Sábado, Junho 13, 2026
ContosContos-São Vicente
  • 8 minutos de leitura

Rufininho

magzin magzin

Todas as madrugadas, quando o nevoeiro vindo do Paul da Serra ainda se enroscava nas encostas de São Vicente como um lençol húmido, Rufininho cumpria o seu destino. Naturalmente, começava na venda do senhor Manuel. Ali, entre o cheiro a tabaco de rolo e café coado, pedia o seu “grogue” — a aguardente de borra, clandestina e rebelde, que desafiava o monopólio inglês da época.

— Um grogue e um quarto de laranja, Manuel. É para acordar o génio que o frio teima em adormecer — dizia ele, com um brilho irónico nos olhos cinzento-acastanhados.

Rufininho era um homem de contrastes. O corpo franzino, que parecia vergar-se ao peso da própria testa enorme, escondia uma mente que operava em frequências que ninguém ali entendia. Enquanto os outros homens falavam da safra da semilha ou do preço do vinho, Rufininho falava de “voltagem” e “resistência”. Atravessava o largo das Feiteiras, observando as casas de colmo com um misto de carinho e impaciência: amava aquela terra, mas detestava a escuridão que a devorava todos os dias às seis da tarde.

O Pacto e a Sucata

O seu laboratório era o céu aberto e a ravina do Cabouco. Convencer Gregório Brasão, o maior proprietário da zona, não foi fácil. Brasão era um homem prático, de pés fincados na terra, que via em Rufininho um “engenhocas” com demasiada sede de aguardente.

— Se me deixa usar o desnível do seu terreno, senhor Brasão, eu dou-lhe o que nem o Governo nem Deus lhe dá: luz. Luz que não precisa de petróleo, que não deita fumo e que não se apaga com o vento, nem lhe pega fogo à casa.

Brasão aceitou, mais por curiosidade e pela garantia de ficar com um tanque de rega gratuito do que por fé no projeto. E assim começou a odisseia. Rufininho tornou-se um mestre da reciclagem antes do conceito existir. Nas obras da Levada do Norte, onde trabalhava a furar a rocha viva, resgatava o que os engenheiros desprezavam.

Um eixo de aço de uma vagoneta descarrilada tornou-se a coluna vertebral da sua turbina. Chapas de zinco velhas, cortadas com precisão artesanal, transformaram-se em pás curvadas para abraçar a água. O componente mais crítico, o gerador, era um puzzle de cobre e ferro que ele enrolava manualmente à noite, na sua casa de palha, enquanto a vizinhança ouvia o som metálico das suas ferramentas e abanava a cabeça: “Lá está o Rufininho a inventar a pólvora”.

A Luta contra os Elementos

O inverno no norte da ilha é, não raras vezes, impiedoso. O ar desce da Encumeada e das beiras do Paúl como uma lâmina de gelo. Rufininho, com as mãos gretadas pelo frio e os óculos redondos embaciados, passava as horas vagas a montar a sua “central” no fundo do abismo.

A construção do reservatório no topo da encosta foi uma prova de resistência. Ele mesmo carregou pedras, amassou o cal e cimento, vigiando a pequena levada que trazia a água das Longueiras. Lá em baixo, no Cabouco, instalou a turbina de sucata dentro de uma guarita de pedra. O caminho de acesso era uma escadaria de pedras irregulares que ele subia e descia, ignorando o cansaço do corpo franzino, alimentado apenas pela sopa de couve da senhora Teresa e pela visão daquela lâmpada que teimava em não sair da sua imaginação.

O Momento da Verdade

O dia da inauguração foi marcado pela desconfiança. Alguns vizinhos juntaram-se no largo, olhando para a ravina como quem espera ver um espetáculo de feira que vai falhar. O senhor Brasão estava no seu terreiro, de braços cruzados, observando o fio de cobre que Rufininho tinha estendido, de forma precária, entre árvores e postes de castanheiro até à sua cozinha.

Rufininho desceu ao fundo da ribeira. O som da água, se por um lado era ensurdecedor, por outro acalmava-o. A violência das águas trazia-lhe a paz de que necessitava para cumprir o seu destino. Ele olhou para a sua criação — aquela aparente amálgama de metal reciclado, roldanas, dínamos reconstruídos e esperança pura. “Está tudo pronto, pensou convicto com os seus botões. Vamos lá fazer a prova dos nove. Com forme o combinado, gritou lá do fundo, acenou com os braços, e na beira da encosta, o seu amigo Gregório Brasão abriu a comporta do depósito e deixou a água correr abrupta encosta abaixo.

O impacto da água nas pás de zinco gerou um gemido metálico inicial, seguido por um zumbido harmónico e crescente. A turbina começou a girar a uma velocidade vertiginosa. Lá dentro da guarita, o ar parecia vibrar com a eletricidade estática. Rufininho ligou os contactos.

Lá em cima, na penumbra da cozinha dos Brasão, o milagre aconteceu. O filamento da lâmpada, até ali um pedaço de metal morto, começou a brilhar. Primeiro um rubi tímido, depois um laranja vibrante e, finalmente, uma luz branca, intensa e constante, que fez as sombras dos móveis saltarem nas paredes.

— Valha-me Deus! É um milagre. — gritou a senhora Teresa, deixando cair a colher de pau.

A luz não tremia como a de uma vela. Era uma presença sólida, constante, sedutora até. No largo, as pessoas apontaram para a janela da casa de Gregório Brasão, estupefactas. O “enfarta-grogues”, o “lunático das Feiteiras”, tinha domado a desconfiança e ultrapassado pela direita todos aqueles que passaram anos a rir dos seus projetos, do seu aspeto franzino, até da sua cara miúda.

Rufininho subiu a escadaria do Cabouco devagar. Estava exausto, encharcado e com o coração a bater contra as costelas. Quando chegou ao topo, a pequena multidão envolveu-o, gritou pelo seu nome e, depois, abriram alas para que ele seguisse em frente até casa do seu patrono. Brasão esperava-o à porta, o rosto iluminado pela luz que vinha de dentro de casa. Não houve grandes discursos. O proprietário apenas lhe pôs a mão no ombro e disse:

— Entra, Rufino. Vamos beber um do melhor. Tu ganhaste à noite.

Rufininho sorriu, mas não entrou de imediato. Olhou para a sua própria casa de palha, ali perto, onde uma pequena extensão de fio levava também uma luzinha solitária ao seu corredor. Pela primeira vez na vida, não precisava de aclarar as ideias com álcool. A clareza estava ali, pendurada no teto, alimentada pela água que corria apressada até ao mar.

A pequena multidão, no exterior, voltou a manifestar-se ruidosamente e até Rufininho chegou um som que nunca esqueceria. Não era um grito, não era uma aclamação. Era qualquer coisa mais antiga e mais funda: um murmúrio coletivo, quase involuntário, o som que as pessoas fazem quando veem algo que não esperavam ser capazes de ver.

Gregório Brasão, que não chorava desde o enterro do pai, sentiu qualquer coisa a apertar-lhe a garganta e olhou para o lado para que Teresa não reparasse. Teresa reparou.

Lá dentro, Rufininho não se mexeu. Ficou de pé no centro da sala iluminada, os braços caídos ao longo do corpo, os óculos redondos a refletir o filamento incandescente. Havia semanas que não dormia mais de três horas seguidas. Havia meses que o seu corpo franzino carregava um peso que não era só físico. Havia uma vida inteira de engenhocas falhadas, de risos alheios, de grogue bebido para afogar o que não tinha nome.

As pernas dobraram-se-lhe sem aviso.

Não caiu violentamente. Foi antes um afundamento suave, quase digno, como se o corpo simplesmente tivesse decidido que já chegava, que já era suficiente, que podia finalmente descansar. Primeiro os joelhos tocaram o chão de madeira, depois as mãos, e por fim Rufininho ficou deitado de lado na sua sala iluminada, os olhos ainda abertos e fixos na lâmpada que brilhava acima dele com uma luz clara, limpa, sem fumo, que não cheirava a petróleo, que não morria com o vento.

Gregório ordenou à mulher que lhe arranjasse uma cama. Deitaram-no, cobriram-no com o cobertor, chamaram quem sabia de mezinhas.

Rufininho dormiu trinta e seis horas seguidas, um sono tão profundo e tão silencioso que a senhora Teresa, que tanto o ajudara no seu sonho, ficou de guarda na cadeira ao canto. Mais do que uma vez, inclinou-se sobre ele para verificar se ainda respirava.

Respirava.

E lá fora, na sala deserta, a lâmpada continuava acesa.

Comente

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *