
Conheci-a menina e moça, como diria Bernardim Ribeiro, na fogosidade da infância enquanto a vida é um conjunto de reticências e o futuro um ponto de interrogação.
Reconhecia-lhe o passo delicado, a cadência harmoniosa das passadas descendo a calçada empedrada feita em degraus, tal era a inclinação.
Maria! Nem sei bem como era ela. Se a visse agora, certamente não lhe reconheceria os traços que me chamaram a atenção. Recordo apenas uns cabelos longos, negros, como o basalto do chão que pisava, que o vento costumava esvoaçar quando soprava os plátanos, estendendo as folhas no caminho para que ela pudesse passar. Não é que ela fosse uma qualquer princesa encantada, em que até as forças da natureza se vergavam à sua beleza. Nada disso. Maria era uma rapariguinha, uma menina de oito anos mal contados que eu conhecia da minha calçada.
Enquanto os dias não se cansavam de nascer periodicamente, Maria descia a velha calçada à frente da minha porta, bem de madrugada, estivesse ou não o tempo a seu favor. Para onde iria ela, todos os dias, àquela hora?
Certo dia, em que a curiosidade foi mais forte do que eu, dispus-me a esperá-la e saber porquê.
Para aqueles que moram na cidade, todas as caras são iguais, quais formigas ordeiras e laboriosas em constante movimento, desfiguradas num rodopio louco e contínuo. Aos olhos da cidade, mais rosto menos rosto, tanto faz. Os que chegam apenas vêm engrossar as fileiras dos que correm, não se sabe bem para onde nem porquê. Aliás, por que há-de alguém preocupar-se da proveniência e do destino e das razões desse movimento de todos os rostos que encontra?
De todos os lados, os caminhos vêm dar à cidade que, de pequena que é, quase rebenta pelas costuras, numa incapacidade de resposta tão limitada que apenas atende a alguns mais felizardos, por sorte ou compadrio, sabe-se lá.
Aqueles que ficam de fora avolumam-se pelas periferias ou nos cantos mal iluminados das ruas estreitas cercadas por prédios carcomidos pelo tempo, ameaçando cair-lhes em cima, qual guilhotina justiceira da seleção natural da vida e do progresso.
De desgraça em desgraça, arrastam-se os miseráveis, fantasmas de si próprios, numa luta desigual, aproveitando as migalhas que nem os cães quiseram aproveitar.
– Não vou fazer nada! – respondeu-me ela desembaraçada, levantando os braços e rodopiando quando me aproximei, ainda a lua dizia o último adeus, e continuou a descida, gritando-me lá do fundo:
– Sou a Maria! – Dobrou a esquina e desapareceu.
«Maria… Maria há muitas.» – pensei eu.
Como não poderia deixar de ser, as minhas dúvidas aumentaram e então pensei segui-la um dia. Todavia, ou porque o destino me quis ajudar, ou por qualquer outro motivo que escapa à minha compreensão, tal não foi necessário. Nesse mesmo dia, quando regressava das aulas, algo me chamou a atenção.
Deviam ser umas sete e meia da tarde, pouco mais ou menos. Perto da Sé, junto à porta de um estabelecimento, encontrei uma criança franzina estendida, tiritando de frio, com uma caixa amarelada de sapatos amarrada em cruz por um cordel, pedindo dinheiro aos transeuntes da noite que se aproximava. O primeiro impulso que tive foi o de aproximar-me e falar-lhe. Em vez disso, atravessei a rua pelo meio dos automóveis que se amontoavam uns atrás dos outros em filas intermináveis e encostei-me à varanda do adro da Sé a olhar, se não a confirmar, pelo menos a convencer-me da realidade.
De quando em quando, uma alma generosa dignava-se e, do fundo do coração, saltava uma moeda que atirava para o fundo da caixa, por uma ranhura mal feita, mas que parecia guardar o segredo de um futuro sem interrogações, ao que Maria respondia com voz monótona, quase rouca: – É para os meus irmãos. É prós meus irmãos.
Por vezes engatinhava numa língua estrangeira, procurando convencer os turistas de que, sem pressa, olhavam e registavam o que se passava à sua volta. Alguns deles, mais por espanto do que por pena, lhe davam em mão algumas moedas, que Maria sofregamente se apressava a meter dentro da caixa.
Quando, por fim, a noite avançou, vi-a dirigir-se para a calçada; não resisti e aproveitei a boleia, procurando que ela não se desse conta da minha presença.
Cabisbaixa, bem agarrada ao seu tesouro, pé ante pé, Maria atravessou a cidade e, quando finalmente chegou ao primeiro degrau da subida, parou por instantes e, então, degrau a degrau, começou a subir, batendo os pés com força, como que para os baixar de nível e não ter de voltar a subir no dia seguinte.
– Maria! – interrompi eu.
Espantada, ela parou, voltou-se para trás e, ao reconhecer-me, perguntou quase asperamente, demonstrando não ter gostado da minha interrupção:
– Que quer de mim? Então não te vi lá em baixo a espreitar? Pensa que me importo?
– Só queria saber o que fazias… – tentei justificar-me eu.
– Então já vou, pronto! – quase gritou ela, terminando quase em sufoco, correndo pela calçada fora, galgando dois, três degraus de cada vez, como quem procura ultrapassar o tempo e a desgraça.
Ainda hoje, quando subo a calçada, já vão vários anos, pesam-me os passos e afloram-me os pensamentos da miséria reconhecida e incarnada pela inocência. Quando desço à cidade e reconheço no meio das multidões as caixas de cartão estendidas, continuo a perguntar-me o que foi feito de Maria que passava pela minha calçada.
O que será feito destas outras Marias que agora reconheço, já não da minha mas de outras calçadas?

Gonçalo Mendes