Contos com História
  • 14 minutos de leitura

O homem que sabia fazer açúcar (1)

Gonçalo Mendes Gonçalo Mendes
  • Jul 19, 2026

Comments visualizações
magzin magzin

No centro da Questão Hinton esteve um homem a quem raramente deram voz: João Higino Ferraz, herdeiro de fabricantes e mestre na arte de fazer açúcar. A partir dos seus cadernos, esta narrativa recupera uma vida ligada aos engenhos, à família e à transformação da indústria açucareira madeirense.

Três histórias da Questão Hinton

Entre os finais da Monarquia e o Estado Novo, uma disputa que encheu jornais, folhetos e sessões do Parlamento — a Questão Hinton: saber de quem devia ser o açúcar da Madeira, se de uma firma inglesa protegida a decreto, se do Estado, se dos lavradores, se dos alambiques da aguardente. Discutiu-se meio século. Este conto não é sobre essa disputa: é sobre o homem que esteve sentado no meio dela, sem que ninguém lhe perguntasse nada — o homem que sabia fazer açúcar.

Chamava-se João Higino Ferraz. Neto e filho de fabricantes, viu a fábrica da família ir à praça aos vinte e três anos, e acabou gerente técnico do Torreão — a alma técnica do monopólio que engolira os engenhos todos da ilha, incluindo o da sua gente. Durante quarenta anos copiou tudo o que escreveu em nove livros, guardados em casa. Quando a fábrica desapareceu e o arquivo do império se perdeu, foi o espólio do empregado a única coisa que restou. É nele, e nas suas notas em que o octagenário fez as contas à vida e pediu o que nunca lhe deram, que este conto — três partes, factos documentados, invenção confessada na nota final — vai buscar a sua matéria.

A Praça

Na noite de 25 de Novembro de 1944, no Funchal, o vento sul sacudia as persianas e a cidade recolhera cedo, como se recolhia tudo naqueles anos de guerra alheia. Um velho de oitenta e um anos sentou-se à secretária, aproximou o candeeiro e abriu diante de si duas coisas: um caderno novo, comprado de propósito, e um livro antigo de capa cansada, com quase um século — as notas que o avô escrevera em 1848 sobre a destilação de vinhos e a refinação do açúcar, numa letra que já ninguém usava e que ele lia como quem ouve.

Chamava-se João Higino Ferraz. Na cidade, quem o conhecia — e conhecia-o toda a gente que alguma vez tivera um pé de cana ou uma garrafa de aguardente — dizia só: o Ferraz do Torreão. Molhou o aparo, pensou um bocado, e escreveu a primeira linha da noite: «Tenho n’um livro antigo (1848), notas escritas por meu avô…»

Ia fazer as contas à vida. E as contas, nele, eram um vício de nascença: toda a vida as fizera, ao açúcar, ao álcool, aos hectolitros e aos quilogramas, às purezas e aos rendimentos, com uma exactidão que os franceses lhe gabavam por carta. Só as contas dos anos é que lhe saíam sempre com um ponto de interrogação — «38 anos de existencia (?), a 40 anos (??)» — porque os anos, ao contrário do açúcar, não se deixam pesar duas vezes.

Havia uma pergunta que ele trazia atravessada, e que haveria de escrever antes do fim, com a mão já cansada. Mas essa fica para o seu lugar. As histórias, como as safras, têm o seu tempo — e esta começa muito antes daquela noite, num tacho de cobre e numa epidemia.

O avô, Severiano Alberto Ferraz, destilava vinhos e refinava açúcar bruto quando o açúcar da Madeira era ainda um resto de memória de quinhentos anos. Deixou as suas receitas apontadas num livro em 1848, com a letra de quem aprendeu a escrever para não se esquecer das coisas, e morreu oito anos depois, em 1856, da cólera — que nesse ano andou pela cidade a fazer o seu próprio inventário, e não olhava a purezas.

Ficaram os filhos e ficou a ideia. Nos anos seguintes, montaram a fábrica de açúcar da Ponte Nova e fizeram dela firma de família: Ferraz Irmãos. Eram três — João Higino, o pai; Severiano, o técnico; e Ricardo Júlio, que fora a França tirar o curso de engenheiro de Pontes e Calçadas e voltou doutor. A ilha replantava então os canaviais que o vinho expulsara séculos antes: a vinha adoecera, o açúcar prometia, e as famílias que tinham tachos, alambiques e coragem meteram-se à cana como outrora se tinham metido ao mar.

Do doutor Ricardo convém contar já o que a família contava baixo. No segundo ano de laboração da fábrica, o moinho da cana levou-lhe o braço esquerdo. Não se sabe como foi, porque disso não se falava à mesa: sabe-se que houve um grito por cima do barulho das moendas, e que o barulho não parou logo, e que o doutor Ricardo, engenheiro por França, aprendeu dali em diante a assinar com a direita o que a esquerda já não discutia. Foi para Lisboa, foi para os Açores fazer a doca de Ponta Delgada, casou, voltou, e acabou deputado pela Madeira. A fábrica ficou com o braço; ele ficou com a política. Dos dois destinos, ninguém na família soube nunca dizer qual foi o mais caro.

O sobrinho João Higino — filho do primeiro João Higino e segundo do nome; o nosso — nasceu em 1863, no meio daquilo tudo: cresceu com o cheiro do melaço no quintal e a aritmética ao jantar. Aos dezoito anos, em 1881, regressou de Lisboa dos estudos, chamado pelo tio Severiano, e entrou na fábrica da família pela porta que era sua. Conta-se que o tio, no primeiro dia, o levou aos tachos, tirou uma pinga de xarope com a vareta, e lha estendeu sem uma palavra.

— Está no ponto — disse o rapaz, depois de provar.

— Está no ponto porquê?

— Porque… está no ponto, tio. Sente-se.

— Sente-se. — O tio Severiano cuspiu para o borralho, devagar. — O teu avô sentia. Eu sinto. Tu vais é medir, que é para quando nós morrermos a fábrica não morrer também. Sentir não se herda; medir aprende-se. Vai buscar o termómetro.

Foi buscar o termómetro e nunca mais o largou. Aos vinte e um era técnico da casa. Sabia, por dentro e por fora, tudo o que um tacho, uma caldeira e uma turbina têm para ensinar a um rapaz que pergunta — e tinha o defeito feliz de perguntar sempre, e o vício, que o havia de acompanhar até à cova, de apontar as respostas.

A firma durou o que duram as firmas de irmãos: enquanto os irmãos. Morto o tio Severiano, que era quem segurava as pontas, a Ferraz Irmãos entrou em liquidação no ano de 1886, com trinta e tal anos de existência — trinta e seis, quarenta, o próprio João Higino nunca conseguiu fechar a conta sem pontos de interrogação — e a fábrica da Ponte Nova, com os seus tachos, as suas moendas e o seu braço cobrado, foi a leilão.

A praça fez-se como se fazem as praças: à hora marcada, com pouca gente e muito silêncio. João Higino tinha vinte e três anos e um amigo antigo, o Mails, que o puxou para um canto antes de abrirem as licitações.

— Faço-me teu sócio. Eu entro com o capital, tu entras com o que sabes. A fábrica é da tua gente; que fique na tua gente.

— E se não chegar?

— Chega. Quem há-de dar mais por uma fábrica destas?

Havia. Um capitalista vindo de Demerara, de nome Manica, que ouviu as contas dos dois, esperou o seu momento, e oferecia sempre mais. Quando o martelo bateu, a fábrica do avô Severiano era de um homem que nunca tinha refinado um pão de açúcar na vida, e João Higino Ferraz saiu para a rua com o chapéu na mão e a profissão no ar. Anos depois, nas notas, resumiu aquele dia numa linha com um sinal de espanto no fim, que era, na pontuação dele, o que mais se parecia com uma ferida: «Não ficamos, porque Manica ofereceu mais (!)»

Esteve dois anos sem emprego algum. Dois anos que despachou sempre em meia linha, toda a vida, como quem passa depressa por uma porta fria: um técnico de vinte e poucos anos, na cidade onde toda a gente sabia de quem ele era filho e o que a família tinha perdido, a fazer contas — as contas, sempre — a uma vida que não rendia. A ilha estava cheia de engenhos e nenhum tinha lugar para um Ferraz. Talvez fosse coincidência. Nas terras pequenas, as quedas das famílias grandes assistem-se da janela.

Valeu-lhe um amigo, Joaquim de Sousa, e um amigo do pai, Cristóvão de Sousa, que tinha uma fábrica de destilação na Ponte do Deão. João Higino arrendou-a em 1888, de sociedade com o tio materno, João Cezar de Carvalho, que fora guarda-livros da firma falida — dois náufragos da mesma casa, agarrados ao mesmo alambique. Onze anos ali esteve, a fazer aguardente de cana e álcool de melaço importado das Índias Ocidentais, de Demerara e Trindade, em barcas de nomes confiados — a Felizberta, a Esperança — que traziam nos porões o açúcar dos outros para uma ilha que já não sabia fazer o seu.

Foram os anos mansos. O Deão era pequeno, o lume era certo, e a sociedade dos dois tinha uma divisão de trabalho que nunca precisou de contrato: o sobrinho tratava do que fervia, o tio do que se somava. Ao fim da tarde o velho guarda-livros fechava o razão com a régua, tirava os óculos, e fazia sempre a mesma pergunta:

— Rendeu?

— Rendeu o costume, tio.

— O costume é bom. — E limpava os óculos ao lenço, com uma pausa de quem vai dizer mais alguma coisa. — Na Ponte Nova também rendia o costume. Até deixar de render tudo. — E não dizia mais nada, e não era preciso: a falência de uma casa de família é uma escola completa, e os dois tinham-na tirado com distinção.

À noite, no quarto por cima do alambique, João Higino lia os boletins dos químicos de França, a cuja associação se haveria de juntar como sócio pagante, e enchia cadernos com purezas, densidades e desenhos de aparelhos que o Deão nunca poderia pagar. O tio achava àquilo uma graça desconfiada:

— Estudas máquinas para uma fábrica que não tens.

— Estudo máquinas para as fábricas que há-de haver.

— E quem tas há-de dar a ti?

Não respondeu, porque não sabia. Um homem pode perder a fábrica da família, mas não perde o direito de saber mais do que os donos das outras — e o saber, ao contrário da fazenda, não vai à praça. Era o que ele tinha; guardava-o com juros.

Foi também nos anos do Deão que casou, em Junho de 1891, e que a casa se lhe foi enchendo de filhas e de um filho — a Mathilde, a Maria Elisa, a Maria Sofia, o João, a Maria Amélia — criados todos ao ritmo das fornadas e das safras, habituados a um pai que amava com a mesma pontualidade com que destilava, e que às perguntas da vida respondia como aos boletins de França: depois de conferir.

E aqui entra na história, pela porta grande, o senhor Harry Hinton.

Convém primeiro dizer o que era, nesse fim de século, a casa William Hinton & Sons: era, cada vez mais, o açúcar da Madeira. Firma inglesa de pai para filho, dona do engenho do Torreão, à beira da cidade, que crescia enquanto os outros minguavam — e os outros eram então perto de meia centena, espalhados pela ilha, engenhos de família como fora o dos Ferrazes, uns a vapor, outros ainda a bois, todos a moer a mesma cana e a disputar o mesmo tostão. Harry, o chefe, era um inglês nascido para aquilo, insaciável de máquinas novas, com a cabeça no Funchal e os pés em Lisboa, onde ia tratando do que as máquinas não resolvem — que é, como se verá, a parte desta história que os manuais de química não trazem.

Em 1899, Harry Hinton viu-se sozinho na gerência do Torreão, com a fábrica a crescer-lhe nas mãos, e fez o que fazem os homens espertos: foi buscar quem sabia. E quem sabia, na ilha, com a paciência dos tachos e a ciência dos boletins franceses, era o arrendatário da Ponte do Deão.

Encontraram-se. As instâncias — a palavra é do próprio Ferraz, «por instancias do meu sempre amigo» — duraram o que durou o escrúpulo: João Higino tinha sociedade com o tio, e o tio era velho, e a sociedade era o pão do tio.

— Não posso deixar o meu tio João sem nada. Foi ele que ficou comigo quando não fiquei com nada.

Harry Hinton ouviu, fez as suas contas — que também as fazia, e depressa — e respondeu como respondem os ingleses quando querem mesmo uma coisa:

— A firma dá uma mesada ao seu tio enquanto ele for vivo. Escreve-se no papel. Mais alguma dúvida?

Não havia mais dúvida. Havia só, algures no fundo, uma ironia que nesse dia ainda ninguém podia medir, e que o tempo se encarregaria de pôr a render: porque a casa Hinton, na sua marcha de comprar e desmontar os engenhos todos da ilha, haveria de comprar também, anos fora, a velha fábrica da Ponte Nova — a do avô Severiano, a do braço do doutor Ricardo, a do martelo da praça. O homem que ia agora assinar contrato com o Torreão acabaria empregado do dono da fábrica que fora sua.

Entrou em 1899; o contrato definitivo fez-se em 1900, «sem tempo determinado» — cláusula que se revelou profética, porque o determinado, dali para a frente, foi ele. Tinha trinta e seis anos, um ofício de três gerações, e uma letra desenhada e certa que ia dar que fazer à História. Harry tinha quarenta e três, uma fábrica com fome, e o século novo à porta.

No primeiro dia, contam, atravessou o portão do Torreão devagar, olhou as chaminés, os difusores parados à espera da safra, os carros de cana no pátio, e disse para consigo — «com os seus botões», como se dizia na terra da mãe — a única coisa que um homem daquela linhagem podia dizer perante aquilo:

— Isto está tudo por afinar.

E meteu mãos à obra. Sessenta anos depois, na noite do caderno, haveria de somar tudo — a Ponte Nova, o Deão, o Torreão — e escrever, com três pontos de exclamação que eram nele uma festa e uma queixa: «Sou pois fabricante de assucar aguardente e alcool á 60 anos!!!»

O que ele ainda não sabia, nesse primeiro dia de 1899, é que não ia apenas afinar máquinas. Ia ser, durante quase meio século, o escrivão, o engenheiro e a consciência mal paga daquilo a que o país inteiro haveria de chamar, com azedume parlamentar, a Questão Hinton — e que ele, que a viveu por dentro, tratava nas cartas por coisa mais simples: o serviço.

Fonte: Edição do arquivo particular de João Higino Ferraz — Copiadores de cartas (1898-1937), livros de notas e notas autobiográficas —, CEHA, com estudo introdutório sobre a Questão Hinton, sob a direção do Professor Doutor Alberto Vieira
Nota: Imagem gerada por IA

(Continua)

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *