O laço nunca chegou a voar. Não haveria tempo para isso.
O Grito
Terceira e última parte.
A gargalhada do filho do antigo dono ecoou pelo vale, repetindo-se de colina em colina, voltando de todas as direcções, como se o próprio vale se risse dela.
— Bonitas palavras — disse ele, quando o eco se calou. — Para uma escrava fugida.
Gasmira não tirou os olhos dos três homens. As pernas não tremiam. O suor que lhe cobria o rosto era do esforço, não do medo. Não havia medo. Havia apenas uma coisa que precisava de fazer antes.
Os dois homens que o acompanhavam mantinham a distância, as espadas ainda em riste, os olhos a saltar entre Gasmira e o precipício às suas costas, como quem calcula um salto que não quer dar. O cão, mais atrás, puxava a corda com o focinho no ar, sentindo na pedra qualquer coisa que os homens ainda não sentiam.
O mais velho dos dois trazia uma corda enrolada ao ombro e um saco de linho pesado ao lado, e nele via-se a marca de quem já tinha feito aquilo antes. Não estava ali por ninguém. Estava ali pelo pagamento prometido por cabeça entregue, e a diferença notava-se: os olhos dele não tinham a fome do patrão, só o cálculo de quem conta passos e reparte lucro. Dois anos de recompensa por cobrar, e agora, ali estava ela, a um braço de distância.
— Quero ver a minha filha — disse. — Agora.
— Não tens direito a nada — respondeu o filho do antigo dono. — Ela agora é minha. Ela sempre foi minha.
— Também a vão pôr na fogueira?
Ele hesitou, só um instante, antes de responder. E foi nesse instante, breve como um pestanejar, que Gasmira percebeu que aquele homem não tinha vindo ali só por ordem de ninguém. Dois anos a mandar procurar uma escrava fugida não é serviço. É obsessão. E obsessão tem sempre uma ferida por baixo.
— Ela vai crescer numa casa — disse ele, por fim. — Vai ter cama, vai ter comida. Vai ter mais do que alguma vez lhe darias aqui, escondida como um bicho num buraco.
— Um bicho num buraco que a pariu livre.
A mulher de negro deu um passo à frente com Guayarmina ao colo.
— Ela não tem culpa nenhuma — disse, afagando a face da criança. — Eu trato dela. É tão linda.
— Prometes? — disse Gasmira. — Juras que vais cuidar dela como se fosse tua?
A mulher olhou para ela por cima do véu. Hesitou.
— Sim. Vou cuidar dela.
— Jura pelo que for mais sagrado para ti.
— Juro.
Afastou-se com a criança e desapareceu no arvoredo. Um dos homens fez menção de a seguir, escoltá-la, mas o filho do antigo dono levantou a mão e ele parou.
Gasmira olhou para onde a mulher tinha ido. Os olhos ficaram ali um momento, fixos na folhagem que ainda se mexia por onde ela tinha passado.
— Cuida bem da minha Mina — disse, para o ar. — Guayarminaaaa.
Os homens aproveitaram o momento para avançar. Um deles, mais impaciente, deu três passadas largas e estendeu a mão livre, como quem agarra um animal pelo pescoço. Ela ergueu a catana num arco rápido, cortando o ar a um palmo dos dedos dele. O homem recuou de um salto, praguejando, e os outros dois voltaram a alinhar-se atrás dele, mais cautelosos.
— Da próxima corto a mão — disse Gasmira. — E não estou a brincar.
Ninguém duvidou.
Pôs-se de joelhos. Apoiou as mãos na catana. Ficou assim, os olhos no chão entre os joelhos, durante quanto tempo não sabia. Os homens não se mexeram. As árvores também não.
Atrás dela, o til que a sombreava desde que descobrira aquele vale — o mesmo tronco onde Maninidra encostava a vara ao fim do dia, o mesmo lugar onde punha Guayarmina a dormir à sombra, entre as raízes grossas que saíam da terra como dedos velhos — parecia também esperar. Sentiu a casca áspera nas costas quando se encostou a ele pela última vez.
— Levanta-te — disse o filho do antigo dono, e havia agora na voz dele um quê de súplica que ele próprio parecia não reconhecer. — Vem comigo. Ninguém te vai queimar, prometo-te. Eu trato disso.
Quando se levantou, largou a catana no chão.
O som do metal na pedra foi o único ruído durante um bocado. Os três homens entreolharam-se, sem saber se aquilo era rendição.
Não era.
O homem da corda desenrolou-a do ombro devagar, sem pressa, e começou a fazer um laço, os olhos fixos nela, medindo a distância como quem já fez a mesma conta muitas vezes.
O laço nunca chegou a voar. Não haveria tempo para isso.
Deu três passos em direcção ao vazio. Abriu os braços. O vento subia do abismo com o cheiro da ribeira e da humidade das encostas — o mesmo vento que Maninidra sentira no peito no instante do salto, o mesmo vale que os escondera durante dois anos, o mesmo til que lhe cobria as costas quando ainda tinha para onde recuar.
— Espera — disse o filho do antigo dono, e desta vez a voz tremeu. — Espera!
— Só é escravo quem quer — disse ela, sem se voltar.
Fechou os olhos. Dentro das pálpebras viu Maninidra a descer o desfiladeiro com a vara ao ombro, a rir-se do precipício. Viu Guayarmina a dormir na gruta com a boca aberta e os cabelos em desordem. Viu o lago de águas cristalinas onde a filha nascera, e o riacho onde escondera o sangue do parto debaixo de terra, anos atrás, para que ninguém soubesse que ali morava gente livre.
Respirou fundo.
Levantou a cabeça para o céu e gritou:
— Atistirma! Atistirma! Atistirma!
O grito de liberdade de Gasmira ecoou, primeiro com força, depois suavemente pelo vale, embalado pelo canto dos pássaros que, em simultâneo, levantaram voo, acompanhando a queda no precipício. Umas atrás das outras, as aves mergulharam no vazio, numa corrente contínua, impedindo os perseguidores de se aproximarem da beira do abismo, fazendo-os recuar. O bater das asas foi, então, substituído pelo chilrear insistente de um mar de pássaros de todas as cores e feitios, que, elevando-se numa enorme espiral desenhada no ar, acompanharam o espírito de Gasmira na sua subida ao encontro de Maninidra.
Depois, o silêncio foi absoluto.
O filho do antigo dono ficou parado à beira do abismo, a espada ainda na mão, sem saber contra quem a havia de erguer.
O homem da corda foi o primeiro a baixar a arma. Não valia a pena morrer, nem matar, por um pagamento que já ninguém lhe devia. Enrolou a corda ao ombro, assobiou ao cão, e começou a descer a encosta sem olhar para trás.