Chegou numa tarde de Outubro, com uma mala de madeira, uma caixa de ferramentas e um nome que não era o seu. Em poucos meses, o sapateiro Aníbal ganhou a confiança da freguesia, ensinou miúdos, consertou botas e fez andar um povo que aprendera a desconfiar das palavras. Até que, numa madrugada de Junho, um carro preto desceu a estrada. A loja amanheceu fechada. O sapateiro desaparecera. Ficaram as ferramentas, uma carta e um silêncio que ninguém ousava explicar.
Numa tarde de Outubro de 1950, com o sol já a fugir por detrás do Paul e o vale de S. Vicente a encher-se daquela sombra azul que ali faz as vezes de crepúsculo, a camioneta da carreira desceu a Encumeada aos solavancos e largou no largo, entre cestos de verga e um porco assustado, um homem que ninguém conhecia. Teria os seus quarenta anos. Fato coçado mas escovado, chapéu de aba curta, e por toda a bagagem uma mala de madeira e uma caixa de ferramentas que não pousou nem para pagar o bilhete — trazia-a ao colo, como se leva uma criança ou um segredo.
O largo onde desceu não tinha placa, como não tinha placa quase nada naquele concelho: os nomes, ali, não se afixavam — herdavam-se. Para o povo era o Largo dos Vadios, e a vadiice explicava-se por si: duas mercearias, com duas tascas incorporadas a guarnecer as esquinas, e, entre as duas, não propriamente um largo, mas o entroncamento entre a estrada regional recém-inaugurada e a antiga estrada, onde o sítio inteiro se juntava, ao fim da tarde e nas festas que ninguém organizava e nunca falhavam. Ali se conversava, se jogava ao puxar da corda, sítio contra sítio, solteiros contra casados…, ali se afinava uma viola e se cantava ao desafio até a noite mandar cada um à sua vida — e quem passava na estrada e via tanta gente junta sem obra à vista, tirava a conclusão apressada que o nome guardou. A freguesia, em vez de se ofender, achou graça e ficou com a palavra. Há terras assim, que fazem das pedras que lhes atiram bancos para se sentarem.
O homem pousou a mala, olhou o largo de ponta a ponta como quem mede um pé para uma forma, e entrou na venda do Pontes. Pediu um copo de vinho, pagou-o a pronto — pormenor que o Pontes havia de recordar durante anos, com saudade crescente — e fez a pergunta:
— Diga-me cá: nesta terra há sapateiro?
— Há e não há. Tem dias, — respondeu o Pontes, que tinha o costume de responder às perguntas com tiradas filosóficas. — Certo, certo, só mesmo no Funchal.
— Fica longe para um salto de meia sola.
— Pois fica. O mais perto é um remendão no Seixal, mas esse cose mais aguardente do que cabedal. O senhor faz o quê, se não é atrevimento?
O homem bebeu um gole, limpou a boca às costas da mão, e disse a frase que ficou:
— Eu faço andar as pessoas. Sou sapateiro.
Chamava-se Aníbal, dizia ele; mestre Aníbal ficou sendo dali a um mês, que os títulos, naquela freguesia, ganhavam-se depressa desde que se ganhassem com as mãos. O espaço arranjou-se em três dias, o que no ritmo do concelho equivalia a um milagre com dispensa do bispo: a casa do Faustino, emigrante em Caracas havia sete anos, tinha no rés-do-chão uma loja de boa lousa, uns quarenta metros quadrados com porta directa para a rua — a antiga estrada regional, que seguia do largo para baixo — e a loja estava vazia desde que o Faustino embarcara, a servir de arrecadação a meia dúzia de cestos e a um sono antigo de ratos.
Quem governava a casa na ausência do pai era o filho, o Norberto, carpinteiro de ofício e de feitio, homem de falar pouco e aplainar direito. Entenderam-se à primeira, como se entendem os homens de banco e ferramenta: desconfiando um do outro com toda a cordialidade.
— Quanto pede pela loja?
— O meu pai está na Venezuela. Eu pela loja não pedia nada, que ela vazia não me come. Mas quem não pede nada, dizia o meu pai, acaba a dever favores, e favores pagam-se pior que rendas.
— Então peça.
— Vinte escudos ao mês. E conserta-me o calçado da casa, que são seis pés de gente grande e oito de miúda.
— Feito. Os miúdos de graça, que esses ainda não estragam por vício, estragam por crescerem.
Apertaram as mãos por cima da bancada. O Norberto haveria de contar aquele aperto de mão a vida inteira: mão de homem trabalhador, calejada onde devia — mas calejada, pensou ele mais tarde, muito mais tarde, como quem aprendeu o ofício depois de gente grande, que os calos de menino assentam doutra maneira. Na altura pensou-o e deixou-o pensar. Havia rendas a receber e sapatos por consertar, e a vida não se governa com reparos.
O sapateiro dormia na própria loja, num catre atrás de uma cortina de chita, e fazia ali a sua vida toda: o torno junto à porta para aproveitar a luz da rua, a banca das ferramentas, o fogareiro para a goma e para o café, uma prateleira de formas de madeira que foi crescendo como cresce uma família. Em duas semanas o Largo dos Vadios tinha novo ponto cardeal. Em dois meses já ninguém se lembrava de como era a rua sem o toque-toque do martelo na sola, que começava com o sino da alvorada e acabava com o toque das trindades — pontualidade que o padre Lino apontava do púlpito como exemplo, com aquela ironia dos párocos velhos: «Há na freguesia quem nunca falte ao seu ofício. Ao meu é que faltam.»
E era bom sapateiro. Era, dizia o povo, sapateiro como já não se fazia: cortava o cabedal sem desperdiçar uma unha de pele, cosia à mão ponto por ponto, batia, colava, vincava, dava lustro, e devolvia ao dono um sapato que parecia envergonhado de ter andado roto. Fazia de novo e fazia do velho, e o povo, que dantes ou ia ao Funchal ou andava com os dedos à mostra, passou a andar calçado e a pagar em prestações que o mestre apontava num caderno de capa preta sem nunca reclamar uma.
— Mestre Aníbal, este mês não posso.
— Pode para o mês. O sapato já anda; o dinheiro que ande atrás dele.
À porta da loja juntavam-se os miúdos da escola, ao princípio pela novidade e depois pelo costume, que ele os deixava mexer nas formas de madeira e lhes dava sovelas rombas para brincarem ao ofício. Ensinou dois ou três a engraxar como gente. A um, o mais esperto, o Zeca da Bernarda, ensinou-lhe a ler melhor do que a escola, ao serão, com jornais velhos — vinham-lhe de Lisboa, com semanas de atraso, embrulhados à volta de nada — e a Bernarda, viúva de forno e fornada, pagava as lições em bolo do caco, que o mestre dizia ser a única moeda forte da freguesia.
Até o cabo Aurélio, autoridade máxima do posto e dos seus dois soldados, lhe levou as botas do serviço. Entrou na loja com elas na mão e a farda vestida, o que gerou no largo um silêncio de teatro.
— Diga-me uma coisa, mestre: o senhor arranja botas do Estado?
— Arranjo as botas. O Estado é que não tem conserto que me caiba na banca.
Riu-se o cabo, riu-se o largo, e as botas ficaram como novas por doze escudos e cinquenta. Se o cabo tivesse apontado a frase em vez de a rir, poupava-se dali a uns anos o trabalho de jurar, de olhos no chão, que nunca ouvira ao sapateiro palavra que se apontasse. Mas isso ainda vem longe. Nesse tempo ria-se, e as botas do Estado, engraxadas pelo suspeito, faziam pela freguesia a ronda mais bem calçada do concelho.
Do passado do homem, porém, ninguém sabia nada, e numa freguesia onde se sabia tudo — quem devia, quem bebia, quem batia na mulher e quem apanhava dela — aquele buraco na informação era um escândalo público. Na venda do Pontes chegou a haver apostas a copos:
— É viúvo. Homem que cose assim, cosia-lhe a mulher as camisas. Morreu-lhe, e ele fugiu da casa vazia.
— É crime de paixão. Matou o rival à sovela e anda fugido à justiça.
— À sovela, Abílio? A sovela nem mata um frango.
— Depende da paixão.
— Para mim é padre falhado. Repara na letra dele no caderno: aquilo é letra de missal.
— E tu que sabes de letras, que assinas de cruz?
— Sei olhar, que a vista não precisa de exame da quarta classe.
Interrogado directamente, que a freguesia também não era de rodeios, o mestre respondia sempre com a mesma moeda:
— Mestre Aníbal, o senhor afinal donde é?
— De onde doem os calos, freguesa. Sapateiro é natural de onde o povo tem pés.
E a freguesia, que reconhece uma porta fechada quando bate numa, deixou de bater. Ficou a estima e ficou a dúvida, a conviverem uma com a outra como convivem em toda a parte: à mesa das outras conversas.
A dúvida ainda teve a sua noite de sorte, numa festa de largo dessas que ninguém organizava e nunca falhavam. Houve jogo da corda, solteiros contra casados, e quiseram-no para as fileiras dos solteiros, por conta e risco de ninguém lhe conhecer estado. O mestre recusou com a dignidade do ofício — que sapateiro que se preze não dá ao vício de esticar coisa nenhuma — e ficou de juiz, único posto, explicou, onde não se sua e se leva das duas partes. Mas depois vieram as violas, e com as violas o cantar ao desafio, e com o desafio o Lourenço das Feiteiras, que era nessas lides o campeão da freguesia e há meses andava a afiar a pergunta que toda a gente trazia romba. Esperou pela sua vez, piscou o olho ao largo, e mandou-a em verso:
— Ó mestre da meia sola, / que tanto sabe coser, / remende cá esta resposta: / donde é, se é p’ra saber?
O largo inteiro se calou, que era pergunta de dez copos feita com licença da rima. O sapateiro pousou a caneca, deixou a viola dar duas voltas ao mote, e respondeu sem se levantar do banco:
— Sou de longe e sou de perto, / sou de onde o pé me pôs; / sapateiro não tem terra: / a minha terra sois vós.
Caiu o largo que nem a corda dos casados. O Lourenço ainda tentou mais três quadras e perdeu-as todas em casa, com o público virado, e acabou a noite a encomendar-lhe um par de botas — já que levava a derrota, que ao menos a sola fosse do vencedor. E se alguém no largo apontou de cabeça a resposta, ao menos não havia nela matéria que um tribunal entendesse. Os tribunais daquele tempo percebiam de tudo menos de poesia — e era por isso, diziam os entendidos, que a poesia andava quase toda presa.
Aqui é preciso parar a história e explicar aos mais novos como funcionava então o país, porque sem isso o resto não se entende — e há coisas que era bom que nunca mais se entendessem por experiência própria.
Corria o ano vinte e tal do regime que se chamava a si mesmo Estado Novo, para se distinguir do antigo, de que aproveitara quase tudo menos o nome. Havia um homem em Lisboa, professor de Coimbra, que governava com fama de não gastar e génio de não largar; havia uma censura com lápis azul que decidia todas as manhãs aquilo que o país tinha e não tinha acontecido; e havia uma polícia, a PIDE, cujo nome completo — Polícia Internacional e de Defesa do Estado — era dos poucos casos na administração pública portuguesa em que o serviço fazia jus rigoroso à designação: defendia o Estado. Das pessoas, entenda-se.
A PIDE tinha isto de notável: sendo a repartição mais discreta do país, era a que melhor conhecia os seus utentes. Não esperava que o cidadão a procurasse; procurava-o ela, de madrugada de preferência, que é a hora em que os inocentes dormem e dão menos trabalho. E servia-se, para saber onde ir buscar quem dormia, de uma rede que nenhum outro serviço público igualou: o bufo. O informador. O amigo do peito com o peito alugado. Dizia-se, e não se dizia por dizer, que em cada repartição de concelho, em cada junta, em cada grémio e casa do povo, havia pelo menos um funcionário que somava ao ordenado do Estado uma gratificação da mesma origem por contar o que ouvia — e que a administração deste nosso concelho, em particular, tinha mais ouvidos do que cadeiras. Por cada dez homens juntos, garantia o regime que um tomava apontamentos de cabeça. A conta do povo era mais simples: fala com nove, que o décimo escreve.
Ora numa terra assim, o mais notado no sapateiro nem foi o que ele dizia. Foi o que não dizia. Porque na venda falava-se de tudo — da semilha, do tempo, do contrabando de Curaçau, e também, em voz que descia dois tons, do preço que o grémio pagava, das eleições de há um ano em que houvera papel para votar em outro general e depois afinal não houvera, dos que emigravam a salto por não haver vida — e o mestre Aníbal, chegada a conversa a esses baixios, pegava sempre no leme e virava-a para águas de rir:
— Vocês falam do governo e eu calo-me, que o meu ofício me ensinou o respeito: nunca digo mal de quem me enche a loja. Se o povo andasse bem servido, quem me trazia a mim sapatos rotos?
Riam todos, e a conversa ia atrás do riso. Só o velho Quintino, que era surdo como uma fraga e por isso dizia as verdades no volume errado, comentou uma vez, para toda a venda ouvir:
— Este mestre vira a conversa melhor que o padre vira o sermão!
Riu-se também. Riram todos. Mas a frase do surdo, como as moedas caídas, alguém a apanhou do chão. Nunca se soube quem.
Os sinais, à distância, são todos claros; ao perto, ninguém os lê — e ainda bem, que viver com os sinais lidos não é viver, é esperar.
O sapateiro lia de mais para as mãos que tinha. Escrevia de menos para a letra que gastava: o caderno das prestações tinha uma caligrafia desenhada, de escrivão ou de missal, e ele dizia ter a quarta classe pela vida. A meio da noite, quem passasse no largo — e a Bernarda passava, que o forno não tem horário — via riscar por baixo da porta a luz do candeeiro até muito depois da hora dos cristãos. E o rádio da loja, um caixote de segunda mão que ele comprara ao Pontes, apanhava de noite, muito baixinho, estações que falavam um português com pressa, de fora, que o Zeca uma vez ouviu sem entender e nunca esqueceu.
Em Maio de 1951 apareceu na loja um homem de fora. Gabardina cinzenta, chapéu do Funchal, e uns sapatos — foi nisso que o largo reparou, que o largo tinha olho clínico para o calçado desde que tinha sapateiro — uns sapatos de cidade que nunca tinham pisado terra batida. Trazia um salto descolado, coisa de dez minutos.
— Bonita terra — disse o homem, enquanto esperava. — E o senhor, há muito que por cá está?
— O tempo que a terra quiser.
— Não é de cá, pela fala.
— A fala é como a sola, meu senhor: gasta-se por onde se anda.
— E anda-se muito, hoje em dia. Há por aí muita gente que anda e não diz donde vem.
— Essa gente calça-se onde calhar. A que vem à minha loja senta-se nessa cadeira e conversa, como o senhor, que é maneira de andar sem sair do sítio.
O homem riu sem os olhos, pagou sem regatear — segundo sinal — e foi visto, dali a nada, a entrar na administração do concelho, a tratar de papéis. Que papéis, não se soube. Naquela noite a Bernarda, indo ao forno, sentiu no largo um cheiro fino a papel queimado, e a luz do sapateiro riscou por baixo da porta até de madrugada.
Podia ter fugido nessa noite, dirão os de agora, que sabem sempre o que os outros deviam ter feito. Fugir para onde? Uma ilha é uma armadilha com boa paisagem: em terra firme, quem foge troca de terra; numa ilha, troca de esconderijo dentro da mesma ratoeira, e o mar, que parece uma porta, é a fechadura. E há mais: um homem pode cansar-se de fugir como se cansa de tudo. Há sete anos que aquele homem não dormia duas estações no mesmo catre. Tinha agora uma loja com o seu nome na boca do povo, um caderno de fiados, meninos à porta, bolo do caco à quinta-feira. Chamavam-lhe mestre. Se a vida lhe oferecia mais dois meses daquilo em troca do risco, era um preço que um homem cansado pagava. Ele saberia as contas que fez. Ninguém lhas perguntou.
Foi numa madrugada de Junho, de lua nova. O que se sabe, sabe-se pela cadela do forno, que ladrou das três para as quatro com uma raiva que a Bernarda não lhe conhecia; por um carro preto que dois homens das Feiteiras, a caminho da rega, viram descer a estrada regional ainda com o escuro, devagar, sem pressa nenhuma — a pressa era desnecessária no ofício de quem ia dentro —; e pela loja, que amanheceu fechada e calada quando o sino da alvorada tocou e o toque-toque, pela primeira vez em oito meses, não respondeu.
Ao meio-dia o largo estava em assembleia. À uma, o cabo Aurélio, chamado a pronunciar-se, pronunciou-se de olhos nas botas — naquelas botas — e disse a frase que o Estado lhe pagava para dizer:
— Não sei de nada.
E não sabia, coitado. É essa a perfeição do sistema: reparte-se o saber de maneira que cada um possa jurar a sua ignorância com a consciência em paz.
Dentro da loja, aonde o Norberto entrou nessa tarde com a chave dos senhorios e meia freguesia atrás dos seus ombros, estava tudo como um homem deixa as coisas quando conta voltar já: uma bota no torno com a meia sola apontada por coser, a agulha espetada no cabedal com a linha enfiada, o ferro de vincar pousado ao lado, café frio numa caneca. Só a cortina de chita é que estava arrancada, e o catre revirado, e as tábuas do fundo levantadas — que os visitantes da madrugada, esses, não tinham vindo consertar nada.
As teorias no largo duraram uma semana e foram descendo de voz até ao murmúrio: que fugira a dívidas, que fugira a uma mulher, que se lançara ao mar, que emigrara a salto. Ninguém acreditava em nenhuma, e todos as repetiam, porque as teorias serviam para não dizer a palavra que estava na cabeça de todos desde o carro preto. A palavra tinha quatro letras e não se dizia alto. No largo, aliás, passou a falar-se de tudo um pouco mais baixo, o que era, pensando bem, o verdadeiro serviço que o carro preto viera fazer: não levou só um homem — trouxe um silêncio, e deixou-o cá.
O Norberto varreu a loja, cobriu a banca com uma lona, meteu a bota do torno, com a agulha e a linha como estavam, dentro do armário das formas, e fechou a porta. Não pôs lá cestos nem madeira. Perguntavam-lhe porquê, respondia que a loja tinha inquilino.
— O homem foi-se, Norberto.
— A renda é que se foi. O inquilino não me disse nada.
A carta chegou dois anos depois, em Setembro de 1953, e não veio pelo correio. Trouxe-a do Funchal um homem grisalho e mirrado, de fato que já fora de outro corpo, que perguntou pela oficina do carpinteiro e entregou o sobrescrito em mão, com duas palavras:
— De um amigo comum. Vinha eu de mais longe do que a carta.
Não quis vinho, não quis comer, não deu o nome. Ao despedir-se, olhou a loja fechada do outro lado do largo e fez com a cabeça um aceno lento, de quem cumprimenta uma sepultura, e desceu para a camioneta. O Norberto ficou com o sobrescrito na mão e esperou pela noite para o abrir, à luz do candeeiro, com a mulher ao lado e as portas trancadas — que já se aprendera, na freguesia, para que servem as portas.
A letra era a do caderno das prestações, desenhada, de missal. Dizia, tanto quanto o Norberto depois contou, e contou-o poucas vezes e a poucos, mais ou menos isto:
Que pedia perdão, primeiro que tudo, pelo incómodo e pelo susto, e por se ter ido sem pagar o mês corrente — e que ao Norberto o não espantasse a demora, que o correio de onde escrevia era lento por natureza e mais lento por ofício, e aquela carta seguia por caminho que não levava selo. Que o seu nome verdadeiro não era Aníbal: chamava-se José Bento Craveiro, natural do Barreiro, tipógrafo de profissão primeira, sapateiro pela mão do pai, que Deus tivesse. Que desde as eleições de 49 andava fugido, por pertencer a quem não se podia pertencer e imprimir o que não se podia ler; que escolhera S. Vicente por ser longe, e ficara por ser perto — perto do que um homem precisa, explicava, que é gente que lhe chame pelo nome ainda que o nome seja emprestado. Que o tinham julgado em Lisboa, à porta fechada, com mais pressa do que ele gastava numa meia sola, e condenado a anos que não valia a pena contar, a cumprir no campo do Tarrafal, ilha de Santiago, Cabo Verde — e aqui a carta gastava poucas palavras, dizia só que era terra de muito sol e pouca sombra, onde o tempo custava a passar e alguns companheiros tinham desistido de o ver passar. Que não guardava rancor a essa freguesia, a nenhuma alma dela, e que não perdessem tempo a procurar boca denunciante, que as bocas são muitas e a culpa foi sempre de quem paga por elas. Que esperava, com a ajuda de Deus, em quem entretanto se tinha posto a acreditar por via das dúvidas e da vizinhança, voltar em breve. E que lhe pedia um favor, um só: que lhe guardassem as ferramentas. «Um sapateiro sem ferramentas», escrevia o José Bento Craveiro na última linha que dele se conhece, «é um homem descalço por dentro. Guardem-mas, que eu hei-de ir calçar-me.»
O Norberto dobrou a carta, meteu-a onde nunca disse, e no dia seguinte subiu ao sótão da oficina com a caixa de ferramentas do sapateiro, a bota do torno com a agulha e a linha, e o caderno preto dos fiados, que fez questão de nunca cobrar. Todos os Invernos, enquanto foi vivo, lhes passava um pano de azeite, ferramenta a ferramenta, sem explicar a ninguém — e um carpinteiro a olear ferramenta de sapateiro é das poucas liturgias que um ofício pode rezar por outro.
Se voltou, não se sabe. O campo, diziam os jornais que não diziam nada, fechou no ano seguinte; dos que lá estiveram, uns vieram, outros ficaram naquela terra de muito sol e pouca sombra, e o nome de José Bento Craveiro, o Norberto procurou-o anos a fio, com dissimulação, em quem chegava de fora: e nada. Para a freguesia, que o conhecera com outro nome, o mestre Aníbal ficou sendo aquilo que os desaparecidos ficam sendo: uma conversa que se interrompe quando entra alguém.
Quem o denunciou também nunca se soube. Soube-se apenas, com os anos e com o 25 de Abril, quando se abriram uns arquivos e se perderam outros, que os informadores do concelho eram mais do que se temia e menos do que se disse — e que estiveram, é claro, nos velórios, nos casamentos e nas procissões, de luto e de festa com toda a gente, porque o bufo, ao contrário do lobo, morre na pele de cordeiro e é chorado por rebanho inteiro.
A loja nunca mais foi sapataria. Voltou a ser arrecadação da casa, quando o seu dono regressou definitivamente da Venezuela. As ferramentas, depois de morto o Norberto, ninguém soube dizer que destino levaram: é possível que a caixa tenha ido no monte do ferro-velho, com a bota do torno lá dentro, a agulha ainda enfiada na linha, à espera do ponto seguinte.
No largo, que ainda é dos Vadios e continua a dispensar placa, já ninguém dá pelo toque-toque que ali faltou. Até os velhos, que são na memória de uma terra o que o sapateiro é aos sapatos, mal contam a história ao serão. Na verdade, esta é uma história esquecida. O que vale mesmo é recordar a frase que o homem disse ao Pontes no primeiro dia, entre um gole e outro. Ele dizia que o ofício dele era fazer andar as pessoas. E fez: a freguesia inteira andou anos com solas dele, e o Estado, que não gostava que o povo andasse, nem soube que esteve tão bem calçado — porque é essa a sina dos que fazem andar os outros: ficam eles pelo caminho.