Madeira, uma nova pátria. Uma Nona Ilha, sem território nem fronteiras, feita de memória, saudade e identidade.

Os madeirenses que fizeram da Venezuela uma segunda pátria

Há um soneto, escrito por um emigrante madeirense na Venezuela nos anos cinquenta, que começa assim:

Venezuela, Pátria mais sonhada, Por todos os que buscam a grandeza, Tu tens no solo fértil a riqueza, Encantadora terra, abençoada.

Chama-se António Rodrigues de Oliveira e o seu nome quase não sobreviveu ao tempo. Mas o soneto ficou  e resume, com uma precisão que nenhum historiador conseguiu superar, o que a Venezuela representou para dezenas de milhar de madeirenses ao longo do século XX: não um destino de emigração, mas uma pátria sonhada. A nona ilha de um arquipélago que tem, oficialmente, oito.

O princípio, antes do princípio

A ligação entre a Madeira e a Venezuela é mais antiga do que os anos cinquenta ou do que as refinarias de petróleo do Curaçau. Alberto Vieira, coordenador do Centro de Estudos de História do Atlântico, lembra que a 1 de agosto de 1498, Cristóvão Colombo tocou pela primeira vez o território da atual Venezuela e que, conhecidas as suas ligações à Madeira e a sua passagem anterior pela ilha, é provável que, a bordo, viajassem alguns madeirenses. Uma nota de rodapé na história universal. Uma semente plantada sem intenção.

Dois séculos mais tarde, na segunda metade do século XVI, o Governador espanhol da ilha de Margarita propôs ao rei de Espanha que, no processo de valorização económica daquela possessão caribenha, se seguisse o modelo que os portugueses haviam aplicado na Madeira. A Madeira como modelo. A Madeira como referência para quem queria construir algo a partir do zero.

A ligação moderna começa, porém, em 1919. A exploração de petróleo no Curaçau — ilha holandesa a pouca distância das costas venezuelanas — abriu as portas a uma migração de mão-de-obra portuguesa que a firma funchalense de W. Hinton tratava de organizar e de recrutar. Os madeirenses chegavam ao Curaçau, olhavam para o horizonte e viam terra. A Venezuela estava ali. Quando o país abriu as portas à imigração europeia nos anos quarenta, o passo seguinte foi natural.

Duas ondas, duas razões

A emigração madeirense para a Venezuela aconteceu em dois grandes momentos, com motivações distintas.

A primeira fase, que vai de 1940 a 1960, é marcada pela mistura de necessidade e de aventura. O trabalho na ilha era árduo e mal pago. Os filhos dos caseiros — obrigados a dividir a colheita com o dono da terra — viam nos emigrantes que regressavam com dinheiro um espelho do que poderia ser a sua vida. O bolívar venezuelano era forte. Quando se trocavam bolívares em escudos, fazia-se fortuna. O semanário humorístico funchalense Re-Nhau-Nhau não se cansava, a partir de 1948, de augurar a esses emigrantes “um bom encontro com a árvore das patacas” — expressão que até então estava reservada ao Brasil, e que agora se transferia para a Venezuela.

Os jornais da época mostram a dimensão desta febre. O Diário de Notícias enchia-se de anúncios de agências de navegação, de ofertas de passagens marítimas e aéreas, de pensões em Lisboa que garantiam “comida madeirense” aos candidatos à partida que esperavam pelo visto. As casas de penhoras do Funchal ficavam cheias de bens empenhados por quem precisava do dinheiro da viagem. O burburinho, como lhe chamam os investigadores do CEHA, era estonteante.

A segunda fase, a partir de 1961, tem uma razão diferente e muito mais sombria: a Guerra Colonial. Com a guerra a eclodir em Angola e depois nos outros territórios africanos, muitas famílias madeirenses decidiram enviar os filhos para a Venezuela antes que completassem os dezoito anos e ficassem sujeitos ao recrutamento militar. É por isso que, nos livros de passaportes do Governo Civil do Funchal, que se guardam no Arquivo Regional, aparecem tantos rapazes de dezassete anos a emigrar “para trabalhar na agricultura”, acompanhados pelos pais, que depois regressavam sozinhos.

Joselin Gomes, que estudou este período na sua tese de mestrado pela Universidade da Madeira, resume assim a diferença entre as duas fases: na primeira, partia-se à procura de riqueza; na segunda, fugia-se à morte.

A carta de chamada e o navio Santa Maria

Para partir, era preciso uma carta de chamada: um documento formal em que alguém já residente na Venezuela assumia a responsabilidade pelo emigrante recém-chegado, garantia a sua sobrevivência durante os primeiros meses e comprometia-se a apresentá-lo às autoridades. Sem carta de chamada, não havia passaporte. Sem passaporte, não havia partida.

Este sistema criou uma teia de solidariedade e de obrigação que definiu a estrutura da comunidade madeirense na Venezuela durante décadas. Partia-se com carta de chamada de um irmão, de um primo, de um futuro cunhado. Chegava-se a uma casa que já tinha outros madeirenses. Começava-se na agricultura, no terreno ou no telheiro, e olhava-se para o irmão mais velho que já tinha uma padaria, ou para o primo que já tinha um supermercado, e calculava-se o tempo que faltaria para conseguir o mesmo.

O navio que transportou muitos desses emigrantes chamava-se Santa Maria. Aparece repetidamente na literatura madeirense sobre a Venezuela — em Torna-Viagem de Horácio Bento de Gouveia, em Viagem à Venezuela de José Fernando da Cunha, em contos e peças de teatro que retratam a época. A partida no Santa Maria tornou-se uma imagem arquetípica: o cais do Funchal, as famílias em terra, o navio a afastar-se em direção ao horizonte.

O percurso de ascensão

O padrão de integração económica foi consistente e extraordinário. Os madeirenses chegavam sem qualificações e sem conhecimento da língua, mas com uma capacidade de trabalho que os venezuelanos não deixavam de reconhecer. Um testemunho recolhido pelo projeto Nona Ilha descreve assim um turno de trabalho numa padaria de Caracas: “Os madeirenses aguentavam como burros. Era doze horas cada turno. Os crioulos estavam acostumados a trabalhar em fábricas oito horas, mas lá os portugueses tiravam-lhes a preguiça.”

O percurso-tipo era este: chegava-se à agricultura, nos terrenos a sul de Caracas, nos ranchos de zinco onde se dormia e se acordava com o sol. Depois, o primeiro que tinha reunido dinheiro suficiente abria uma mercearia, uma padaria, um pequeno bar. Os outros seguiam. A padaria crescia para restaurante, o restaurante crescia para supermercado.

Em cinquenta anos, este percurso multiplicado por dezenas de milhar de famílias transformou os madeirenses no grupo dominante do comércio retalhista venezuelano. José de Sousa, presidente dos Automercados Plaza’s — rede de supermercados com 22 sucursais e quase três mil trabalhadores, fundada há sessenta anos por cinco membros da sua família originária de Câmara de Lobos —, declarou numa entrevista em 2022: “Setenta por cento do sector retalhista venezuelano é gerido pela comunidade portuguesa. Somos reconhecidos e respeitados.”

O exemplo mais citado de toda esta ascensão é Agostinho Sousa Macedo, natural da Ribeira Brava. Chegou à Venezuela no final dos anos quarenta para trabalhar numa frutaria de um irmão, depois de ter trocado o emprego na única farmácia da sua vila por uma passagem de navio. Em poucos anos, juntamente com o irmão Câncio, construiu a Central Madeirense — a maior cadeia de distribuição alimentar da Venezuela, com mais de cinquenta supermercados e seis mil trabalhadores. Fundou também o Banco Plaza, que em 2008 era uma das três principais instituições financeiras do país, e o Ocean Bank, no estado da Florida.

Quando o primeiro-ministro José Sócrates visitou a Venezuela, foi-lhe entregue uma placa com uma única palavra: Obrigado. Representava o que cem mil portugueses sentiam por um homem que lhes tinha dado trabalho, tinha ajudado a regularizar a situação de incontáveis imigrantes e tinha sido, durante décadas, o ponto de apoio que recebia quem chegava sem nada do porto de La Guaira. Agostinho Macedo morreu em 2009, com 75 anos. Na Ribeira Brava, onde nasceu, uma rua leva o seu nome.

As histórias que os números escondem

Entre 1950 e 1969, chegaram à Venezuela mais de 73 mil portugueses. Desses, cerca de 39 mil eram madeirenses — maioritariamente oriundos do Funchal e de Câmara de Lobos. Em finais dos anos setenta, os madeirenses representavam setenta por cento de toda a comunidade portuguesa no país.

Mas estes números escondem histórias que nenhuma estatística consegue capturar.

O projeto Nona Ilha, coordenado pelo CEHA desde 2013, foi buscar essas histórias através de entrevistas a emigrantes e seus descendentes. Uma das mais fascinantes é a de José Nunes de Freitas Pereira, natural da freguesia de Água de Pena, no concelho de Machico, que partiu para a Venezuela em 1963 com dezassete anos, acompanhado pelo pai, que o levou para escapar à guerra. José começou na agricultura em Baruta, depois trabalhou numa padaria de um irmão. Até aqui, a história segue o padrão habitual. Mas depois entrou no mundo dos bares noturnos de Caracas, foi trabalhar numa chicharronera que era também um bar de mesoneras — as empregadas que serviam e que eram, ao mesmo tempo, o motivo pelo qual muitos homens nunca mais voltaram para casa.

Ficou conhecido na Venezuela pelo nome de Tarzan. O alcunha tinha sido posto por um sobrinho em criança, que achava que ele se parecia com o ator de uma série de televisão. O nome ficou. Tarzan teve filhos de dezenas de mulheres — “uns vinte ou trinta só em Caracas”, segundo o sobrinho que o CEHA entrevistou. A ex-mulher, que foi ter com ele em 1967 e regressou à Madeira em 1971 com duas filhas, divorciou-se dele trinta anos depois, à distância. Tarzan nunca voltou.

A história de Tarzan é o avesso da história de Agostinho Macedo. São ambas verdadeiras. A Venezuela oferecia a árvore das patacas, mas também a possibilidade de se perder numa cidade de milhões de pessoas onde ninguém perguntava quem se era.

A Nona Ilha: identidade construída longe da ilha

Os madeirenses que foram para a Venezuela não esqueceram a Madeira. Criaram, em Caracas e nas outras cidades, uma réplica da vida que tinham deixado: associações culturais, grupos de folclore, clubes desportivos, missas em português, festas com espetada e poncha. O Centro Social Madeirense de Valência, o Grupo Folclórico Luso Venezolano Pérola do Atlântico, o Marítimo da Venezuela, a Academia da Espetada — uma comunidade que se fechou sobre si mesma para não perder o que era.

Desde 1999, têm um jornal: o Correio da Venezuela, fundado por Aleixo Vieira, que ainda hoje circula em Caracas e em Portugal. Antes disso, entre 1989 e 1995, existiu a revista Saudade, fundada por Manuel da Gama — o título diz tudo sobre o que estas publicações representavam.

Foi este conjunto — a língua, a culinária, o folclore, o futebol, as igrejas — que levou o investigador Alberto Vieira a cunhar a expressão Nona Ilha: a ilha global dos madeirenses, que não tem território fixo, mas existe em toda a parte onde há uma família do Funchal ou de Câmara de Lobos a tentar não esquecer de onde veio.

Na Fajã da Murta, freguesia do Faial, no coração da Madeira, existe um lugar que dá corpo a esta memória: o Museu da Família Teixeira, propriedade de Aneclet Teixeira de Freitas, cujos pais emigraram para a Venezuela quando ele era criança. Aneclet teve sucesso, voltou, e reconstruiu a casa dos pais — depois acrescentou outras casas, objetos da lavoura, fotografias a preto e branco, cartas, passaportes, azulejos que contam a história da emigração. Não é um museu no sentido convencional. É um lugar de memória, no sentido que o historiador Pierre Nora atribui a esses espaços: um lugar onde o passado não é apenas passado, onde pode ser presentificado e reconhecido por quem o viveu ou por quem descende de quem o viveu.

Num dos cantos do museu, há um espaço dedicado a Renny Teixeira, filho do proprietário, assassinado em Caracas em 2016. A Venezuela está lá também, com a sua violência e o seu perigo.

O fim da terra prometida

A Venezuela que recebeu os madeirenses nos anos quarenta e cinquenta não é a Venezuela que os expulsou a partir do final do século XX.

A 15 de dezembro de 1999, uma catástrofe natural devastou o litoral do estado de Vargas, perto de Caracas, matando milhares de pessoas. Muitos madeirenses que ali viviam perderam tudo. Mas foi a instabilidade política que se seguiu — o chavismo, a expropriação de empresas, a hiperinflação que destruiu o valor do bolívar — que empurrou para fora do país a maioria dos que tinham ficado.

Entre 3 000 e 4 000 emigrantes e familiares regressaram à Madeira até 2017, segundo o Jornal de Notícias. A estimativa total da diáspora madeirense na Venezuela era, nessa data, de cerca de 300 000 pessoas entre emigrantes e descendentes. Muitos dos que regressaram nunca tinham vivido na Madeira — nasceram em Caracas, falam espanhol com sotaque venezuelano e só conhecem a ilha pelas histórias dos pais. São os venezolanos, como lhes chamam na ilha, por vezes com afeto e por vezes com uma subtil hostilidade que Alberto Vieira não hesita em nomear: xenofobia. A mesma que existiu, décadas antes, para com os “retornados” das ex-colónias africanas.

O que fica

Num balanço de quase um século de presença madeirense na Venezuela, o que fica é difícil de quantificar. Empresas, claro — embora muitas tenham desaparecido com a crise. Igrejas construídas com as remessas enviadas da Venezuela para as freguesias de onde partiram os emigrantes. Casas de pedra reabilitadas com dinheiro venezuelano. Estádios de futebol, ambulâncias, campos agrícolas.

Mas fica também uma camada da identidade madeirense que é inseparável desta história. As palavras espanholas que entraram no português da ilha — carretera, ruta, mezonera. Os sabores tropicais que chegaram com os que voltaram. Os sobrenomes que se repetem de ambos os lados do Atlântico.

E fica, sobretudo, a memória. A fotografia a preto e branco de um pai no cais do Funchal, de um marido a bordo do Santa Maria, de uma família reunida numa cidade de Caracas para o primeiro Natal longe de casa. A carta de chamada dobrada numa gaveta. O passaporte com o carimbo venezuelano que prova que alguém, um dia, teve coragem suficiente para trocar a certeza do poio pela incerteza da árvore das patacas.

A Nona Ilha não tem capital nem bandeira. Mas tem história. E essa história, diz Alberto Vieira, “ainda está por contar de forma exaustiva.”

Fontes: Actas do colóquio “As mobilidades no espaço e no tempo”, CEHA/DRABL, Funchal, 2018. Autores consultados: Alberto Vieira, Maria Beatriz Rocha-Trindade, Naidea Nunes, Joselin Gomes, Graça Alves. Bom Dia (outubro 2022); Correio da Venezuela.

Imagem gerada por IA.

 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *