ContosContos de São Vicente
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A cara do outro

Gonçalo Mendes Gonçalo Mendes
  • Set 20, 2026

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Uma velha mãe passa sessenta e oito anos a falar com os mortos. Mas há um nome que nunca conseguiu pronunciar — o do filho que ficou.

No Verão de 1977, nas noites quentes de Julho, a velha Inês começou a falar sozinha. A casa senhorial, a meia encosta sobre o vale de S. Vicente, tinha então poucos vivos lá dentro: a velha, de noventa e três anos, a filha Maria do Carmo, que ficara solteira para ficar com a mãe, e uma cadela sem nome que dormia na loja. Era pela janela aberta do quarto do meio que a voz saía, baixa e corrida, horas a fio, e Maria do Carmo, deitada no quarto ao lado com o sono leve dos que velam, ouvia-a através da parede como se ouve a ribeira: sem apanhar as palavras todas, mas sem poder deixar de escutar.

Nunca soube ao certo com quem falava a mãe. Com os mortos, achava ela; com um deles, sobretudo. Do que foi juntando dessas noites, pedaço a pedaço, entre o que ouviu, o que adivinhou e o que a freguesia inteira sabia por sua conta, ficou mais ou menos isto.

***

Casei aos dezassete anos, no ano de mil novecentos e um, com o Baltasar, que veio do Paul do Mar, da banda de lá da ilha, onde o sol dá com fartura o que aqui dá a conta-gotas. Vinha comprar gado e levou-me a mim. O meu pai ainda lhe disse:

— Olhe que a moça tem génio.

— Também os meus bois têm — respondeu ele — e havemos de nos entender.

Entendemo-nos. Dezoito anos me durou o homem, e nesses dezoito anos deu-me esta casa cheia: nove filhos, todos nascidos na cama grande do quarto do meio, onde nasci eu e onde hei-de morrer, se Deus se lembrar de mim. O Salvador em novecentos e dois, e depois os outros, ano sim, ano não, como as colheitas. Os dois últimos vieram juntos, a vinte e cinco de Outubro de mil novecentos e dezassete, numa noite de tanta chuva que a parteira ficou três dias à espera que a ribeira a deixasse ir.

Gémeos, e gémeos verdadeiros: o Gregório e o Tristão, uma cara repartida por dois corpos. Nem o pai os estremava, nem os irmãos, nem o senhor prior, que os trocou na pia do baptismo e teve de se benzer duas vezes. Eu nunca lhes errei os nomes. Perguntavam-me como fazia. Pelo riso, dizia eu: o Gregório ria primeiro e pensava depois; o Tristão era o inverso. De resto era o mesmo rapaz duas vezes, e a brincadeira mais velha que tinham era quererem provar-me que não.

— Mãe, eu sou o Tristão — dizia um, com a camisola do outro.

— Tu és o Gregório, e vai buscar a lenha que te mandei.

— E se a mãe se engana?

— O dia em que eu me enganar, filho, podem-me enterrar.

Deus me perdoe o que então disse. A gente semeia palavras sem saber o que elas dão.

O Baltasar levou-mo a pneumónica, no Dezembro de mil novecentos e dezanove. Veio a doença por todo o lado nesses anos, levou gente nova e deixou gente velha, sem tino nenhum na escolha, e a mim levou-me o homem em nove dias, com os gémeos ainda de camisa curta. Fiquei com nove filhos, as terras, as levadas por regar e uma casa grande que come uma viúva viva se ela se deixar comer.

Não me deixei. Reguei, mandei, vendi, ralhei. Os mais velhos pegaram nas enxadas, as raparigas no tear e no tanque, e eu peguei em tudo o resto. À noite, quando os deitava a todos, ainda dava uma volta à casa como o meu pai dava, a ver os fechos, e a última coisa que via antes de me deitar era a espingarda do Baltasar, atrás da porta da cozinha, pendurada nos dois pregos dele.

Podia tê-la vendido. Houve quem ma quisesse comprar, o Faria do Lombo ofereceu-me bom dinheiro por ela. Mas os melros comiam-me a uva toda em Setembro, e o Salvador já lhe sabia dar uso, e uma casa sem homem sempre dorme melhor com uma arma atrás da porta. Assim se dizia, e eu disse-o também. Deixei-a ficar. Isto conto eu depressa e passo adiante, que há coisas em que não se deve estar muito tempo parado.

Os anos foram indo. A vida de uma casa destas conta-se num fôlego: os regos de madrugada, a vindima em Setembro, a matança pelo Natal, a missa ao domingo com os filhos enfileirados por tamanhos, como órgãos de igreja. Os gémeos cresceram nesse rodado, sempre juntos, à escola pelo caminho da levada, aos ninhos, aos tanques. Apanhavam os dois quando a culpa era de um, porque averiguar qual fora dava mais trabalho do que valia o castigo. Eram os meus últimos. A gente quer aos últimos com um amor já sem medo. É esse o erro.

Foi na vindima de mil novecentos e vinte e nove. Tinham onze anos, iam nos doze. Andava o rancho todo na latada, mandei os dois adiante, que fossem pondo a mesa do farnel.

— Vai tu.

— Vão os dois, e não me bilhardem por lá.

Foram a correr, aos encontrões um ao outro, a rir. Foi assim que os vi ir. Ainda hoje os vejo ir.

O tiro ouviu-se na latada de cima. Um só, seco, que rolou pela encosta abaixo e voltou da fajã fronteira, como fazem os trovões neste vale, que nunca se contentam com soar uma vez.

O que vi na cozinha contei-o uma vez ao senhor prior, em confissão, e nem a Deus tornei a contar. Digo só o que se pôde escrever no papel do regedor: que o menor Tristão pegara na espingarda que estava atrás da porta, por brincadeira, para fazer de caçador, e que ela estava carregada. Estava carregada. Quem a carregou para os melros e a tornou a pendurar nos pregos não vem no papel do regedor. No papel do regedor vem que Deus dispôs assim.

O rapaz estava encostado à parede, com as mãos abertas diante do peito, a olhar para elas como se fossem de outro.

— Foi sem querer, mãe. Mãe, foi sem querer.

Eu não lhe respondi. Ajoelhei ao pé do que estava no chão e chamei-o pelo nome, uma vez, dez, cem. Era a única coisa que eu sabia fazer no mundo que mais ninguém sabia: chamar aquele nome sem errar. O nome já não tinha dono, e eu a chamá-lo.

Enterrei o Gregório numa quinta-feira de sol, num caixão que o carpinteiro fez de um resto de arca de vinhático e não quis levar dinheiro. À boca da cova benzeram-se as velhas todas, porque o irmão ia de mão dada com o Salvador, de fato domingueiro, e era o morto que ali ia, a ver-se enterrar a si mesmo.

Na manhã seguinte levantei-me antes de todos, embrulhei a espingarda no avental e levei-a ao poço grande da ribeira. Ninguém me viu. A água nem barulho fez. Abriu-se e fechou-se, como quem sabe guardar. Os melros comeram dali em diante as uvas que quiseram, anos e anos, e bem podiam comer a latada inteira.

Agora dizei-me vós, que tendes tempo: que faz uma mãe ao filho que ficou?

Eu digo-vos o que fiz, que para isso falo. Não lhe bati. Não o acusei. Não lhe disse, em voz alta, nos anos todos que se seguiram, uma palavra que um estranho me pudesse apontar. A freguesia que se lembre, e lembra-se, de quando a Firmina do Lombo se pôs no adro a dizer que o rapaz ficara marcado, que se lhe via o azar no olhar. Atravessei o adro diante do prior e da freguesia toda.

— O meu filho não tem marca nenhuma. E de portas para fora ninguém lhe toca.

— Eu não disse por mal, senhora Inês…

— Disse por dizer, que é pior.

De portas para fora, ninguém lhe tocou. De portas para dentro era outro governo, e o governo era o meu. Deixei de lhe errar o nome porque deixei de o dizer. Chamava-lhe o rapaz, ou esse, ou coisa nenhuma. Um aceno de queixo bastava, e ele vinha, que nunca filho nenhum me obedeceu tanto. Punha-lhe o prato como aos outros e nunca mais me sentei ao pé dele. Se me entrava na cozinha, achava eu que faltava água ou lenha. Se adoecia, tratava-o como se trata o filho de uma vizinha: com os remédios certos e as mãos frias.

Dizem que é pecado, tratar assim um inocente. O senhor prior disse-mo, por outras palavras, mais de uma vez.

— O rapaz não teve culpa, Inês.

— Eu sei.

— Então?

— Então nada, senhor prior. O senhor manda na minha alma, mas nos meus olhos não manda ninguém.

Porque era dos olhos, entendeis? O coração fazia o que podia; os olhos é que não perdoavam. Eu punha-os naquela cara e a cara era a do outro. O riso, que era a única estrema entre os dois, esse acabou-se-lhe nesse dia — nunca mais ninguém viu o Tristão rir — e sem o riso ficou-me em casa o meu morto vivo, à mesa, a crescer, a fazer-se homem com a cara que o outro nunca chegou a ter. Há luto para tudo. Para isto não há.

Uma noite, iam já os anos adiantados, levantei-me sem candeia e fui até à porta do quarto dele. Ficou-me a mão no fecho não sei quanto tempo. Ouvia-o respirar lá dentro. Pensei: entro, sento-me na beira da cama, digo-lhe o nome, e acaba-se esta guerra que ninguém declarou. Pensei também: e se lhe digo o nome e me sai o outro?

Voltei para a cama. Foi o mais perto que estive. Sabe Deus, que conta as passadas, o mais perto que estive.

Fez os dezoito anos a vinte e cinco de Outubro de mil novecentos e trinta e cinco. Nas duas semanas antes lavei-lhe e passei-lhe a roupa toda, cosi o que havia para coser, arrumei-a na mala de folha do meu pai. Em cima da mala pus o fato domingueiro do Baltasar e um lenço com dinheiro atado aos cantos. Contado duas vezes, que não se dissesse.

Desceu à cozinha nessa manhã e viu a mala à porta. Eu estava de costas, a atear o lume.

— Já és homem — disse eu. — Nesta casa já não tens conta.

Esteve calado um pedaço. Ouvi-o pegar na mala, no fato, no lenço.

— Diga-me só uma coisa, mãe. Diga-me o meu nome.

O lume estalou. Parti um graveto no joelho, devagar, e deitei-o às chamas.

— A bênção, mãe — disse ele então, da porta.

E eu, Deus me ouça agora que é tarde, eu calei-me. Calei-me com a bênção do meu filho na boca, que é como calar-se com pão na mão diante de quem tem fome. Ele desceu o caminho da levada, meia hora até à vila, aquele caminho da escola que dantes fazia acompanhado, e nunca mais ninguém o viu. Nesse dia mandei caiar o quarto dos gémeos e fechei-o à chave, e a chave aqui a tenho, na algibeira. Sempre a tive.

Soube-se dele por conta-gotas, como o sol da banda de cá. Que apanhara o vapor para Lisboa. Que assentara nos correios. Que casara com uma senhora de Alcobaça e tinha dois filhos e casa nos arredores. Que era homem estimado e calado, e que dizia ser do Norte quando lhe perguntavam donde era. E nem mentia, o meu rapaz. Nem mentia.

Uns anos depois da guerra veio uma carta. Letra de homem, selo de Lisboa, «Senhora D. Inês» no sobrescrito. Pesei-a na mão como quem pesa fruta. Guardei-a na gaveta do missal, entre o terço bom e as pagelas dos defuntos, e disse para comigo: hei-de abri-la num dia em que tenha força. Passaram trinta anos de dias, e a força, ou veio e não dei por ela, ou nunca veio. Mexo-lhe às vezes. Peso-a. Torno-a a guardar. Uma carta fechada ainda pode dizer tudo; aberta, diz só o que diz. Não riais, que isto sei-o eu melhor do que ninguém: vivo com uma carta fechada há trinta anos.

A Maria do Carmo, que é das que não desistem, ainda me armou uma cilada, quando puseram o telefone na venda. Levou-me lá com a desculpa de um retrós, e a certa altura estende-me o auscultador:

— É de Lisboa, mãe.

Ouvia-se do outro lado uma voz de homem: está, está lá. Eu olhei para aquilo na mão da minha filha o tempo de três palavras que não disse. Depois voltei-me para a vendeira:

— Dê-me antes linha castanha, que preto ainda tenho.

E de Lisboa, dizei-me, alguma vez tornou a tentar? Não tornou. Nem carta segunda, nem recado, nem retrato dos netos que me fez. Fizemos as pazes na única coisa em que sempre fomos parecidos, ele e eu: no feitio. Ficou cada um na sua margem a fazer conta que não olhava para a outra.

E eu durei, que é o castigo dos fortes. Enterrei o César em quarenta e um, com vinte e seis anos, do peito, como o pai. Enterrei o António em cinquenta e nove, por carta de Caracas com selo de luto, que é a pior maneira de enterrar. Enterrei o Salvador há três anos. Uma mãe não devia durar tanto que aprenda de cor o caminho do cemitério. Nove tive, e fui-os dando. Mas só um me foi tirado duas vezes e desta segunda fui eu que o tirei, a mim mesma, com as minhas mãos, como quem despendura uma espingarda de dois pregos.

Vês como falo, e nem sei se me ouves. Deve ser da calor. Amanhã calo-me. Amanhã ou depois.

***

A velha Inês morreu na madrugada de sete de Agosto desse ano de 1977, na cama grande do quarto do meio, como tinha contado. Teve dois dias de cama e lucidez quase até ao fim: mandou chamar o prior, pôs em dia as contas de Deus, deu à Maria do Carmo a chave do quarto caiado e disse onde estava o dinheiro do funeral, contado e atado num lenço. Na última noite disse um nome, uma só vez, baixinho. Maria do Carmo, que lhe segurava a mão, jura que foi Tristão. A irmã mais velha, que estava aos pés da cama, jura que foi Gregório. Hão-de discuti-lo enquanto forem vivas, sem remédio: os dois nomes tinham a mesma cara.

Mandou-se telegrama a Lisboa, para a morada do sobrescrito, com o dia e a hora do enterro. Houve quem passasse a véspera a espreitar a curva da estrada, a ver se descia um táxi do aeroporto. O funeral desceu à igreja com o vale todo atrás, e de Lisboa chegou o que se esperava: nada. Semanas depois voltou o telegrama dobrado num sobrescrito oficial, com um carimbo a dizer que o destinatário mudara de morada e não deixara indicação.

A carta foi encontrada na gaveta do missal, no lugar de sempre, com os cantos gastos e moles como pano. Uma carta não se gasta assim fechada numa gaveta; gasta-se na mão de quem a pega, a pesa, e a torna a guardar. Maria do Carmo teve-a uma tarde inteira ao pé do lume, a virá-la como a mãe a virara trinta anos. Abri-la já não servia os vivos e violava os mortos. Os dois: o que a escreveu para uma mulher que já lá não estava, e a que morreu sem a querer ler. Se a queimou, se a guardou, se a meteu no caixão, a cada sobrinho conta uma versão, e talvez já nem ela saiba a verdadeira, que as famílias precisam mais de segredos do que de certezas.

Ficou a casa, fechada, à espera de herdeiros que se não entendem. Ficaram no cemitério lá de baixo uma campa com um nome de menino e datas curtas, e outra ao lado, comprida de noventa e três anos. E ficou a história. Escondida, até porque ninguém a sabe ou se sabe não a revela. A tragédia perdeu-se na memória do tempo. Apenas um ou outro familiar a conta para relevar a natureza áspera da família: a da bisavó que teve nove filhos e num só tiro perdeu dois — o que morreu, e o que ela nunca mais foi capaz de ver, porque lhe ficou para sempre com a cara do outro.

GM — 04/07/2026

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